Conhecer a Europa através do voluntariado

Portugal é o terceiro país com mais inscritos, 3272, no Corpo Europeu de Solidariedade que conta com mais de 32 mil jovens. Candidatos inscrevem-se para trabalhar, estagiar ou voluntariar-se em áreas que vão do ambiente à distribuição de alimentos.

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Helena Gandra está em Bruxelas, depois de ter vivido na Polónia, Reino Unido e Alemanha DR
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No Centro Europeu de Voluntariado, Helena Gandra trabalha em comunicação e advocacy DR
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Da esquerda para a direita: Paula Santos, Francesca Cavallari (italiana), Tolga Can Fidan (turco), Michele Mameli (italiano) e Sónia Costa DR
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À frente, Paula, que já tinha feito Erasmus em Espanha e queria agora ir para um país com uma cultura mais diferente DR
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As actividades de tempo livre incluem passatempos com crianças DR

Sónia Costa, 21 anos, nunca tinha vivido fora de Portugal. Também não era costume viajar – conhece Barcelona e Bruxelas. Desde Janeiro que está em Arad, na Roménia, e ali ficará até Setembro, a trabalhar como voluntária com idosos e crianças.

A sua história pós licenciatura é parecida à de muita gente: o que fazer depois de estudar quando as oportunidades profissionais são limitadas? Assim foi com ela: o curso de Relações Internacionais, que terminou na Universidade de Coimbra em 2016, não lhe deu certezas sobre que carreira queria seguir. 

Ainda pensou em Diplomacia. Mas entretanto soube, através de uma amiga, do programa Corpo Europeu de Solidariedade (CES), uma bolsa de encontro entre jovens que querem fazer trabalho social e organizações não-governamentais ou empresas que desenvolvem actividades solidárias. “Se queres ir para fora, conhecer novos ambientes, então inscreve-te”, disse-lhe a amiga.

E assim Sónia Costa inscreveu-se no site online, fazendo parte dos cerca de 3272 portugueses que tornam Portugal o terceiro país com mais candidatos ao CES, segundo dados do gabinete da Comissão Europeia encarregue da divulgação.

Objectivo 100 mil

Desde que o Corpo Europeu de Solidariedade foi lançado em Janeiro que se inscreveram mais de 32 mil jovens entre os 18 e os 30 anos. O objectivo é ter, até 2020, 100 mil jovens nesta “rede” através da qual organizações não-governamentais, organizações da sociedade civil, autoridades nacionais, regionais e locais ou empresas sociais podem aceder à base de dados e escolher os candidatos.

Jovens, que sejam cidadãos ou residam na União Europeia, inscrevem-se para trabalhar, estagiar ou voluntariar-se em áreas que vão do ambiente à distribuição de alimentos por um período de dois meses a um ano, no seu próprio país ou noutro. A ideia é dar “resposta a situações difíceis em toda a Europa”, promovendo e reforçando “o valor da solidariedade”.

Sónia Costa e mais 14 portugueses foram já “colocados” em organizações ao abrigo deste programa. Esta jovem tinha-se candidatado a outro programa na Polónia, mas foi seleccionada para o projecto Volunteer for Community, que envolve Portugal, Roménia, Itália e Turquia e tem como objectivo a inclusão de populações vulneráveis, de comunidades de etnia cigana e de idosos.

Ao telefone da Roménia ela explica: “Tentamos fazer actividades manuais, ensinar inglês às crianças. Com os idosos promovemos a socialização, tentamos que sejam activos”. Estar a fazer voluntariado fora de Portugal tem sido uma experiência que “toda a gente devia” ter, comenta: “Faz-nos sair da zona de conforto”, afirma. “A nível profissional ganham-se experiências e competências”. O que ela queria mesmo está a conseguir: sair e aprender sobre outras culturas, saber como é viver sozinha e conhecer pessoas novas. Hoje afirma: "Sinto-me uma pessoa mais aberta."

No seu voluntariado tem direito a alojamento - uma casa que divide com cinco pessoas de outras nacionalidades e com outra portuguesa - e tem dinheiro para refeições e transporte num total de 160 euros. “Chega perfeitamente, a vida aqui não é cara.”

O "valor moral" que falta à Europa

Em Bruxelas, Helena Gandra, 25 anos, está longe de ter a sua primeira experiência a viver fora de Portugal. Está neste momento a estagiar na área da comunicação e advocacy no Centro Europeu de Voluntariado (CEV), uma rede com mais de 80 centros e agências nacionais e regionais de apoio ao voluntariado por toda a Europa que faz parte da rede Corpo Europeu de Solidariedade.

Depois de se licenciar em composição musical em Londres, fez um programa de intercâmbio na Alemanha, foi fazer Erasmus na Polónia, estagiou num banco e depois na Comissão Europeia em Bruxelas. Desde Abril que está no CEV, ainda com um mestrado em Estudos Europeus na Alemanha por terminar. “O maior valor do programa é o valor moral, que está a faltar na Europa”, diz Helena Gandra.

“A situação política na Europa, com o 'Brexit' e a ascensão dos partidos de extrema-direita, faz pensar que falta um grande sentido de unidade. Este programa é uma forma bem directa de dizer que os povos têm mais em comum do que o que se pensa. O voluntariado mostra solidariedade através de ajuda a pessoas de outras culturas e vai afectar a geração mais nova que adere ao programa", comenta.

O objectivo também é a inclusão social, conclui. "Nesse aspecto é bastante relevante para uma Europa mais unida.”

Desde os 16 anos que Paula Santos, a outra portuguesa que está na Roménia, trabalha. Foi caixa de supermercado, animou grupos de crianças. Cursou Animação Socio Educativa na Escola Superior de Educação de Coimbra um pouco à “descoberta”, pois estava interessada em projectos que “ajudavam os desfavorecidos e as pessoas excluídas socialmente”. 

Acabou o curso em 2014 e esteve a trabalhar em vários sítios, incluindo a fazer animação para idosos em Lisboa. Mas tinha vontade de mudar. Falaram-lhe deste programa europeu, inscreveu-se na organização portuguesa parceira da Volunteer for Community, a ProAtlântico. “Tinha vontade de ir para um país mais distante, de Leste, diferente, porque já tinha feito Erasmus em Espanha e achei que era muito semelhante a Portugal. Aqui conheço outro modo de vida”, explica. 

O projecto onde está agora foi, no final, o que lhe mais interessou por trabalhar com diferentes públicos-alvo – os idosos e as crianças. Trabalha também numa cantina que fornece comida a associações “ajudando a pôr comida dentro das caixas”.

Meses depois de ali ter chegado, já pode fazer um balanço. A experiência está a correr como esperava, “bastante enriquecedora”, e tem tido oportunidade de visitar outros países à volta onde nunca iria se não estivesse ali. “É outro lado que o programa proporciona”, diz. “Temos que aproveitar”.