O estranho regresso a casa de uma desertora norte-coreana

Lim Ji-hyun parecia integrada na sociedade sul-coreana, participando até em programas televisivos. Autoridades de Seul suspeitam que tenha sido raptada por Pyongyang e forçada a regressar. Ela garante num vídeo, de propaganda, naturalmente, que voltou porque quis.

O vídeo de Lim Ji-hyun foi transmitido pela televisão sul-coreana
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O vídeo de Lim Ji-hyun foi transmitido pela televisão sul-coreana LUSA/JEON HEON-KYUN

Na Coreia do Sul, Lim Ji-hyun não era apenas uma norte-coreana que, em 2014, tinha fugido a um regime opressivo – era uma celebridade televisiva. Não é difícil concluir que a sua presença, ainda que modesta, em entrevistas e reality shows amplificava o incómodo que esta desertora causava a Pyongyang. É por isso que, depois de uma mulher muito parecida com Lim Ji-hyun, 26 anos, ter surgido num vídeo de um site de propaganda norte-coreana no domingo, aumentaram a suspeitas – e os receios – de que tivesse sido raptada e forçada a regressar ao país onde nasceu.

No vídeo, a presumível Lim Ji-hyun – as autoridades policiais do Sul ainda não confirmaram a identidade da mulher, embora acreditem que regressou à Coreia do Norte e que é ela quem surge filmada, segundo a agência de notícias Associated Press – diz, entre outras coisas, que foi iludida e obrigada a difamar o Norte, avança a BBC. E acrescenta que cruzou a fronteira voluntariamente.

Terá sido a “fantasia” de que no Sul poderia “comer bem e ganhar muito dinheiro” a atraí-la, admitiu.

Já disponível no Youtube, o vídeo com quase meia hora mostra-a ladeada por uma mulher e um homem, a entrevistadora e um antigo desertor, Kim Man-bok, e o seu rosto está longe de irradiar a pelo menos aparente descontracção comum à sua persona televisiva. Nele apresenta-se como Jeon Hye-Sung, o nome que usava no Norte, e confessa que, quando estava na Coreia do Sul, acabou por ter de se esforçar muito para garantir que o dinheiro chegava até ao fim do mês.

“A minha vida no Sul foi um inferno. Quando estava sozinha num quarto escuro e frio, de coração partido, chorava todos os dias com saudades da minha terra e dos meus pais”, diz ainda, aqui citada pelo jornal norte-americano The New York Times, sem nunca contar como regressou a casa dos pais, há cerca de um mês. E, entre lágrimas, agradece ao líder do país, Kim Jong-un, a “segunda oportunidade” que lhe dá.

Nos programas de entretenimento em que participou na televisão por cabo sul-coreana, que podem ser descritos como sensacionalistas mas que dão a conhecer a cultura e a vida que se leva no Norte, Lim Ji-hyun chegou a ensinar como se subia às árvores e se fazia uma fogueira – algo que terá aprendido quando integrava uma unidade de artilharia do exército norte-coreano –, e a contar, envergando um uniforme militar, como costumava subornar o professor com um maço de cigarros para que a deixasse faltar às aulas para ir vender bebidas alcoólicas para a rua.

Até há um mês, Lim Ji-hyun vivia num pequeno estúdio de Seul e parecia estar bem integrada. Tinha até um blogue e um clube de fãs, que acompanhava as suas participações televisivas.

Mais de 30 mil desertores

O governo sul-coreano está agora a investigar como terá Lim Ji-hyun regressado ao Norte. Segundo o Korea Times, um dos diários em inglês publicados na Coreia do Sul, há desertores norte-coreanos que avançam como possibilidade que Lim Ji-hyun tenha sido raptada na fronteira entre a China e a Coreia do Norte quando tentava ajudar familiares a fugirem.

Escreve o New York Times que, desde finais da década de 1990, quando o país foi atingido pela fome, terão sido mais de 30 mil os norte-coreanos a fugir para o Sul e que, desde Dezembro de 2011, com a chegada de Kim Jong-un ao poder, 25 reapareceram, sempre com a mesma justificação – fartaram-se da vida que levavam na Coreia do Sul, onde lhes era difícil encontrar trabalho adequado.

Quando chegam ao Sul, os norte-coreanos, habituados a um regime autoritário em que as liberdades individuais estão muitíssimo limitadas, cumprem um programa de um mês desenhado para os ajudar a adaptarem-se à vida que os espera. Mas, continua o jornal americano, muitos acabam por não conseguir acompanhar o ritmo de uma sociedade capitalista altamente competitiva, por estarem menos preparados do que os colegas que encontram nas escolas, nas universidades e nas empresas. A maioria acaba por ficar com os trabalhos menos qualificados, que os sul-coreanos rejeitam. Muitos não conseguem lidar com o facto de nunca mais poderem ver a família.

As autoridades de Seul admitem que alguns dos desertores regressam por desespero, mas acreditam que outros são raptados, depois de atraídos à China, e chantageados por Pyongyang, que ameaça constantemente os familiares que permanecem no Norte, tratando-os como reféns.

As Nações Unidas têm vindo a denunciar a permanente violação dos direitos humanos na Coreia do Norte.