Os extremos que se tocam na programação do Curtas

Entre Laura Poitras, F. J. Ossang, Sandro Aguilar e Yann Gonzalez há muito mais em comum do que parece à primeira vista.

Fotogaleria
Project X,de Laura Poitras e Henrik Moltke. dr
Fotogaleria
Project X,de Laura Poitras e Henrik Moltke. dr
Fotogaleria
Les Îles, do francês Yann Gonzalez
Fotogaleria
My Burden dr

Não é possível — é mesmo contra-producente, para não dizer limitado — resumir uma semana de sessões do Curtas e uma boa centena de filmes projectados a apenas meia-dúzia de títulos. Mas, essa redução ao “micro” revela a própria estrutura do programa como uma espécie de fractal: um elemento básico idêntico qualquer que seja a dimensão, que é a disponibilidade para aceitar e partilhar todas as experiências, da mais simples à mais experimental, como parte de um contínuo. Os extremos tocam-se e revelam-se como parte de um todo, e quando a programação está entrosada como está este ano, o festival deixa de ser “apenas” de filmes para ser um momento activo de presença e intervenção no mundo à sua volta: arte e política, diferença e aceitação, sociedade e cidadania como inseparáveis.

A esse nível, os 25 anos do festival foram (estão a ser) uma celebração e reafirmação da validade multimédia do projecto Curtas, de filmes a exposições passando por debates e concertos. E quando se fizer a história desta edição comemorativa, terá forçosamente de se falar dos “irmãos gémeos” separados à nascença que são o francês F. J. Ossang e o português Sandro Aguilar. Que nada pareceria reunir no papel, à excepção da simutaneidade da sua presença em Vila do Conde, e do facto de O Som e a Fúria, a companhia fundada pelo realizador português, ser uma das produtoras de 9 Doigts, a mais recente longa de Ossang, acabada de seleccionar para o concurso de Locarno. Mas, vai-se a ver, há mais em comum entre o regresso do português à longa dez anos depois de A Zona, Mariphasa, que teve estreia mundial fora de concurso no Curtas, e a obra do francês que foi alvo de retrospectiva integral nesta edição.

Ambos os realizadores articulam a sua relação com a convenção do cinema através de estilizações formalistas, mas partindo sempre de pontos opostos, com uma lógica de género cinematográfico clássico estilhaçado e desconstruído. Ossang percorre os caminhos da série B e Z de acção ou de espionagem com uma atitude punk faça-você-mesmo, Aguilar vaporiza o melodrama doméstico ou o filme fantástico até nada restar senão o ambiente e o mal-estar.

Mariphasa, que se lê como uma espécie de síntese-greatest hits das explorações visuais do português ao longo dos anos, é uma exploração metódica dos labirintos da violência, da frustração e do desencanto, substituindo a narrativa por um trabalho espantoso de construção de ambientes cuja paciente filigrana não raras vezes corre o risco de caír na esterilidade ou no hermetismo; cabe ao espectador escolher onde (quer) estar. O cinema de Ossang, sobretudo o de obras tão inclassificáveis como L’Affaire des divisions Morituri ou Dharma Guns, é uma viagem na montanha russa da anarquia e do caos vale-tudo com a genuína fruição do diletante que está a curtir que nem um castor, algures entre o Godard de Alfaville e a BD da escola franco-belga. Mas em comum têm a recusa dos cânones evidentes e das convenções — que importa se as coisas parecem não fazer sentido ou ser inteligíveis se tudo se “sente” estar no sítio?

É por ai que se deve falar, aliás, de um dos mais inclassificáveis filmes que encontramos no concurso internacional — Les Îles, do francês Yann Gonzalez, um dos “autores” regulares do Curtas, que percorre aqui territórios paredes-meias com Bertrand Bonello. Fotografado em absoluto deslumbre por Simon Beaufils, Les Îles é um sumptuoso exercício onírico de transgressões sensuais, uma sucessão de quadros sensoriais que parecem obedecer puramente à pulsão do subconsciente e comunicar uma qualquer e procurada confusão de géneros e desejos. É o tipo de filme que nos deixa vontade de o voltar a ver, ao mesmo tempo que nos questionamos se existe alguma coisa para lá do prazer voluptuoso da superfície, por trás do seu requintado teatro carnal de luxúria.

No extremo oposto da sensualidade táctil de Les Îles está o rigor geométrico e conceptual de Project X, exploração despojada da aridez secreta tecnocráticadas agências de segurança e espionagem americanas por Laura Poitras e Henrik Moltke. Poitras é a documentarista que esteve envolvida nas revelações de Edward Snowden e ganhou um Óscar por Citizenfour; Project X, desenvolvido com o site de Glenn Greenwald The Intercept, é um perturbante exercício formal que filma os pontos secretos onde a agência americana NSA recolhe as comunicações móveis americanas enquanto Michelle Williams e Rami Malek lêem excertos do manual de comportamento do agente secreto que se preze.

E estes extremos que se tocam encontram-se também por vezes dentro do mesmo filme. Como em My Burden, animação efusivamente desesperada da sueca Niki Lindroth von Bahr: é um musical em stop-motion sobre o “deserto de almas” do mundo moderno, imaginado como uma bolha fechada e estanque onde todos procuram um sentido e transportam um fardo. Se é legítimo pensar em Roy Andersson, não estamos também longe do niilismo em loop da Cidade Misteriosa de Alex Proyas, mas percorrido por uma tristeza literalmente sideral, com uma das imagens mais marcantes que o Curtas mostrou em 2017. E que, por ser a última do filme, não revelaremos aqui.