Ano de luxo para os portugueses do Curtas Vila do Conde

Marta Mateus, Carlos Conceição, Francisco Carvalho e João Pedro Rodrigues também brilharam numa edição que, entre novidades e repescagens, confirma o bom momento da produção nacional.

<I>Coelho Mau</i>, de Carlos Conceição
Foto
Coelho Mau, de Carlos Conceição DR

Tínhamos falado, há alguns dias, dos “bons augúrios” que se sentiam na competição nacional do 25.º Curtas Vila do Conde – e, vista a totalidade das obras a concurso, os presságios iniciais sobre um bom ano de curtas confirmaram-se. Claro que nem todos os 16 filmes seleccionados estão ao mesmo nível, mas, num ano em que tanto se falou de crise, a produção portuguesa de curtas cerrou fileiras, “ergueu-se à ocasião” e respondeu com alguns dos melhores exemplos do formato em tempos recentes.

Se problema houve, esteve no risco de ter cineastas com nome feito a “afogar” os nomes jovens que por aqui apareceram. Seria pena, por exemplo, que se passasse ao lado de Longe da Amazónia, de Francisco Carvalho, delicada teia de imagens evocativas inspirada pelas viagens de um explorador esquecido do século XVIII, Alexandre Ribeiro Ferreira, que faria uma boa “sessão dupla” com A Cidade Perdida de Z, de James Gray. Mas é o risco inerente a ter a concurso Coup de Grâce, o ballet mecânico e formalista-emocional de Salomé Lamas sobre pai e filha em reencontro alegórico, ficção assumida que abre novos rumos ao cinema da realizadora; Altas Cidades de Ossadas, o encontro secreto e opressivo de João Salaviza com Karlon Krioulo que ao mesmo tempo abre e fecha portas para o olhar urbano que tem marcado a obra do cineasta; ou Où en êtes-vous, João Pedro Rodrigues?, “ponto da situação” de 20 anos de cinema, da primeira curta Parabéns até O Ornitólogo, construído ao ritmo de imagens de arquivo e memórias pessoais.

Encomendado pelo Centro Pompidou para a retrospectiva que dedicou a Rodrigues em 2016, Où en etes-vous … é um filme que faz muito mais sentido exibido em contexto, ou para quem tiver um profundo conhecimento da sua obra, mesmo que articule o pessoal e o universal, a natureza e a urbanidade com apreciável desenvoltura e até um toque de emoção universal que nem sempre o realizador atingiu noutros filmes. De resto, os véus que Où en etes-vous… levanta podem também ter o efeito oposto, de instigar aqueles que não conhecem a ir à procura (se a isso ajudarem os deuses do DVD…).

O risco da reciclagem não é forçosamente problemático, já que a própria exposição da galeria Solar que acompanha os 25 anos do Curtas, sob o genérico Terra, recorre em parte à “reciclagem” de filmes que já fizeram “carreira”. Um Campo de Aviação, de Joana Pimenta, por exemplo, ganha muito em estar exposto no “cubo espacial” da galeria, mais do que numa sala tradicional; já O Corcunda, a colaboração de ficção científica fajuta de Gabriel Abrantes e Ben Rivers, sobrevive melhor no ecrã tradicional. E, num pequeno parêntesis, foi absolutamente revigorante perceber como quase todos os filmes escalados para o Curtas prestaram especial atenção à dimensão comunal e ritualista do grande ecrã e recusaram o funcionalismo das plataformas múltiplas. Com raras excepções, a classe de 2017 do Curtas foi composta de obras para serem vistas na maior tela possível.

Ainda assim, e já que estávamos a falar de repescagem, dois dos melhores filmes do programa vieram das selecções de Cannes. Farpões, Baldios, primeira curta de Marta Mateus, tem sido uma das estreias mais aclamadas da recente produção nacional, e percebe-se porque: o filme olha para o universo rural do Alentejo de um ponto situado algures entre António Reis (no ritmo contemplativo e atento à natureza, no recurso a habitantes locais e a tradições orais) e Pedro Costa (na estrutura em quadros pictoriais e na narrativa oblíqua, quase aforística). Há em Farpões, Baldios um olhar de cineasta que nos parece francamente interessante, no modo como faz da realidade algo de simultaneamente fiel a si próprio e transfigurado pela presença de fantasmas ou tradições, mas estes 25 minutos francamente sedutores não chegam ainda para identificar uma voz própria.

E Coelho Mau de Carlos Conceição “redime” os resultados algo dispersos do anterior Acorda, Leviatã num regresso assumido à ficção mais “tradicional” (embora, para o autor de Boa Noite, Cinderela, a dimensão de “tradição” seja algo de muito relativo…). Jogo delicado de contornos pop entre desejos lúbricos e canduras protectoras, Coelho Mau tem qualquer coisa de conto de fadas pós-moderno e transgressivo onde um adolescente é capaz de tudo para proteger e cumprir os desejos da sua irmã doente, por entre sugestões de fetichismo softcore e arquétipos de candura marota. É o melhor filme do realizador até agora, e não nos surpreenderia que estivesse entre a shortlist dos candidatos ao prémio máximo – que se conhecerá ao fim da tarde de domingo, em fim de festa dos 25 anos.