Crítica

Eis a energia deste tempo. Como se dança?

Swing Time, titulo retirado ao filme de Fred Astaire e o título do mais belo romance de Zadie Smith. Uma narrativa sobre o presente, centrada na amizade entre duas mulheres que se conheceram em crianças unidas pelo sonho da dança. Uma tem talento a outra não sabe qual o seu dom.

Dominique Nabokov
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Dominique Nabokov

A sala do St. Joseph College, em Brooklyn, encheu para ver e ouvir a britânica Zadie Smith (Londres, 1975) sobre o seu mais recente romance, Swing Time, e a voz soou num sotaque londrino sem nota de contágio dos últimos anos em que viveu em Nova Iorque: “O maior dançarino que vi na minha vida foi o kankurang. Mas na altura não sabia quem era, ou o quê: uma forma alaranjada que se agitava freneticamente, da altura de um homem, mas sem cara de homem, coberta com muitas folhas sobrepostas, sibilantes. Como uma árvore ao sol brilhante de um Outono nova-iorquino que se arranca sozinha do chão e agora dança pela rua abaixo.” Só a voz da escritora no silêncio de duas ou três centenas de pessoas que pagaram 30 dólares, com direito a um exemplar do seu quinto romance. Ela continua a ouvir-se, íntima, numa primeira pessoa que não é a dela mas com muitas ressonâncias pessoais. “Só o momento presente existia, só a dança”. E as frases pareciam soltar-se do continuo narrativo para se isolarem numa beleza em pedaços. “Pensei: cá está a alegria que toda a vida procurei.”  

Zadie Smith lia um capítulo de Swing Time, o mesmo título de um filme de Fred Astaire, romance que se alicerça na amizade de duas raparigas de um bairro dos subúrbios pobres de Londres. Uma e outra são metade brancas metade negras; uma é rebelde e talentosa, outra cheia de um bom-senso adulto e admiradora do talento da outra. As duas querem ser dançarinas, mas, sabe-se, só uma irá lá chegar.

Quem leu a italiana Elena Ferrante não deixa de estabelecer um paralelo sobre a relação de amizade no feminino entre duas pessoas com características antagónicas, espécie de pacto de lealdade onde entra ressentimento, cheio de silêncios, culpa e um permanente olhar a outra como reflexo de si mesma. Do que falhou, do que se conquistou. Olho a outra para saber de mim, parece ouvir-se, e as notícias que vêm desse olhar são muitas, de orgulho, frustração, desalento. E o embate pessoal desde o primeiro momento, exercício de poder onde poucas vezes se ganha.

“Se é possível pensar em todos os sábados de 1982 como um só dia, conheci Tracey as dez da manhã desse sábado, quando atravessávamos o areão de um adro da igreja, cada qual pela mão da sua mãe. Estavam presentes muitas outras raparigas, mas por razões óbvias reparámos uma na outra, nas semelhanças e nas diferenças como fazem as raparigas. O nosso tom de castanho era exactamente o mesmo – como se tivessem cortado da mesma peça de tecido cor de canela para nos fazerem a ambas – e as nossas sardas concentravam-se nos mesmos sítios, eramos da mesma altura. Mas a minha cara era inexpressiva e melancólica (...). Tracey tinha uma cara alegre e redonda, parecia uma Shirley Temple mais escura...” O episódio é recordado num momento em que se percebe que a narradora acaba de perder “uma versão” da sua vida. Está sozinha, isolada, temporária, e a partir daí reconstitui o seu percurso que é também o do tempo em que vive, as últimas década o seculo XX, o início de uma novo era em que todas as relações de poder, as referências, a identidade se desalinham face ao que parecia a evolução natural das coisas: o progresso.

Ao contrário de Tracey, a narradora não tem um nome e essa ausência sublinha o vazio a partir do qual se narra. Foi despedida. E o que o leitor sabe enquanto vai sabendo da ambição primordial, a dança e depois de uma vida comandada pelo acaso, a dúvida acerca dos seus talentos, embate de personalidade com a mãe, negra, feminista, inconformada, um contraste naquela periferia de gente a tactear para fugir a derrota mais ou menos decretada pela raça, a classe. Ao contrário da mãe da narradora, a de Tracey e branca, histriónica, abandonada pelo marido, supostamente bailarino de Michael Jackson, delinquente. Está apostada em mostrar que a filha é a melhor. Mas Tracey não tem apenas a cara alegre de Shirley Temple; tem também o mesmo sentido do trágico. A narradora ira encontra-lo encontra-o em Aimee, a Pop star mundial de que se torna assistente. E outra relação de subjugação, ela existe a sombra do talento de alguém, mas interage revelando-se e nisso servindo de filtro à sua criadora, Zadie Smith, para uma visão da actualidade que se desamarra de clichés exibindo-os, e esse desmontar e desarmante. Vem com a simplicidade das revelações óbvias. Sobre a pobreza, as boas intenções, o exotismo, a interrogação sobre o que e a ajuda humanitária, o papel que se espera das mulheres, o que pode o dinheiro, a incapacidade de chegar ao outro quando o outro vive num mundo que não e o nosso. “É claro que nós cá também temos um sistema de classes”, diz uma africana, comparando a Gâmbia com Nova Iorque, “mas não temos o desprezo”, lê-se na cuidada tradução para português assinada por Francisco Agarez.

E tudo enquanto a narrativa é percorrida pelo que no fim se percebe ser também uma espécie de ensaio sobre a dança, a arte e o modo de contar. “Nova Iorque foi a minha iniciação as possibilidades da luz, entrando por frestas nas cortinas, transformando pessoas e passeios e edifícios em ícones dourados, ou em sombras negras, dependendo da sua posição em relação à luz.” Vale como metáfora para a vida na visão do mundo de Zadie Smith neste Swing Time. Todos dependemos dessa posição. O que somos e o modo como nos vêem. A energia é outra coisa. Está lá, mas só alguns a emanam. A energia de kankurang em Africa, a de Tracey, no subúrbio de Londres, a de Aimee no mundo e a da narradora enquanto reflexo da energia do seu tempo.

Quando Zadie Smith terminou de ler, a sala aplaudiu como num grande espectáculo. Era uma sala que lia o livro da britânica procurando sinais. Zadie estava ali uma semana apos a vitória de Donald Trump e perguntaram-lhe como seria agora. Como a pergunta infantil, óbvia, que ela, escritora, poderia fazer. “O que é isto?” Isto é também o presente deste romance.