Doutor em Porto

A história do Porto parece não ter segredos para Germano Silva, mas diz que nunca se viu como historiador. Antes como um contador de histórias. Começou a fazê-lo quando entrou para o jornalismo e continua a fazê-lo, mais de 60 anos depois.

É fácil perdermo-nos no tempo quando ouvimos Germano Silva falar do Porto. E não apenas porque as horas passam sem que se dê por elas, tantas são as histórias que ele tem para contar, mas porque a cidade de que ele fala vagueia pelos séculos, para trás e para a frente, consoante a personagem ou o acontecimento que lhe vem à memória. O Porto dele passeia-se pelos anos sem esforço, cada esquina nos remete para um ano diferente, e isto é possível sem que nos mexamos da cadeira em que nos sentamos para escutar o jornalista e escritor de 85 anos. E tudo porque um chefe de redacção lhe disse que ele só seria um bom jornalista de cidade se a conhecesse por dentro. O conhecimento íntimo e absolutamente único que adquiriu fizeram dele doutor, sem nunca ter sido aluno de uma universidade.

O reconhecimento do mundo académico chegou em Novembro do ano passado, com a atribuição do doutoramento honoris causa, pela Universidade do Porto. Mas o reconhecimento da cidade já Germano recebera há muitos anos, em cada um dos portuenses que começou a guardar religiosamente as crónicas semanais que ele assina no Jornal de Notícias, na coluna À Descoberta do Porto. Ou naqueles que fizeram desaparecer em minutos todos os exemplares do seu primeiro livro, com o mesmo título da crónica do JN, deixando o editor sem obras para satisfazer todos os que se apresentaram no lançamento. “As pessoas envolvidas não acreditavam muito no interesse que aquelas coisas tinham”, conta o jornalista aposentado, que ainda hoje continua a escrever as suas histórias sobre a cidade.

“O Pina entusiasmou-me para publicar um livro”

Quem percebeu, rapidamente, o impacto que as crónicas estavam a ter nas pessoas foi Manuel António Pina. O escritor disse ao amigo e colega do JN que uma amiga professora queria que ele fosse à escola dela falar sobre o Porto que ele descrevia no jornal. Depois, contou-lhe que o pai de um antigo colega da universidade estava desgostoso porque fora de férias e perdera algumas crónicas e até lhe perguntara se não as conseguia arranjar, nem que fosse em fotocópia, já que as coleccionava. “O Pina entusiasmou-me para publicar um livro.” O autor resistiu e os primeiros contactos com as editoras não foram fáceis. Na Asa, o editor que o recebeu foi peremptório: “Crónicas, nem pensar!” Na Afrontamento, a editora “torceu o nariz” e falou-lhe na hipótese de ele arranjar um patrocínio. Aqui, foi Germano quem pôs fim à conversa: “Esquece.” Hoje é a Porto Editora que o publica, mas seria a Editorial Notícias a primeira a transformar o seu conhecimento em livro. “O lançamento foi no Rivoli. O editor vê aquilo cheio de gente e pergunta-me: ‘O que é que vai acontecer [mais] aqui?’ É o livro. ‘Esta gente toda?’ E depois vem lá um fulano da editora a dizer que já não há livros. E ele pergunta: ‘Quantos trouxeram?’ E o homem: ‘300.’ ‘E na livraria?’, perguntou o editor, e o homem: ‘Já não tem.’ Nisto aparece o Custódio [Oliveira, assessor do então presidente da Câmara Fernando Gomes] a dizer que o presidente queria comprar 500 exemplares. Fizeram-se três edições.”

Podia-se dizer que o resto é história, porque Germano já deu tantas entrevistas que quem o segue consegue contar a sua vida quase de cor. Saberão, por ventura, que nasceu em São Martinho de Recezinho, Penafiel, em 1931, mas que com um ano acompanhou a família na mudança para o Porto. Que por lá viveu em várias ilhas operárias, sendo a do Cruzinho a última, e aquela onde ainda vive uma das suas irmãs. Que deixou a escola no final da instrução primária para contribuir para a economia familiar e que voltou aos estudos anos mais tarde, num curso nocturno da Escola Comercial de Oliveira Martins. E que foi no Hospital de Santo António, onde arranjou emprego como escriturário, que primeiro teve contacto com os jornalistas que lá iam à procura de notícias de crimes e acidentes. E foi aqui que se deu o passe de mágica: Germano perguntou ao repórter do Jornal de Notícias se não lhe arranjava um cartão de acesso aos jogos de futebol e a resposta, inesperada para os dias de hoje, mas, aparentemente, não para a década de 50 do século passado, foi que, se ele quisesse, podia tornar-se colaborador desportivo do diário portuense. Estávamos em 1956.

