Pedro Barbosa, pioneiro na ciberliteratura

É o autor do livro A Literatura Cibernética 1: autopoemas gerados por computador, publicado em 1977, e fundou o Centro de Texto Informático e Ciberliteratura da UFP.

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Pedro Barbosa dr

“Confesso que não sei explicar bem de onde surgiram os meus primeiros trabalhos nesta área”, diz Pedro Barbosa, o primeiro português a criar poemas gerados por computador nos anos 70, quando estes eram ainda máquinas enormes que usavam cartões perfurados. O seu livro A Literatura Cibernética 1: autopoemas gerados por computador (Edições Árvore, 1977), no qual divulgou uma escolha de poemas que resultavam de fragmentos de textos de Camões ou Mário Cesariny cujo léxico o computador recombinara, é o verdadeiro aparecimento em Portugal daquilo a que depois se chamou literatura electrónica.

“Quando começaram a surgir os primeiros grandes computadores, não eram usados como agora, como máquinas de armazenamento e transmissão de informação, eram vistos como máquinas algorítmicas, um amplificador das capacidades do cérebro humano”, diz Pedro Barbosa. “E se o cientista, o matemático, não o dispensavam, e era já usado na música electrónica, a minha questão era: como usar essa máquina amplificadora da mente na criatividade literária?”.

Desta questão consigo mesmo nasceu um trabalho que “tinha algo de aprendiz de feiticeiro": usar o computador na literatura como um “telescópio de complexidade”, o que obrigava a fazer programação. Hoje considera essas primeiras tentativas “historicamente datadas” e revê-se mais em trabalhos posteriores, já no âmbito da hipermédia. Mas o que então o fascinou foi “o modo como o computador permitia uma aproximação inesperada à vertigem do infinito face à finitude humana, podendo gerar em poucos segundos milhares de textos diferentes dentro da mesma matriz literária”. O texto dava assim lugar a “um campo textual sem horizonte à vista e que já não fazia sentido imprimir em papel”.  

Perante este texto potencial, virtual, “todos os conceitos na comunicação literária – autor, texto, leitura – tinham de ser reformulados e era preciso inventar palavras novas”. Assim nasceu o termo “ciberliteratura”, que hoje até nem lhe parece o ideal para designar a sua linha de trabalho específica, a que prefere chamar “literatura generativa”.

Esse texto aleatório que o computador gerava tinha várias consequências interessantes. “Nenhum regime de censura funcionaria quando o autor não podia prever, à partida, o sentido exacto do texto potencial a ser gerado pelo programa no computador”, argumenta, contando que também houve problemas ao nível de direitos de autor. “As Sociedades de Autores funcionam na base do texto fixado e no controle das cópias, mas como fazer contrato para um multitexto em estado virtual?”, pergunta. A questão tornou-se prática nos anos 90, quando editou Teoria do Homem Sentado, que “era já de certa forma um livro virtual, que continha, em disquete, o programa SinText, um  sintetizador textual.  

Um dos autores cujos textos Pedro Barbosa utilizou foi Herberto Helder, de quem gostava particularmente. “Inseri fragmentos de textos dele e constatei que aquilo que o computador me devolvia acabava por ser ainda mais surpreendente do que o original, ou seja, a máquina estava a potenciar a criatividade humana, e isso mostrou-me que estava no caminho certo”.

Mais tarde, já depois de ter fundado o Centro de Texto Informático e Ciberliteratura da UFP, hoje dirigido por Rui Torres, fez em 2001 o texto para a ópera electrónica AlletSator, usando um texto gerado no programa SinText que depois adaptou à representação teatral. “A estrutura combinava uma base aleatória com uma base combinatória, gerando um texto com uma circularidade repetitiva, em espiral, que os actores tiveram imensa dificuldade em memorizar, porque não havia apoios mnemónicos de tipo psicológico”, explica. Interessado na desconstrução da linguagem, a experiência ajudou-o a perceber como “a lógica algorítmica” do computador “removia os nossos automatismos e estereótipos mentais”.

Pedro Barbosa sempre quis produzir “textos sintacticamente correctos, mas que fizessem um sentido novo, inesperado”. O objectivo, resume, “era libertar a imaginação”. A título de curiosidade, deixa-se aqui uma das variações geradas por computador a partir da estrofe inicial de Os Lusíadas, incluída no seu livro de 1977: “As almas e os anões assinalados/ Que, da acidental laia lusitana,/ Por mares nunca de antes namorados/ Passaram ainda além da Safardana,/ E em abrigos de serras esfalfados,/ Mais do que prometia a força humana,/ Entre gente peixota edificaram/ Novo Reino, que tanto petiscaram”.