Reportagem

Trabalho e felicidade, ou como o “que existe não está a funcionar”

A pequena comuna italiana de Pergine Valsugana recebeu no fim-de-semana o Seminário Internacional sobre Trabalho e Felicidade, um projecto coordenado pela Artemrede e com direcção artística da mala voadora. No final, ficaram mais perguntas do que respostas.

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O seminário incluído no festival Pergine Spettacolo Aperto perguntava directamente: “Acha que podemos atingir a felicidade através do trabalho ou da preguiça?” DR
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O debate Happiness Calling foi o ponto alto do seminário: no painel estiveram Nina Power, Helen Hester, Santiago Cirugeda e Apostolos Karakasi, moderados por Riccarda Zezza DR
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Field Work 2, a instalação dos croatas Vanja Babic e Bojan Mucko, deu o tiro de partida para o seminário DR
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“Queremos controlar os meios de produção. Queremos liberdade absoluta, liberdade para criar. Se trabalharmos juntos, decidimos juntos. Participar é como estar apaixonado. Aqueles que não o fazem não sabem o que estão a perder. Queremos construir a nossa própria utopia, qual é o mal?”

Estas palavras – que podiam ser de Marx mas são de Makis Anagnostou, líder sindical da Vio.Me, uma fábrica grega gerida por trabalhadores – resumem aquilo que se passou na pequena comuna italiana de Pergine Valsugana no fim-de-semana, mais concretamente no Seminário Internacional sobre Trabalho e Felicidade integrado na 42.ª edição do festival Pergine Spettacolo Aperto. A pergunta nos boletins de voto era directa: “Acha que podemos atingir a felicidade através do trabalho ou da preguiça?”

O trabalho ganhou, mas, dado o assunto ser tão complexo quanto parece e estar longe de caber em dicotomias, a discussão nas conversas, nos workshops e nos encontros acabou por ir mais além. Como repensar o trabalho e a nossa relação com ele numa sociedade pós-capitalista? Como não submeter a nossa identidade e a nossa vida a uma profissão? Como ganhar mais autonomia perante os patrões? Já dizia Walter Benjamim: “A catástrofe é que tudo assim continue." Makis Anagnostou, que chegou de Salonica até Pergine num ecrã com o punho esquerdo bem erguido, através do documentário Next Stop: Utopia (2015) do realizador grego Apostolos Karakasi, deu algumas pistas.

Dar pistas e gerar perguntas era, aliás, o principal objectivo deste seminário, que constituiu o primeiro passo do projecto A Manual On Work And Happiness, com direcção artística da companhia mala voadora e coordenação da Artemrede, estrutura portuguesa de cooperação e programação cultural, em parceria com o festival Pergine Spettacolo Aperto, o Teatro Municipal e Regional de Patras, na Grécia, e o L’Arboreto – Teatro Dimora, em Itália. O projecto vai culminar, em 2018, num espectáculo dirigido pelo encenador Jorge Andrade, da mala voadora, com cenografia de José Capela e texto do dramaturgo espanhol Pablo Gisbert, co-director da companhia El Conde de Torrefiel, que irá passar por Grécia, Portugal e Itália.

“Não vamos fazer um tratado, vamos fazer um espectáculo”, deixa bem claro José Capela, da mala voadora, responsável pela programação do seminário em conjunto com Carla Esperanza Tommasini, co-directora artística do festival. “Não é a profundidade de análise que há no universo académico nem o rigor documental que interessa. É tudo uma espécie de matéria-prima para se ser livre, senão não tem graça nenhuma”, justifica o cenógrafo. Essa “abordagem intuitiva” sustentou o próprio desenho do seminário, onde se procurou estabelecer um ponto de equilíbrio entre a prática artística, a sociologia e a filosofia.

Numa encruzilhada

Encaixada entre as montanhas da região nortenha de Trentino-Alto Ádige, a poucos quilómetros da fronteira com a Áustria, a 20 minutos de Trento e com perto de 20 mil habitantes, Pergine Valsugana parece convidar à desaceleração. Famílias conversam e jogam nos lagos de água azul dourada pelo sol, turistas austríacos de bicicleta dizem “Hallo” a quem passa. No centro, passeiam-se os cães, fala-se com o vizinho, comem-se (muitos) gelados e brioches de marmellata di albicocche. Sem pressas. Na sexta, quem passava pelas ruas ao final da tarde era surpreendido pela instalação-performance Field Work 2, dos croatas Vanja Babic e Bojan Mucko, o tiro de partida do seminário. Um muro itinerante em que o público era convidado a mover tijolos de um lado para o outro, numa metáfora da necessidade de pensar e agir como um colectivo.

A poucos metros, numa instalação interactiva, duas representantes da plataforma europeia N.O.W. New Open Working Process For The Performing Arts questionavam os processos estruturados e hegemónicos do trabalho artístico, apelando a uma renegociação da hierarquia entre artistas, programadores, financiadores e públicos. E de que maneira isso poderia estender-se à vida quotidiana. Para José Capela, o trabalho artístico pode ser um prólogo para uma mudança de direcção. “Se por um lado é trabalho e é fundamental que seja considerado como tal, política e socialmente, ao mesmo tempo é um trabalho que poderia ou deveria permitir uma relação com o tempo tão livre que tem a ver com a ideia de não fazer nada”, diz. “Porque o trabalho artístico é puramente especulativo, um exercício de liberdade, não se coaduna com qualquer funcionalismo e positivismo. E isso é o contrário do que se passa hoje, sobretudo entre os programadores. A arte tem de ser justificada com todo o tipo de motivos, menos os artísticos.”