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O reconhecimento do mundo académico chegou em Novembro do ano passado, com a atribuição do doutoramento honoris causa, pela Universidade do Porto nelson garrido

O jornalismo abriu, assim, a porta a Germano Silva, mas o Porto enquanto material de trabalho apaixonado ainda iria esperar mais um pouco. “Entrei sem saber nada de jornalismo. Naquela altura, os velhos chefes de redacção é que eram os mestres”, recorda. Um dia, o director do jornal chamou o colaborador desportivo à sua sala, para lhe dizer que havia uma vaga para a secção local, o Grande Porto, e que ele parecia ser a pessoa indicada. “Era a minha oportunidade para ser jornalista”, diz Germano. O director levou-o até ao chefe de redacção, na altura, António Brochado, e, segundo Germano Silva, disse-lhe: “Você faça dele um jornalista.”

De novo, voltamos ao que já é um clássico na história da vida de Germano. Chamado a cobrir um incêndio num prédio que se revelou um fogacho sem importância, fez uma notícia curta e puramente factual. No dia seguinte, foi confrontado com um artigo muito mais elaborado, no concorrente O Primeiro de Janeiro, que aproveitara o fraco caso do dia para contar que naquele prédio nascera e vivera o escritor Arnaldo Gama. António Brochado fez-lhe então a palestra que lhe mudaria a vida. “Ele disse-me: ‘Tu só serás um bom repórter de cidade se a conheceres. Muitas vezes acontece termos uma chamada para ir a um determinado sítio. Vais ali à Rua da Firmeza e não é nada, aquilo não dá nada. Mas se tu contares ao leitor porque é que rua se chama Firmeza – e eu não sei, não faço ideia, mas, se contares, já contas uma história.’ Era aquela velha ideia que ele tinha, que tínhamos de contar histórias.”

A origem do nome das ruas

Germano Silva nunca mais parou de contar histórias, mas ainda demoraria muitos anos a fazer das histórias da história da cidade o seu foco principal de trabalho. Primeiro, foi preciso documentar-se e aqui não há passes de mágica, mas muito trabalho. Começou pelo Anuário do Porto, de Santos Viseu. “No fim do anuário, tinha um roteiro das ruas da cidade e no final desse roteiro tinha as ruas que mudaram de nome. Pus-me a ver. A Rua do Dr. Alves da Veiga, por exemplo, tinha sido Rua de Malmerendas”, conta. Outra artéria, não muito longe, a Rua do Morgado de Mateus, fora em tempos a Rua do Mede Vinagre. “Achei que aquilo era interessante”, diz Germano Silva. E continuou a procurar.

Do anuário passou aos livros de Artur de Magalhães Basto — historiador e, em tempos, chefe dos serviços culturais da Câmara do Porto, com vários livros editados sobre a história do Porto —, à Descrição Topográfica e Histórica da Cidade do Porto, de Agostinho Rebelo da Costa (que comprou na antiga livraria Progredior, bem como dois livros de Magalhães Basto, “porque não tinha dinheiro para mais”). “Com estas obras descobri que havia outras pessoas que escreviam sobre o Porto, como o Horácio Marçal, porque eles fazem referências a esses autores”, recorda. Seguiram-se Alberto Pimentel, Eugénio Andrea da Cunha e Freitas e, claro, a enorme vantagem de poder ter convivido directamente com alguns destes autores.

