Crítica

Para Jay-Z, a idade é um posto — de observação interior

Morrer, renascer e ir ao divã — eis o novíssimo álbum do velho Jay-Z, um dos seus melhores dos últimos anos.

Jay-Z num confesso amadurecimento pessoal
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Jay-Z num confesso amadurecimento pessoal

Não deixa de ser irónico que seja pouco tempo depois de ser premiado com a entrada no Songwriters Hall of Fame (mais ainda por ser o primeiro rapper a consegui-lo) que Jay-Z lance um álbum que, de facto, possui algum songwriting verdadeiramente notável — embora, é certo, o termo “songwriting” não corresponda exactamente à arte letrista, antes ao eco popular de determinadas canções e sua permanência no ouvido e imaginário americanos (“Jay-Z is pop music but presents it in a different manner”, afirmou Linda Moran, presidente do referido prémio).

Há muito que seguimos e apreciamos o trabalho do nativo de Brooklyn, embora tenhamos o discernimento para ver nele um excelente rapper que nunca passou de um letrista mediano (com algumas excepções que só comprovam a regra, caso de Regrets, por exemplo), circunstância (e destrinça: rapper/letrista, as duas coisas não andam necessariamente de mãos dadas) que muitos preferem, frequentemente, ignorar. Um dos maiores rappers vivos, Jigga sempre compôs canções poderosas, orelhudas, pejadas de ganchos e com um flow muito próprio (e influência para tantos), daquelas que, não sendo matéria rigorosamente pop, ficam no ouvido como se fossem, e álbuns célebres como Reasonable Doubt, The Blueprint ou The Black Album estão carregados delas. Ao colocarem-se as suas letras, porém, ao lado das daqueles que lhe são geracionalmente próximos (anos 90), casos de Nas, De La Soul ou A Tribe Called Quest, rapidamente se tiram as dúvidas sobre quem escreve o quê. Todavia, repare-se: numa cena de Paterson, o último filme de Jim Jarmusch, o personagem principal, que é poeta, atraído pela métrica e pelo ritmo das rimas que ouve pronunciadas por um aspirante a rapper (na verdade, trata-se de um cameo de Method Man, um dos elementos dos Wu-Tang Clan), abeira-se-lhe para dizer como gostou do que ouviu.

Ambos partilham, no seu processo de escrita, de uma linguagem “realista”, mas tudo o resto os separa (o olhar poético de Paterson sobre o quotidiano, o ego trippin do rapper), embora isso não afaste o essencial: o facto de, frequentemente, a “forma” do rap ser de tal forma fascinante que o “conteúdo” se pode tornar secundário. Ora, por aqui passa, justamente, um dos mais fascinantes paradoxos da história do hip-hop: o de um rapper como Jay-Z, cujas letras estão frequentemente insufladas de braggadocio (discurso gritantemente auto-engrandecedor, com tudo o que isso pode implicar, da violência à ostentação material), poder cativar, pela sua musicalidade e coolness, diferentes ouvidos, desde logo aqueles que dispensam o tipo de discurso referido. Tudo isto, reitere-se, não faz dele um rapper menor, apenas tornando ainda mais entusiasmante, isso sim, o momento em que nos pomos à escuta de um álbum no qual assina, inesperadamente, um conjunto de canções altamente introspectivas, não raramente poéticas, tantas vezes confessionais. Talvez seja esta “novidade” que implique, então, a morte (suicídio?) dele próprio com que o álbum se inicia: Kill Jay-Z, sim, “Matar Jay-Z”, necessidade de enterrar a personagem narcísica para se conhecer o homem “por detrás da máscara” (mais verdadeiro? Ou ainda “personagem”?...), um pouco aquela velha ideia de que, por vezes, seria preciso “nascer duas vezes” para se aprender certas coisas. Se bem que, em Bam, um dos raros momentos de ego trippin do álbum (irónico que seja aqui utilizado um sample de Sister Nancy quando o reggae é, historicamente, um género que cultiva o despojamento e a humildade), Jigga apele à importância do ego para se vencer obstáculos, Yin-Yang que só torna mais complexa (et pour cause interessante) a sua figura.

