Reportagem

E, de repente, Santa Eugénia ficou debaixo de fogo

A manhã tinha sido tranquila. Num instante, tudo mudou. Moradores da aldeia em Alijó desesperaram enquanto não apareceram bombeiros. A GNR apareceu e levou vários idosos.

Adriano Miranda
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Foi um instante. Num momento surgiu no horizonte uma nova coluna de fumo, a juntar-se a tantas outras que nesta segunda-feira se vêem no céu de Alijó. No outro, a coluna era já um largo cogumelo negro a agigantar-se, crescendo rapidamente à medida que o fogo se alimentava de núcleos de pinheiro que apareciam pela frente. Depois, foi só correr por ali fora, avançado árvores adentro, até chegar às que estavam mais próximas da aldeia de Santa Eugénia.

A manhã tinha sido tranquila, depois de o fogo já ter andado em algumas encostas próximas no domingo. Mas a hora do almoço levou o inferno. Quem estava na parte alta da aldeia desceu para ajudar familiares e amigos. As ruas encheram-se de gritos, o desespero traduzido em insultos aos bombeiros que, ocupados noutros lados, tardavam demasiado para quem via as chamas crescerem cada vez mais próximas das casas. No cimo da encosta, onde o lume já aparecia, começaram a tombar pinheiros, cortados por moradores munidos de motosserras. Mulheres de mangueiras na mão ou só desesperadas corriam por todo o lado. O fumo aumentava e aumentava, deixando ver, às vezes, que o laranja das chamas já passara para outras árvores, já andara mais um pouco.

“Não aparece ninguém”

A GNR chegou primeiro e arrancou pouco depois levando alguns idosos. Uma mulher de olhos azuis e rosto afogueado, que não quer dar o nome, anda de um lado para o outro, depressa, em desespero, e só repete: “Não aparece ninguém”. Manuel Nogueira, 64 anos, já não consegue aproximar-se da casa, no Bairro do Pandão, na ponta da aldeia, com pinheiros à frente e atrás. “É uma vergonha... Estou aqui sujeito a ficar sem casa”. António José, 60 anos, junta-se à indignação: “De manhã, até uma criança apagava isto. Esteve ali a arder, baixinho, mas não apareceu ninguém”.

Os bombeiros chegaram, pouco depois. Carros e ambulâncias de Alijó, Carnaxide, Constância, Montelavar, Oeiras... Logo depois, aviões e helicópteros começaram a despejar água sobre as áreas mais próximas das habitações. O fogo saltou por cima do bairro de Manuel, deixando as casas intactas, alimentando-se dos pinheiros nas traseiras, abandonando a aldeia e seguindo caminho.

O presidente da Câmara de Alijó, Carlos Magalhães, também por lá passou, aliviado por as casas dos moradores terem resistido intactas, incapaz de fazer um prognóstico animador. “É imprevisível”, disse ao PÚBLICO. “Há muitos pequenos focos, que começam a ganhar intensidade muito rapidamente. Está a ser difícil. É um fogo pequeno e em quatro ou cinco minutos cresce, quando se chega lá, já ardeu. Será preciso mais meios? Não sei, vamos continuar a lutar, mas tudo é imprevisível”, diz.

De acordo com a página das Autoridade Nacional da Protecção Civil, o incêndio de Alijó, que começou à 1h55 de domingo, mobilizava ao início da tarde desta segunda-feira, 410 homens e 132 veículos. Pelo menos dois helicópteros e dois aviões estavam também a actuar, saltando de foco em foco, à medida que algum se agigantava mais.

Carlos Magalhães disse que, depois das falhas detectadas no SIRESP (Sistema Integrado de Redes de Emergência e Segurança de Portugal) no dia de domingo, a chegada de uma estação móvel tinha, aparentemente, resolvido o problema. “Parece que agora está a correr bem”, disse. Mas o vento que se levantou ao final da manhã, e que muda de direcção amiúde, nem por isso. E o calor também. Ao início da tarde, ninguém arriscava fazer previsões sobre o fim dos incêndios de Alijó e continuava-se de olhos no ar, à procura da próxima coluna de fumo a anunciar que alguma encosta, algum núcleo verde que ainda não foi consumido pelas chamas, está, agora, a arder.