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A Livraria Académica é propriedade de Nuno Canavez, amigo de escola de Germano Silva marco duarte

Sentado no segundo piso da Livraria Académica, onde conversamos, Germano aponta para lá da janela, em direcção à Praça de Gomes Teixeira, a poucas centenas de metros de distância. “O Andrea da Cunha e Freitas parava no Café Universidade, ao lado do Piolho. Ele era juiz de um tribunal de cobranças, aqui em frente. Era de Lisboa e dizia-me: ‘Eu vim para cá e quis ir para um tribunal desses para não ter muito trabalho e ter tempo livre [para fazer pesquisa de História].’ Ele dava-se mais à Genealogia, mas sabia muita coisa sobre as ruas e, quando o Magalhães Basto adoeceu e já não podia escrever a coluna que tinha no Janeiro, chamaram o Andrea da Cunha e Freitas e pediram-lhe para escrever, mas algo diferente. Disseram-lhe que queriam uma coisa com a origem do nome das ruas, mas curta, para a pessoa ler enquanto tomava o café. Uma coisa abreviada. E ele começou a fazer aquilo. Eu vinha muito falar com ele e foi essa gente, o Horácio Marçal, o Andrea da Cunha e Freitas e o Magalhães Basto, sobretudo esses, com quem falei várias vezes, que me foram dando pistas sobre as coisas”.

Depois, chegaram os arquivos e as livrarias. Germano passou horas no Arquivo Municipal, na Casa da Infante, no Arquivo Distrital, na Rua das Taipas, e no Arquivo da Misericórdia, que entretanto se mudou da Rua das Flores para a Quinta da Prelada. Na Académica, do amigo de escola Nuno Canavez, já perdeu a conta às vezes que lá entrou. Só precisou de lhe dizer “interessa-me tudo o que seja sobre o Porto” e, a cada novidade, lá recebia um aviso para passar pela livraria no Largo de Alberto Pimentel.

PÚBLICO - Em passeio pelas "ilhas" da cidade
Em passeio pelas "ilhas" da cidade mário nogueira
PÚBLICO - Jardins do Palácio de Cristal
Jardins do Palácio de Cristal adriano miranda
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“Aquilo lá em casa é o caos”

Hoje, Germano admite que já vai sendo difícil aparecer algo que o entusiasme. Os papéis inverteram-se. Os milhares de livros, fotografias e documentos (alguns manuscritos) que foi coleccionando ao longo das décadas é que despertam a curiosidade e o interesse de muitas pessoas. “Aquilo lá em casa é o caos. É uma parede cheia de coisas, mais outra, e depois, montes [de livros] por todo o lado. De tal sorte que foi um tipo ver o televisor, que se avariou, e disse-me que eu tinha de tirar um monte de livros para ele ver o problema. Eu disse logo, não tiro. O televisor continua avariado e assim dá-me um jeito do caraças porque trabalho mais”, ri-se.

Porque se há coisa que Germano faz é continuar a trabalhar, apesar da reforma. Fá-lo por gozo, sobretudo. Escreve as suas crónicas, organiza os passeios pela cidade. Não pensa em parar. “Há tanta coisa para contar, ainda…”, justifica.

Já não tem a certeza da primeira vez que utilizou os conhecimentos conseguidos entre arquivos e documentos para escrever um artigo no jornal. Mas arrisca que talvez tenha sido na cobertura de uma festa das enfermeiras, no Salão Nobre do Hospital de Santo António. “Fui lá fazer essa festa, em que as enfermeiras recebiam os chapéus que usavam, mas, em vez de escrever ‘ontem, houve uma festa tal e tal’, aproveitei para contar a história do hospital. De como tiveram de fazer um sorteio para lhe escolher o nome, porque o provedor [da Santa Casa da Misericórdia, a quem o hospital pertencia] chamava-se António e dizia que se chamassem Santo António ao hospital as pessoas iam dizer que tinha sido por imposição dele. Então fez-se um sorteio com os nomes São João de Brito, São José, Santo António e São Sebastião. Saiu mesmo Santo António”, conta.