No fundo, isto implica também uma procura de novas formas de felicidade numa sociedade em que a distinção entre vida e trabalho está cada vez mais diluída. “O trabalho tornou-se uma religião”, afirmou a filósofa e investigadora britânica Nina Power no debate Happiness Calling, o ponto alto do seminário, que aconteceu sexta à noite com um painel composto por mais três oradores – a teórica feminista e investigadora Helen Hester, o arquitecto Santiago Cirugeda e o cineasta Apostolos Karakasi –, e com moderação de Riccarda Zezza, que ia lançando perguntas para o público discutir com o colega do lado.

É uma encruzilhada: o sistema capitalista exige que as pessoas trabalhem de modo a poderem (sobre)viver, mas é cada vez mais incapaz de gerar trabalhos suficientes, não precários e com salários dignos. Para Nina Power, é preciso uma “mudança estrutural” e necessariamente colectiva: tentar encontrar soluções de auto-gestão que visem não “o lucro de outrem” mas das comunidades. Para isso é preciso “pensar em alternativas às ideias mercantilizadas de trabalho e felicidade”, arranjar novas formas de redistribuir o dinheiro (faltou tempo para um debate sobre o rendimento básico universal), mudarmo-nos a nós próprios. Como fez uma parte dos trabalhadores da Vio.Me, que em 2012, perante a falência da fábrica, o desemprego e uma Grécia varrida pela crise, decidiu tomar as rédeas da produção e criar um modelo assente na democracia directa, sem patrões.

Claro que não deixou de ser um processo agridoce, em constante conflito com as autoridades. “O dinheiro não foi a sua motivação”, disse Apostolos Karakasi, o realizador de Next Stop: Utopia, documentário onde ficou gravada para a posteridade a pequena revolução deste grupo que influenciou outras fábricas auto-geridas na Europa. “Queriam saber se tinham esperança, outra via”, acrescentou Riccarda Zezza à conversa, dizendo, num lance de optimismo, que “estamos num tempo em que tudo é possível porque o que existe não está a funcionar”. “Para eles foi uma forma de tentar reclamar a felicidade”, concluiu Karakasi, trazendo a palco uma citação de Rolling Stones: “You can't always get what you want/ But if you try sometimes well you might find/ You get what you need.”

Trabalho vs. preguiça?

Para Santiago Cirugeda, tudo se resume assim: “Ser feliz é quando se é livre para decidir.” O arquitecto espanhol, conhecido por ocupar o espaço público através de projectos sustentáveis erguidos juntamente com as comunidades locais – e geralmente “contra os governos” –, considera que andamos a perder demasiado tempo na academia. “É preciso fazer acontecer. Não fiquem à espera de conseguir o apoio dos governos para projectos colectivos. Quando vos dizem que é ilegal, procurem as leis que dizem isso. Muitas vezes não são como dizem as autoridades.”

Do lado da academia, Helen Hester falou sobretudo da automatização do trabalho em conexão com o feminismo, estabelecendo a ponte com o tema desta edição do Pergine Spettacolo Aperto, as questões de género. A investigadora focou o facto de as mulheres serem as mais afectadas no processo de robotização do trabalho, com “cinco trabalhos perdidos por cada trabalho conseguido”, enquanto as máquinas e as apps de assistência virtual, maioritariamente com vozes femininas, continuarem a perpetuar a noção de trabalho “feminizado”: a construção social da mulher como mais apta para o trabalho de serviço, o trabalho afectivo. Por outro lado, “a exploração do trabalho de assistência social e do trabalho doméstico”, muito dele nas mãos de mulheres e, sobretudo, de mulheres imigrantes, continua “a não ser devidamente discutida”. E a discussão é longa. “É difícil falar da experiência de uma mulher no mercado de trabalho capitalista sem falar de todas as formas de opressão: racismo, classismo, transfobia”, apontou Helen Hester – e, nesse sentido, teria sido pertinente ter um painel de oradores mais diverso.

No último dia do seminário, sábado, prolongou-se o debate, mas em duas actividades diferentes. O workshop orientado pelas belgas Incompany, em que os participantes, munidos de disfarces e num jogo de role-play, foram desafiados a examinar o seu comportamento pessoal no trabalho, em casa e no tempo livre, e a pensar em como construir versões mais saudáveis desses momentos. No lazyshop, dirigido pela performer Christina Schultz, a proposta final não era muito diferente: em vez de roupas havia almofadas, textos de vários autores (com destaque para Hannah Arendt) e exercícios sobre as possibilidades de usar “o não fazer nada como ferramenta de resistência e crítica, de aprendizagem para dizer não”.

No fundo, é como dizia Nina Power: “A oposição do trabalho não é preguiça. Há outras imagens de tempo livre sobre as quais somos quase proibidos de pensar." O escritor Robert Louis Stevenson já o sabia no século XIX: “O chamado ócio, que não consiste em não fazer nada, mas sim em fazer muitas das coisas não reconhecidas pelas formulações dogmáticas da classe dominante, tem tanto direito a afirmar a sua posição como o trabalho.” 

O PÚBLICO viajou a convite da Artemrede