O sonho do futebol feminino português a tornar-se realidade

O Campeonato da Europa começa amanhã, na Holanda, e a estreia de Portugal decorre na quarta-feira. “Queremos sair com o sentimento de que demos tudo em campo”, diz a capitã

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FPF/André Sanano

Francisco Neto era um bebé de apenas três meses e meio quando, pela primeira vez na história, uma equipa feminina de futebol competiu em nome de Portugal. Mas dentro de poucos dias caber-lhe-á, enquanto seleccionador, comandar a selecção nacional A na estreia na fase final de uma grande competição. O histórico apuramento que várias gerações perseguiram concretizou-se e a equipa nacional parte hoje para a Holanda, onde se realiza o Europeu 2017, consciente das dificuldades que vai enfrentar – mas disposta a fazer tudo para “dignificar a camisola”.

Tudo aconteceu graças a um golo de Andreia Norton, a mais jovem da convocatória, com apenas 20 anos. Na sua estreia pela selecção A, a futebolista do Sp. Braga foi a autora do golo de Portugal na segunda mão do play-off frente à Roménia (após 0-0 em casa, a selecção portuguesa empatou 1-1 fora e apurou-se), que garantiu a estreia em fases finais. “Claro que me sinto orgulhosa. Foi um golo que colocou a nossa selecção no Campeonato da Europa. Foi um momento bom, mas já passou. Queremos fazer com que isso aconteça mais vezes”, vincou em conversa com o PÚBLICO, durante um encontro da selecção feminina com jornalistas na Cidade do Futebol.

“Não foi um golo como os outros”, admitiu a envergonhada futebolista. “Só me lembro das minhas colegas todas a gritar ‘golo!’, de correrem para cima de mim. Foi muito importante. Mais cedo ou mais tarde Portugal ia conseguir estar numa fase final. E, tal como já esteve nos sub-19, estamos agora com a selecção A. O futebol feminino em Portugal está a evoluir muito. Têm chegado jogadoras com muita qualidade”, apontou Andreia Norton.

“Todas as gerações passadas trabalharam para que fosse possível estarmos no Europeu. É um sonho tornado realidade, não só nosso mas de toda a gente que trabalhou para que o futebol feminino evoluísse. Foi um feito histórico que conseguimos. Estamos muito contentes e orgulhosas do que conquistámos. Agora vamos pensar jogo a jogo e tentar dignificar a camisola”, sublinhou a capitã Cláudia Neto.

A experiente futebolista algarvia confessou que a ansiedade se faz sentir, mas o entusiasmo por representar Portugal pela primeira vez numa fase final ajuda a ultrapassá-lo. “Claro que há sempre um nervoso miudinho, mas com o trabalho e com este grupo fantástico esse nervosismo vai passando. Para mim, é um sonho estar neste Europeu. Sempre sonhei participar numa grande competição de selecções, e finalmente vai acontecer”, congratulou-se Cláudia Neto. “Estamos muito contentes por podermos representar o país. Vamos tentar superar-nos, com grande espírito de sacrifício e entreajuda. Queremos sair do Europeu com o sentimento de que demos tudo em campo”, prometeu a capitã da selecção feminina.

Maior nível, mais regressos

“Há uns anos, ninguém acreditaria que chegaríamos a uma fase final. Isto diz muito do futebol feminino em Portugal, de como a modalidade está a crescer. Há mérito na maneira como estão a ser feitas as coisas, no trabalho da federação, das associações e dos clubes. Há uma aposta no futebol feminino e isso é uma mais-valia para as jogadoras. Muitas que estão fora já pensam voltar para Portugal, porque realmente há outro nível e as condições são melhores”, apontou Ana Borges, ela própria um exemplo desta tendência de regresso. Após mais de oito anos a jogar no estrangeiro, regressou em Dezembro para vestir a camisola do Sporting, terminando a época a celebrar a “dobradinha”.

Ana Borges reconhece que Inglaterra, Espanha e Escócia vão criar problemas à selecção portuguesa. “Temos plena noção de que somos a equipa com pior posição no ranking, sabemos que vai ser muito complicado. Das três, a Inglaterra talvez seja a mais forte. Eu joguei em Inglaterra [no Chelsea] e conheço a maior parte das jogadoras. Têm grande poderio físico e são muito rápidas. E a Escócia tem um estilo muito semelhante. Portugal é mais idêntico ao futebol espanhol, mais de bola no pé. Claro que a Espanha tem outro percurso em fases finais, é a terceira vez que joga o Campeonato da Europa e também já esteve no Mundial”, disse. A estreia será precisamente frente às espanholas, adversárias de Portugal na qualificação para este Europeu (a equipa nacional perdeu os dois jogos). “Ficou-nos aquele sabor a pouco, porque poderíamos ter conseguido algo mais. Mas agora, na fase final, são jogos diferentes”, vincou a futebolista portuguesa.

O Europeu 2017 já está marcado na história do futebol feminino português, por ter sido o torneio que permitiu finalmente que o sonho se concretizasse. “Temos de honrar o nome de Portugal e dar uma boa imagem. Se pontuarmos será muito bom. No fim fazemos as contas e, se der para passar, óptimo. Se não der, desde que tenhamos dado o máximo, saímos de cabeça erguida”, concluiu Ana Borges.