O início das crónicas que acabariam por lhe conceder o título informal de historiador da cidade demoraria mais algum tempo a chegar. A ideia começou a nascer de um encontro casual, à porta da Casa do Infante, onde Germano tentara ir ver uma exposição, acompanhado de um dos directores do Jornal de Notícias. Só que os dois, mais um desconhecido, acabaram por bater com o nariz da porta, encerrada temporariamente por causa de um acidente no interior. Subiram os três, da beira-rio até à Baixa. O desconhecido “muito bem vestido, de chapéu” ia fazendo perguntas. “Na [Rua] Mouzinho da Silveira, perguntou que capela era aquela. E eu expliquei que era a Capela de S. Salvador do Mundo, contei a história, que tem que ver com a peste. Depois, perguntaram, ‘e esta rua, Afonso Martins Alho? Quem seria?’ Lá lhes expliquei quem foi Martins Alho, que era uma pessoa importante no século XIV, um mercador muito esperto, que assinou o primeiro tratado de comércio entre Portugal e Inglaterra, em nome do rei. É por causa dele que temos a expressão ‘esperto como um alho’. O homem virou-se para mim e disse: ‘Olhe, porque é que o senhor não escreve estas coisas no jornal? Os senhores são jornalistas’.” Germano ficou incrédulo – como é que aquele desconhecido sabia que eram jornalistas? Então, o homem explicou que fora durante anos director no Porto do Banco de Portugal e que Germano já o entrevistara. “Foi por causa das moedas de cinco tostões. Elas davam para comprar um selo, uma zona do eléctrico, um café, de maneira que houve uma altura em que não se encontravam moedas, desapareceram, e isso era notícia. E, pelos vistos, eu tinha ido lá falar com o homem”, ri-se Germano.

A sugestão ficou a germinar na cabeça do director do JN que, algum tempo depois, sugeriu a Germano Silva que criasse uma coluna na última página do jornal. O arranque não aconteceu, contudo, nessa altura, porque o tempo que o jornalista lhe pediu para se poder documentar e preparar cada crónica não foi concedido. Seria anos mais tarde, já com outra direcção, que Germano Silva retomou a ideia. “Eu disse ao director, olha lá, já estou ali a abandonar, podia fazer isto. E comecei, mas sem grande entusiasmo, porque eu achava que as pessoas já sabiam aquilo tudo. Mas depois percebi que sabiam apenas as pessoas com quem eu falava, e comecei a receber cartas e telefonemas por causa das crónicas”, conta.

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“Eu vou e conto histórias”

Num passeio aos jardins do Palácio de Cristal, olhando o Douro e a encosta de Vila Nova de Gaia na outra margem, um guia turístico poderá dizer-lhe que, durante a Guerra Civil (1828-1834) ou as Lutas Liberais (“este nome foi uma maneira de o Estado Novo não usar o termo ‘guerra’, para dar a ideia de que éramos um povo pacífico, bem comportado”), os irmãos Pedro e Miguel tinha montados os seus dispositivos militares frente a frente. Pedro, o liberal, do lado do Porto; Miguel, o absolutista, em Gaia. Germano vai dizer-lhe outra coisa. Vai contar-lhe como Pedro chegou ao fundo do que é hoje a Avenida das Tílias, no Palácio de Cristal, e viu a azáfama dos seus soldados a apontarem a artilharia para o Candal, onde se conheciam, pelos uniformes, os oficiais do exército do irmão Miguel. O entusiasmo, com a possibilidade de abater as mais altas patentes do inimigo era enorme, mas o rei pôs-lhe cobro. “O D. Pedro disse: ‘Não, não, pode lá estar o mano’.”

E se, por acaso, calhar de estar na companhia de Germano ao passar na Rua das Águas Férreas, é bem provável que ele não resista a contar-lhe que, no século XIX, ali existiam umas termas e que a zona era uma alameda, com árvores, sombra, bancos. “O homem que guardava as termas era um poeta improvisador, uma figura típica do Porto, conhecido como o Cartola, por causa do chapéu que usava. Naquela altura, era de bom-tom as meninas serem anémicas e elas lá iam beber a água que lhes dava um ar seráfico. E os namorados — que às vezes nem lhes falavam — iam atrás delas e pagavam ao Cartola, para deixar que eles pousassem os lábios na caneca pela qual elas bebiam.”

Germano Silva ri. Responde um animado “não” quando questionado sobre se se vê como historiador. Entrou mais vezes na universidade como convidado para falar aos estudantes do que para assistir a alguma palestra que o interessava. Diz que é antes um homem que gosta muito de História. Do Porto e de Portugal. “O que eu faço é contar este tipo de histórias. Eu vou e conto histórias.” E uma das próximas que quer contar é a do Senhor do Padrão. Que começa assim…

A Série Historiadores Amadores encontra-se publicada no P2, caderno de domingo do PÚBLICO