“Toda a gente se aproxima de mim para dizer ‘Obrigado, André’”

CDS deixou cair o candidato de Loures. Mas André Ventura segue caminho e diz sentir “total solidariedade” de Passos Coelho. E tem-na, de facto.

Passos está do lado de André Ventura nesta polémica
Foto
Passos está do lado de André Ventura nesta polémica LUSA/NUNO FOX

André Ventura. O nome do candidato da direita à Câmara Municipal de Loures entrou aos tropeções na actualidade política e a perplexidade que conseguiu causar tanto à esquerda como à direita ainda não se esgotou. O CDS ficou de tal forma de boca aberta com as afirmações de Ventura sobre a comunidade cigana que bateu com a porta, acabou-se a coligação. O candidato segue agora com o apoio do PSD, já plenamente confirmado pelo líder Passos Coelho, e do PPM. 

Se dúvidas houvesse quanto ao arrependimento de André Ventura em relação ao que disse ao jornal i e ao site Notícias ao Minuto, elas dissipam-se cada vez mais, em cada conversa que tem com o PÚBLICO, ao telefone. Um dia depois de a polémica ter ameaçado rebentar pelas costuras, Ventura insiste que tem a razão e as pessoas do seu lado. “Hoje [ontem] estive em Loures e senti uma coisa que já tinha sentido, mas hoje ainda senti mais: toda a gente se aproxima de mim para dizer ‘Obrigado, André, por teres discutido um problema que ninguém tem coragem de discutir’; ‘Você é diferente e capaz de dizer o que os outros não são capazes de dizer sobre questões que são tabu’”, conta, com orgulho.

André Ventura não só reitera o que tem dito sobre a comunidade cigana, como ainda alarga a questão: “E este problema, os problemas que identifiquei em particular na comunidade cigana, não é só de Loures, é a nível nacional. Tenho recebido mensagens de outros pontos do país a dizer que também há lá os mesmos problemas.”

Quais são esses “problemas”? O candidato identificou-os em duas entrevistas – ao jornal i e ao site Notícias ao Minuto – e, desde então, não se cansou de repetir, ou de tentar explicar, o que pensa. Alguns excertos: "A etnia cigana tem de interiorizar o Estado de Direito, porque, para eles, as regras não são para lhes serem aplicadas. Há um enorme sentimento de impunidade, sentem que nada lhes vai acontecer"; “Nada tenho contra as pessoas de etnia cigana, isto tem a ver com um grupo que acha que está acima do Estado de Direito”; “Nos transportes públicos é a mesma coisa: vários munícipes queixam-se de pessoas de etnia cigana que entram nos transportes, usam os transportes e nunca pagam, e ainda geram desacatos”. Ou: “Não compreendo que haja pessoas à espera de reabilitação nas suas habitações, quando algumas famílias, por serem de etnia cigana, têm sempre a casa arranjada. Já para não falar que ocupam espaços ilegalmente e ninguém faz nada.”

O incómodo foi tão grande que o CDS, confirmou o PÚBLICO, tentou convencer o PSD a mudar de candidato. Perante a recusa dos sociais-democratas, os centristas saltaram fora.

Passos ampara

Mas o apoio do PSD parece estar de pedra e cal, apesar de haver aqui e ali algumas fissuras na defesa do candidato. Teresa Leal Coelho, que é nada mais, nada menos, do que vice-presidente do PSD, criticou e distanciou-se das ideias de Ventura. Também o social-democrata Pedro Duarte lamentou, no Facebook, que o seu partido mantivesse o apoio.

Mas ao início da noite desta terça-feira, o líder do PSD, Pedro Passos Coelho, falou. E disse: "A clarificação que o dr. André Ventura fez de uma entrevista que deu clarifica muito bem a posição, quer dele quer do PSD, quanto à matéria. Eu estou tranquilo quanto aquilo que é a nossa posição, uma posição não racista, não xenófoba: nunca foi, não é e, atrevo-me a dizer, nunca será."

Apesar de não ter comentando o distanciamento que a vice-presidente do PSD, Teresa Leal Coelho, fez questão de marcar em relação às ideias de Ventura, Passos acrescentou, também citado pela agência Lusa: "O PSD é um partido com tradições plurais muito grande, teve sempre um respeito por todas as minorias e isso não está em causa nesta campanha, nem nas autárquicas, nem em Loures em particular.”

Já antes, ao PÚBLICO André Ventura dizia sentir o braço de Passos a impedi-lo de descarrilar: “Da parte do presidente do partido sinto que há total solidariedade comigo. Não falei com Passos Coelho directamente, mas tenho estado em contacto com estruturas nacionais do partido e sinto que me apoiam, também a nível distrital e concelhio.”

Quanto às palavras de Teresa Leal Coelho, diz que respeita “uma opinião pessoal”, embora admita que vem de uma “pessoa importante” no PSD: “Mas o nosso partido é isso mesmo, constituído por pessoas que pensam de maneira diferente”, diz Ventura, que garante não ter perdido o fôlego numa maratona autárquica que mal começou. “Os únicos que me vão tirar desta corrida são os eleitores, porque sinto o apoio total do PSD quer a nível nacional, quer distrital, quer local.”

E o candidato, que também foi amparado e elogiado pelo PPM, aproveita para disparar em dois sentidos. Um, à esquerda: “Vou continuar, era o que faltava que cedesse a qualquer pressão da esquerda ou extrema-esquerda”. Dois, à direita: “Lamento a decisão do CDS, mas acredito que o eleitorado do CDS vai continuar a confiar em mim e no meu projecto. Compreendo que o CDS, ao não se sentir confortável com alguma posição do candidato, acabe por apresentar outro projecto. Mas a 1 de Outubro o julgamento será feito pelos eleitores.”

Durante a tarde de terça-feira, Ventura já tinha enviado um comunicado às redacções, em tom triunfal, apesar da polémica: “É com alguma surpresa que registamos a saída do CDS/PP deste projecto vencedor, que vai seguir o seu caminho triunfante até dia 1 de Outubro." Mas este tom de pujança contrasta com as críticas que ainda ecoam e que vêm de muitos lados: do PCP, do PS, do Bloco de Esquerda. O CDS, esse já se retirou.