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Eusébio é um símbolo num país racista

É seguro afirmar que Portugal possui um elevado nível de preconceito racial mesmo sendo o Eusébio um símbolo nacional, assim como é seguro proferir que existem marginais em todo o lado, não só nos bairros problemáticos

O racismo, caracterizado pela discriminação social e no conceito de que existem diferentes raças humanas em que uma delas é superior às outras, é um tema global, histórico e ainda bastante actual e preocupante.

As atitudes depreciativas e discriminatórias ainda estão bastante presentes no nosso país em pleno século XXI, e a prova disso é a repercussão mediática destes casos, onde o episódio de violência racial ocorrido na Cova da Moura por agentes da polícia não escapa ileso.

Há quem diga que as queixas de violência policial neste local são já um problema antigo e que existe uma cultura longa e histórica deste tipo de episódios.

A realidade que frequento permite-me afirmar que, de um modo geral, os polícias com quem lido e convivo são civilizados, ou pelo menos comportam-se como tal. Porém, não tenho dúvidas de que quando colocados face a situações problemáticas, para além de serem mal pagos para desempenharem essa função, adquirem preconceito discriminatório face a esses.

É seguro afirmar que Portugal possui um elevado nível de preconceito racial mesmo sendo o Eusébio um símbolo nacional, assim como é seguro proferir que existem marginais em todo o lado, não só nos bairros problemáticos.

Os abusos e a violência policial são uma realidade inegável em Portugal e a sociedade demonstra-se tolerante face à ocorrência de casos como este.

O polícia deve ser o agente da não violência. Não o herói que recebe louvores porque “prestigia o polícia”, como ocorreu com o caso de violência policial face a um adepto em Guimarães.

Contudo, o curioso é que os mais recentes casos de violência praticados na Cova da Moura, além de serem já recorrentes, ocorrem geralmente sobre as comunidades mais fragilizadas. Serão estes casos motivados pelo racismo?

Somos uma sociedade que acredita em tudo o que um agente da autoridade diz, principalmente quando este é interrogado juntamente com um habitante de um bairro problemático.

Porque é que a presunção de inocência é geralmente esquecida a partir do momento em que um polícia conta a sua versão dos factos? Talvez porque esta classe represente idoneidade moral. Ou deveria.

O agente da autoridade frequentemente exerce direito protestativo e autoritário sobre as vítimas e isso está errado. Porém, não é errado afirmar que muitos casos de violência policial ocorridos tenham sido motivados pelo racismo.

Portugal é um país racista e vive num engano, julgando que não é racista.

Fomos o primeiro país a abolir a escravatura; contudo, o racismo ficou. Embora difuso, ficou.

Actualmente, a ideia de que os negros não merecem ser escravizados nem os ciganos perseguidos não é, em si própria, um reconhecimento de igualdade perante os brancos.

Existe um preconceito para com as diferentes raças, tal como há discriminação para com quem não corresponde aos padrões de beleza estipulados pela sociedade, quer por uma questão de peso, altura ou simetria facial.

O racismo ainda existe, é triste, e o maior passo para a mudança é assumirmos que ainda o somos.