Marcha dos imãs contra o terrorismo termina em Nice no aniversário do atentado

Um autocarro, 30 imãs (um deles o português David Munir), seis cidades numa semana, e uma mensagem: “Não em nosso nome”.

Hassen Chalghoumi em oração em Bruxelas com o ministro belda do Interior, Jan Jambon, e o escritor judeu Marek Halte
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Hassen Chalghoumi em oração em Bruxelas com o ministro belda do Interior, Jan Jambon, e o escritor judeu Marek Halte François Lenoir/Reuters

Um grupo de imãs europeus – incluindo o português xeque David Munir – viajou por uma série de cidades europeias com uma mensagem clara. “Não podemos associar o islão a estes bárbaros e a estes assassinos” responsáveis por atentados terroristas, disse um dos organizadores da iniciativa, Hassen Chalghoumi, no arranque da Marcha dos Muçulmanos contra o Terrorismo, que começou em Paris, nos Campos Elísios, há uma semana, e termina em Nice esta sexta-feira.

Os cerca de 30 imãs de diferentes países europeus – França, Alemanha, Itália, Bélgica –, e ainda outras três dezenas de pessoas de outras organizações, percorreram de autocarro alguns locais em que houve atentados terroristas. Os líderes religiosos muçulmanos querem com este périplo dizer: “Não em nosso nome”.

“É a primeira vez na Europa que se faz uma iniciativa destas, é muito importante”, diz ao Público, por telenone, o xeque David Munir, da Mesquita Central de Lisboa.

O imã português sublinha que muita gente diz aos muçulmanos sobre os atentados: “Condenam, mas não fazem nada”. Aqui está a sua resposta. “Uma coisa é haver marchas de muçulmanos contra os atentados, outra é ter os líderes das mesquitas – tem muito mais impacto”, defende. Se vai haver repetição ainda não sabe. “Vamos ver como corre.”

Religião refém

“Quando a nossa religião é tomada pelo ISIS [Daesh] como refém, temos de reagir”, disse Hassen Chalghoumi no sábado na berlinense Breitscheidplatz, onde ocorreu um atentado no mercado de Natal no ano passado, sob protecção policial e perante um grupo formado sobretudo por turistas, segundo o jornal alemão Tagesspiegel.

Depois de arrancar de Paris para Berlim, os imãs estiveram em Bruxelas, atingida por vários atentados em 2016 e 2017, na cidade francesa de Saint-Etienne-du-Rouvray, onde no ano passado um padre foi assassinado por elementos do Daesh, em Toulouse, onde foi atacada uma escola judaica, e fecham a iniciativa em Nice, quando se assinala o primeiro aniversário do ataque no Dia da Bastilha.

A marcha foi iniciada por Chalghoumi e pelo escritor judeu Marek Halter. Chalghoumi, antigo imã da cidade de Drancy, a Norte de Paris, é uma figura controversa em França pela sua proximidade à comunidade judaica e pelas suas opiniões liberais. A sua oposição ao véu integral (niqab), que cobre a cara só deixando uma faixa aberta para os olhos, por exemplo, foi muito criticada. Há quem diga que ainda que a comunidade tivesse espaço para um líder religioso liberal, Chalghoumi é tão liberal que muitos não se identificam com ele.

A Marcha dos Muçulmanos não contou com o apoio do Conselho Francês do Culto Muçulmano, segundo o jornal francês Le Figaro. O Conselho denuncia “todas as ligações entre islão e terrorismo” e afirma que “a religião não pode esconder qualquer tipo de violência”, mas condena acções de “autoflagelação” da comunidade.

Os organizadores da marcha desvalorizam as críticas e não querem entrar em polémica. David Munir explica que todos partem da mesma premissa – “o islão é contra o terrorismo”. Mas há quem não participe por temer represálias dos radicais – a participação numa acção destas pode trazer consequências para alguns líderes religiosos. “Se for a uma marcha, a minha mesquita pode ser alvo. Os muçulmanos também sofrem com isto”, sublinha Munir.

Para o debate dentro da comunidade, Munir deixou outra questão, que não se aplica aos muçulmanos em Portugal, mas sim em França, Alemanha ou Bélgica. “Para alguns muçulmanos a identidade está em crise”, diz. “Alguns muçulmanos em França e na Alemanha, têm problemas em identificar-se como europeus. Dizem que são, por exemplo, muçulmanos magrebinos – mas vivem na Europa”. A estes fiéis, o líder religioso lembra que “ser europeu não quer dizer ser exactamente igual”. E que é importante pertencer ao colectivo nacional.

Na marcha, em cada cidade foram visitados locais de atentados – em Paris, foram ao supermercado judaico “onde um maliano matou pessoas e outro maliano salvou-as escondendo-as num frigorífico”, lembra Munir, e ao Bataclan. Em todos os locais, foi feita uma oração ecuménica, com muçulmanos, cristãos e judeus lado a lado.