Como os Fleet Foxes encontraram o caminho de volta para a música

A banda de Seattle regressa de um hiato motivado pela “inquietação” do compositor Robin Pecknold. Na sequência dessa busca surge o novo Crack-Up, um álbum mais maduro e negro.

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Em 2012, Robin Pecknold, vocalista, guitarrista e compositor dos norte-americanos Fleet Foxes, tem uma crise de identidade. Um ano após o fim da tournée do segundo álbum, Helplessness Blues, não sabe se quer mais ser quem era, fazer o que fazia ou estar onde estava. Muda de cidade, inscreve-se num curso de carpintaria, vai para a faculdade estudar Humanidades e fica oito meses sem pegar na guitarra. Inicia um processo de desvinculação com o passado e entra “numa vida nova”, muito diferente da que desde 2008, quando lançam o primeiro álbum homónimo, passou a ter. Assim viveu durante algum tempo. Porém, contrariamente à direcção que Pecknold parecia estar a seguir, ao fim de seis anos a banda de Seattle acorda do hiato e regressa com o lançamento do terceiro álbum, Crack-Up – trabalho “mais maduro” e “mais negro” com título inspirado num ensaio de F. Scott Fitzgerald.

Não tinha decidido nada de definitivo quando optou por não querer lidar com algo que estivesse remotamente ligado ao universo musical, diz-nos Pecknold, que fala connosco dentro do autocarro da digressão que trouxe os Fleet Foxes à Europa, um par de horas antes de subirem ao segundo palco do Nos Alive, onde tocaram a 8 de Julho. Depois de uma viagem longa entre Bilbau e Lisboa, admite estar “ligeiramente” cansado, mas não é por isso que, apesar de alguma aparente timidez, não demonstra ser acessível e estar disponível para conversar.

Quando decidiu parar “por uns tempos”, sabia apenas que queria experimentar outras coisas. “Queria saber o que era capaz de fazer além da música”, conta. “Não estava desiludido com a indústria musical”, explica que apenas não quis partir para a composição de novos temas até “chegar o tempo certo”. Passou mais por uma questão pessoal, que “vinha de dentro”. Quis encontrar-se. “Só partiria para a composição de um novo álbum quando me sentisse entusiasmado com a música e realmente bem com as composições.”

Trabalhar a madeira

Isolou-se numa cidade pequena, a duas horas de Seattle, e aprendeu a trabalhar a madeira com as próprias mãos. “O Christian [Wargo, baixista] faz mobiliário. O meu pai também sabia trabalhar a madeira. Quis experimentar." Resultado dessa experiência foram algumas peças de mobiliário que construiu para o próprio apartamento.

Mais do que tudo, Robin Pecknold queria voltar a ter a oportunidade de viver no anonimato. Cortou cabelo e barba e despiu a personagem de músico. Depois da experiência mais braçal, inscreveu-se na Universidade de Columbia, em Nova Iorque, para estudar Arte e Literatura do século XX. “Adorei o contexto da academia. Senti-me protegido, num ambiente de exploração e de crescimento intelectual acompanhado”, descreve. “Fez-me sentir exactamente o oposto do que se sente num emprego. Ali fui aprender apenas pelo prazer de aprender”, diz Pecknold, que afirma ter descoberto na academia o “prazer” de ter uma rotina. 

Estas experiências acabaram por se reflectir nos passos que deu a seguir: “Todo este processo ajudou-me a valorizar mais a música e a recuperar o sentimento de que não é apenas um trabalho." Algumas das suas “inquietações” tinham-se dissipado. Amadureceu com o processo e sentiu que tinha chegado a altura de voltar às composições. Foi quando ligou a Skyler Skjelset, guitarrista e amigo dos tempos do liceu com quem fundou a banda, para lhe dizer que estava a trabalhar no novo álbum. Skye, como é tratado por Pecknold, já duvidava se alguma vez a banda voltaria a reunir-se. Já o compositor, ainda que não tivesse delineado uma data para o regresso, nunca sentiu que o futuro da banda estivesse em risco.

A lição de Fitzgerald

F. Scott Fitzgerald escreveu na primeira metade do século XX um ensaio que é também um auto-retrato da sua ascensão e queda enquanto escritor. Em The Crack-Up, o autor traça a linha de declínio entre o sucesso e o vazio. São lançadas, no entanto, as pistas para um novo reerguer. Inspirado no ensaio que tinha lido pouco tempo antes de ingressar na faculdade, Pecknold projecta um paralelo entre o seu passado mais recente e o estado de espírito que levou o autor a escrevê-lo. Estava escolhido o nome do álbum lançado no mês passado.

Um álbum “mais maduro” e “mais negro”. “É tão alegre quanto eu conseguia fazer na altura”, ironiza. Algumas das composições nascem ainda em 2013, mas é entre 2015 e 2016 que cria grande parte do trabalho. “Um processo mais isolado e pessoal”. Se o primeiro álbum diz contar apenas “histórias” e o segundo ser a nível lírico “mais pessoal”, neste esse lado mais pessoal reflecte-se na “sonoridade”. É um trabalho mais “cinemático”, mais “visual”, com “diferentes camadas”. “É uma viagem que avança e recua no tempo uma série de vezes. É, de certa forma, editado como se fosse um filme”, revela.

Crack-Up não obedece a uma estrutura típica de verso-refrão, “é mais livre”, mais progressivo até. Apesar de ser um álbum por vezes mais negro, continua a ser imagem de marca dos Fleet Foxes, com as “explosões épicas” de harmonias instrumentais e de voz. “Continua a existir esse contraste.” É o álbum mais pessoal que compôs até agora, diz. Todo o processo de pré-composição e composição remete para a altura em que Brian Wilson criou Pet Sounds, dos Beach Boys, banda que assume ser da sua preferência. Será este álbum o seu Pet Sounds? “Quando muito será Smile”, afirma, sublinhando que a nível de estrutura se assemelha mais à do disco que sucedeu ao álbum mais marcante da história dos Beach Boys.

Este foi o álbum que compôs agora, com este estado de espírito. Um disco com músicas que chegam quase aos nove minutos de duração, como é o caso do single Third of May / Odaigahara, que explora paisagens sonoras assentes numa estrutura ligeiramente diferente da dos anteriores. Continua, ainda assim, a ser um disco folk-rock. É, portanto, garantido que no futuro esse será o caminho a seguir pelos norte-americanos? Se calhar não: “É possível que o próximo álbum, ao contrário deste, tenha apenas músicas de três minutos de duração e uma sonoridade completamente diferente."