Leitura mais imediata (a da morte da “personagem”) que concorre, porém, com uma outra, a saber, a igual vontade de “matar”, expurgar, uma série de fantasmas e pesadelos (4:44 refere-se à hora exacta em que Jay acordou durante a noite para escrever a letra, a qual aborda a relação tumultuosa com a mulher) que o próprio carrega há uma data de anos, num álbum que é um gigante “pôr cá para fora” emocional e onde a importância da família (de sangue e afectiva) é tópico latente de uma ponta à outra. Do tiro no irmão à sexualidade da mãe (ele que tantas rimas homofóbicas já fez em tempos), da dificuldade em ter uma vida economicamente desafogada enquanto cidadão negro na América à(s) infidelidade(s) na sua relação com Beyoncé”, a mulher com quem cresceu não só na vida afectiva mas também na indústria musical, na fama e nos mexericos e, até, nas câmaras de videovigilância (o vídeo da discussão com a cunhada, a também cantora Solange…), Jay-Z é esse gangster sensível de tanto film noir que finalmente se expõe, o Tony Soprano das célebres idas ao psiquiatra (ele que tem um álbum intitulado, nem de propósito, American Gangster). Já se falou, com razão, em “rap adulto” a propósito deste disco, ao que ajuda a distinta composição instrumental de No I.D. (embora duas das três faixas bónus tenham o carimbo de James Blake), histórico produtor de Chicago que, sem necessidade de acorrer às modas do trap (esse no qual abunda o Auto-Tune que Jay-Z em tempos “matou” na controversa Death of Auto-Tune), promove o regresso de Jay-Z à matriz mais soulful dos seus primeiros álbuns em detrimento da electrónica que, sobretudo pela mão de Timbaland, predominava no último Magna Carta... Holy Grail (2013).

É essa veterania lhe permite sacar um álbum que, não se afastando muito (com pontuais excepções, caso do já famoso sample de Todo o Mundo e Ninguém do Quarteto 1111 em Marcy Me) do sampling dos nomes mais óbvios da história da música negra (Nina Simone, Kool & The Gang, Stevie Wonder, Donny Hathaway), soa sempre fresco, nunca redundante ou “já-visto” (como por vezes acontece no hip-hop mais sample-based). E isto ao mesmo tempo que promove uma espécie de sampling “intra-diegético”, no sentido em que os fragmentos originais utilizados, por exemplo, em The Story of O.J. (Four Women, Nina Simone) e 4:44 (Late Nights and Heart Breaks, Hannah Williams and the Affirmations), pertencem a canções cujas letras estão tematicamente alinhadas com os assuntos sobre os quais Jay-Z rappa (o racismo e a infidelidade, respectivamente).

Este “renascimento”, qual fénix, traz, bem assim, um confesso amadurecimento pessoal, bem patente no número de vezes que se ouve “I apologize” na tão bela quanto tristíssima 4:44 (fúnebre canção de amor sobre como tudo o que ainda podia haver de bonito já não vai, pura e simplesmente, acontecer), processo expiatório acompanhado de uma mutação natural da sua própria voz (tom e flow), que surge agora mais lenta, mais morna, a sugerir uma maior reflexão, inclusivamente se ensaiando, em alguns momentos, uma proto-spoken word (coisa rara, senão inédita, de se lhe ouvir), sinal de que, ao contrário do que se sentia nos seus últimos álbuns, o nova-iorquino está cheio de coisas realmente urgentes para dizer. Em Legacy, ouve-se uma criança a perguntar, retórica e não retoricamente, “Daddy, what’s a will?”; Jay-Z falará, então, sobre a dificuldade de singrar numa América racista e desigual, mas, mais a fundo, é sobretudo uma hipótese de redenção que o homem criado num dos public housing mais degradados de Brooklyn (o Marcy que dá nome a umas das faixas) aqui busca, próprio de alguém que, aos 47 anos e olhando para trás, se vê forçado a acreditar que, por vezes, os fins justificam alguns meios menos correctos. É que, tantos anos depois, tantos Lincolns, Bushs, Obamas e Trumps depois (“I feel like Ali / Viet Cong never done shit to me, feel me? / More worried about Trump than anyone overseas, feel me?”), tudo mudou para continuar na mesma: “Rich nigga, poor nigga, house nigga, field nigga / STILL NIGGA… STILL NIGGA...”.