Crítica

Julho ao Norte: melómanos e veraneantes

Os festivais de Espinho e da Póvoa de Varzim continuam a rivalizar com programas de primeira água que dificilmente decepcionam os seus fiéis seguidores. Assim voltou a ser este fim-de-semana.

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O maestro Pedro Amaral dirigiu a Orquestra Metropolitana de Lisboa no Cine-Teatro Garrett, na Póvoa de Varzim DR
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O maestro Pedro Amaral dirigiu a Orquestra Metropolitana de Lisboa no Cine-Teatro Garrett, na Póvoa de Varzim DR
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Tamara Stefanovich e Pierre-Laurent Aimard mantêm um duo bastante activo que se apresentou este sábado em Espinho DR
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Pierre Aimard fez-se acompanhar do seu habitual percussionista, Daniel Ciampolini; Nuno Simões executou o papel de segundo percussionista DR

Para os menos adeptos do calor, as praias do Norte oferecem uma saudável alternativa aos mais vulgares destinos estivais, complementada com propostas musicais de primeiras águas. Cada uma com o seu público específico, a que se juntam nómadas melómanos, Espinho e Póvoa de Varzim rivalizam desde há largos anos com programas que dificilmente decepcionam os seus fiéis seguidores.

O fim-de-semana que passou – o segundo do 39.º Festival Internacional de Música da Póvoa de Varzim (FIMPV) e o terceiro do 43.º Festival Internacional de Música de Espinho (FIME) – não ficou aquém das expectativas. Com salas cheias de público entusiasta, ambos os festivais cumpriram a promessa de elevados momentos musicais. 

Na sexta-feira, foi a Orquestra Metropolitana de Lisboa a subir ao palco do Cine-Teatro Garrett (Póvoa de Varzim), principiando o concerto com a abertura Egmont, de Beethoven. Pedro Amaral deixava, então, antever a sobriedade que a sua interpretação da Sinfonia nº 1 de Brahms viria a confirmar: uma magistral construção, sabiamente contida, com uma racional gestão de tempi, que mereceu demorados aplausos no final do quarto andamento. Do equilibrado conjunto sobressaíu o naipe dos primeiros violinos. Enfatizando (quase justificando) a surpreendente afinação e sincronia desse naipe que lidera, Ana Pereira desenhou discretamente, com imaculada perfeição, os curtos solos do Andante Sostenuto. Nota de distinção também para timpaneiro, oboísta e primeira flauta.

Antes, porém, de se chegar à Sinfonia, o muito jovem percussionista Agostinho Sequeira (Almada, 1998) teve oportunidade de se apresentar como solista com Speaking Drums – quatro poemas para percussão solo e orquestra (2012-13), de Peter Eötvös (Odorheiu Secuiesc, 1944). Longe de se tratar de uma obra musicalmente muito profunda, Speaking Drums interpelou directamente o público, arrancando à plateia uma perceptível empatia para com a sua comicidade. Muito eficazmente orquestrada e situando-se próxima de certo teatro-música, a obra carrega uma forte imagética, de afinidades mais ou menos explícitas em relação ao cinema de animação norte-americano. Ao solista, pede-se um versátil virtuosismo (mais na interpretação do que no domínio técnico), que passa pela teatralização de um conjunto de vocábulos aparentemente sem sentido verbal. Muito aplaudido, Agostinho Sequeira – Prémio Maestro Silva Pereira em 2016, formado pela Escola Profissional Metropolitana e actualmente a frequentar o Conservatório de Amesterdão – mostrou-se merecedor de um futuro em palco.

Rumando um pouco mais a Sul, a noite seguinte propunha um colossal programa mais intimista. Se deixáramos a Póvoa de Varzim com Brahms, foi com a transcrição para dois pianos de um quinteto do mesmo compositor que Tamara Stefanovich e Pierre-Laurent Aimard nos acolheram em Espinho.

Mais nova do que o distinto pianista francês, com quem chegou a estudar em Colónia e mantém um duo bastante activo, a pianista sérvia assumiu brilhantemente o primeiro piano nas duas obras que esta fortíssima dupla interpretou – a Sonata para dois pianos, em fá menor, op. 34b, de Brahms e a Sonata para dois pianos e percussão, Sz. 110, BB 115, de Bartók. Tal distribuição de papéis não se fez, porém, sem uma inesperada desvantagem para o público: habituado a cantarolar para o lado esquerdo enquanto toca, Pierre-Laurent Aimard partilhou generosamente com o público as suas “deslocadas” entoações, que a acústica do Auditório de Espinho se encarregou de evidenciar.

Tal como Amaral, também esta dupla de pianistas privilegiou uma forte construção em detrimento da “provocação imediata” a que os largos gestos brahmsianos poderão conduzir.

Para a Sonata de Bartók, Aimard veio acompanhado do seu habitual percussionista, Daniel Ciampolini (antigo solista do Ensemble Intercontemporain que tem estreado diversas obras, entre as quais a mesma Speaking Drums que Agostinho Sequeira havia interpretado na véspera, no FIMPV). Menos experiente, mas sem a menor hesitação, Nuno Simões executou o papel de segundo percussionista. O público ergueu-se em vivos aplausos, saudando a enérgica interpretação do conjunto.  

O FIMPV prossegue esta quinta-feira, com um recital de piano de Raúl da Costa, e o FIME regressa no próximo sábado, para um encerramento ao ar livre em que junta Richard Galliano e a Orquestra Clássica de Espinho.