Líder da Altice cita Sinatra: "Quem resolve problemas em Nova Iorque resolve em Portugal"

A Altice trouxe a Portugal o seu estado-maior para explicar a compra da Media Capital. Patrick Drahi não falou e deixou o protagonismo entregue aos seus gestores. Os pormenores do negócio foram, contudo, ofuscados pelas polémicas que envolvem a sua empresa, problemas que Drahi desdramatiza.

Patrick Drahi
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Patrick Drahi Daniel Rocha

A Altice comprou a Media Capital por 440 milhões de euros. A Meo comprou a TVI, a Rádio Comercial, a Plural e o IOL. O negócio há muito ensaiado representa o primeiro passo de convergência entre as telecomunicações e media no mercado português. Mas o anúncio feito ontem pelos homens-fortes de todas as empresas envolvidas aconteceu com a Altice enleada em várias polémicas, desde o papel da Meo nos incêndios de Pedrógão Grande, à contestação dos trabalhadores da PT às medidas de recursos humanos dentro da empresa.

Patrick Drahi não disse uma palavra durante toda a apresentação do negócio. Mas, à saída, ao PÚBLICO – e enquanto se dirigia para encontros com o Presidente da República e primeiro-ministro – desvalorizou o ambiente tenso que paira sobre a actividade da sua empresa em Portugal. “Quem consegue resolver problemas em Nova Iorque, consegue resolver problemas em Portugal”, atirou, depois de ter defendido a resposta da PT às falhas das comunicações verificada nos incêndios de Pedrógão Grande.

Minutos antes, o presidente-executivo da Altice, Michel Combes, já tinha sublinhado que a empresa continua a sentir-se bem-vinda em Portugal, preferindo manter-se à margem das questões políticas. “Isto é um projecto industrial, o nosso compromisso é desenvolver e fazer crescer os negócios”, respondeu perante a pergunta sobre as críticas do primeiro-ministro e dos partidos de esquerda à actuação da empresa. Repetindo a mensagem que tinha preparado para esta apresentação – “estamos comprometidos com Portugal, com investimentos em fibra, móvel e inovação” – e reutilizando a palavra mais pronunciada por si na manhã desta sexta-feira, no Altis de Lisboa, onde decorreu a apresentação aos jornalistas: “orgulho”; na compra da Media Capital, no trabalho da PT Portugal, na expansão da Altice.

Concorrer com o Google

Na mesa para explicar o negócio estavam Michel Combes, Paulo Neves, presidente executivo da PT Portugal e Allain Weill, líder da Altice Media, a unidade que vai integrar a Media Capital. Do outro lado, na plateia, estavam Patrick Drahi e o seu amigo Armando Pereira, o outro líder do grupo Altice. Ambos ouviram com atenção a estratégia que Combes descreveu para a Media Capital, desde usar a tecnologia da Meo para “ajudar a Media Capital a migrar para o digital”, até ao lançamento de “novos canais” ou à “internacionalização dos canais para os países onde há grandes comunidades portuguesas”. Passando pela aposta no desenvolvimento da actividade da produtora” Plural. Tudo com a ambição de "construir fortes empresas digitais para concorrer com gigantes como o Google e o Facebook".

Mas as perguntas conduzem a conferência de imprensa de volta aos incêndios e à pressão política e aos despedimentos na PT ou na TVI. Combes interrompe uma resposta sobre o preço da operação para sublinhar a entrada da líder da Media Capital, a espanhola Rosa Cullell, juntamente com o presidente da Prisa, José Luiz Diaz (só muitos minutos depois apresentado pelo Combes, depois de outra resposta sobre o "orgulho" da Altice). Sobre o preço, "a Media Capital tem sido bem gerida, tem ajustado custos e temos já identificado potencial para crescer" que justificam os 440 milhões de euros.

Rosa Cullell fala logo a seguir a Paulo Neves repetir o compromisso da Altice em manter aberto o acesso dos canais da TVI aos concorrentes Nos e Vodafone. A presidente da TVI é clara, em português, falando em “sinergias”, “lideranças”, “transformação para o digital” e sobre o seu futuro: “a minha intenção é ficar, na TVI e na Media Capital, com a minha equipa. Depende do novo accionista”. E o novo accionista? Combes usa o mesmo número que usou para garantir a independência do jornalismo da TVI: “Fica, 100%. Sim, desejamos tê-la no nosso projecto”. Logo a seguir, Patrick Drahi troca sorrisos e sussurros com Rosa Cullell, sentada estrategicamente entre o fundador do grupo e o seu amigo Armando Pereira.

Allain Weill, o líder da actividade de media da Altice, faz questão de reforçar, por seu turno, que em França o grupo está a reforçar a aposta na ficção, através da recém criada Altice Studios, e faz uma referência à Altice Sports, que agrega a oferta de direitos desportivos, como a Champions League para o mercado francês. Em Portugal, a Meo comprou os direitos desportivos do FC Porto. Sobre este tema, a posição foi sempre a mesma: “tencionamos expor os nossos conteúdos ao maior número de pessoas”, afastando a hipótese de fechar o acesso aos concorrentes.

Despedimentos na TVI

“Não estamos a despedir na PT, não há qualquer intenção de despedir na TVI”. Combes quer falar do futuro da Media Capital, mas volta sempre aos temas quentes em torno da Altice. Paulo Neves dá um contributo, ecoando algumas das palavras que já tinha deixado no Parlamento, esta semana: “Não estamos a despedir pessoas, mas temos de tornar a empresa mais ágil. Estamos dispostos a compensar as pessoas que querem sair”. Sobre a greve anunciada, “é natural que as pessoas estejam insatisfeitas em processos deste tipo, é um direito democrático”. Combes aproveita para voltar a descrever que continua orgulhoso da estratégia de crescimento na fibra, recorrendo mais uma vez à lista actualizada de feitos da PT Portugal nos últimos dois anos. 

Já no que diz respeito ao projecto de lançar um banco digital com a marca Altice, Michel Combes reconheceu que a marca Alticebank já está registada e o pedido de licença já foi feito junto do Banco Central Europeu. “A banca é uma extensão do nosso projecto digital, estamos preparados para avançar por aí, se quisermos ir por aí”, explicou, orgulhoso.