Crítica

Flores do mal

Florence Pugh é espantosa em Lady Macbeth no modo como passa da desesperada desolação da solidão à dureza inquebrável e insensível.

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Florence Pugh: uma jovem forçada a um casamento de conveniência com um homem mais velho
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Cosmo Jarvis: o moço de estábulo com quem se envolve
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Houve duas daquelas “bocas” portugueses meio boçais que nos vieram à cabeça a ver a primeira longa-metragem do inglês William Oldroyd. Primeira: “os homens querem-se é brutos e a cheirar a cavalo”. Porque, de facto, todos os homens de Lady Macbeth (ou todos os homens que contam para a história) são brutos e lacónicos, eles é que querem, podem e mandam, mesmo quando são subalternos ou moços de estábulos, eles é que se forçam e a mulher que se aguente à bronca. Segunda: “as gajas são do pior”. Porque, de facto, todas as mulheres de Lady Macbeth estão em permanente guerra umas com as outras, num constante jogo de posições para ver quem sai por cima. Patroas ou criadas, não têm grande solidariedade de género: é cada uma por si e fé em Deus. Ou, no caso de Katherine, a personagem central do filme, fé é coisa com que não se conta muito.

Forçada a casar-se com um homem mais velho que não tem o mínimo interesse nela e a ignora ostensivamente, encafuada diariamente numa casa de onde não pode sair e onde ninguém a visita, tudo em nome de uma suposta “etiqueta social” para quem a mulher é mero ornamento, Katherine decide que não vai ser a santa que o sogro ríspido e o marido desinteressado querem. A sua luta pela independência numa sociedade não vai, contudo, ser limpa. Katherine vai lutar à altura de homem, usando as armas que o seu sexo — e a sua inteligência — lhe deram, lançando um arrasador jogo de manipulações que não deixa pedra sobre pedra.

O rasgo de inspiração de Oldroyd, adaptando a novela do russo Nikolai Leskov Lady Macbeth de Mtsensk, é ver esta história clássica com um olhar moderno. Recusa julgar a sua personagem, e observa meticulosamente o modo como Katherine transpõe os degraus e passa de humilhada a humilhadora, de mero “móvel da casa” a senhora do seu destino. Florence Pugh é espantosa no modo como toma as rédeas da situação e passa da desesperada desolação da solidão à dureza inquebrável e insensível. A única resistência eficaz, para uma oprimida presa num sistema sem saída, é tornar-se ela própria opressora, sem olhar a custos. E Oldroyd filma esse percurso com uma claustrofobia opressiva e sufocante, onde tudo na fotografia de Ari Wegner sublinha o ambiente rígido de estufa abafada desta casa, ao mesmo que se mantém suficientemente distante dos planos quase de film noir de Katherine para poder olhar para esta situação como uma inexorável tragédia, muito próximo do “horror” que os velhos gregos achavam que a forma devia inspirar.

Lady Macbeth recusa as convenções edulcoradas do filme de época, está mais próximo do despojamento do Diário de uma Criada de Quarto segundo Jacquot ou do arrebatamento telúrico do Monte dos Vendavais de Andrea Arnold. É uma das mais promissoras e conseguidas estreias que vemos em muito tempo, faz-nos acreditar que ainda é possível fazer cinema que pensa enquanto fala ao espectador.