Resultados dos exames nacionais não surpreenderam professores

Médias de Português e Matemática subiram, mas o resultado de Física e Química voltou a colocar esta disciplina entre as mais mal classificadas nos exames, o que já tinha sido previsto por professores da disciplina.

Alunos internos ficaram em terreno positivo em todas as disciplinas sujeitas a exame
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Alunos internos ficaram em terreno positivo em todas as disciplinas sujeitas a exame Miguel Nogueira

Nem grandes subidas, nem grandes descidas. Os resultados dos exames nacionais do ensino secundário, divulgados nesta quinta-feira, apontam para uma tendência de estabilidade, segundo frisa o Instituto de Avaliação Educativa (Iave), o organismo responsável por estas provas, mas que mesmo assim é mais positiva para uma disciplinas do que para outras.

Depois de terem descido em 2016, as médias dos exames de Português, cuja realização que ficou marcada por uma alegada fuga de informação sobre os seus conteúdos, e de Matemática A, do 12.º ano, voltaram a subir este ano para 11,1 e 11,5 respectivamente, numa escala de 0 a 20 valores. Já o resultado de Física e Química A desceu de 11 para 9,9, o que coloca de novo esta disciplina entre as que têm piores classificações em exames. Pior só História da Cultura e das Artes, que registou uma média de 9,8 valores.

A descida a Física e Química A tinha já sido antecipada, nas redes sociais, por um grupo de professores da disciplina, que classificou a prova como “ardilosa”. O exame tinha sido considerado adequado pelas sociedades portuguesas de Física e Química, mas os seus responsáveis admitiram depois uma descida da média do exame em virtude, sobretudo, de algumas novidades introduzidas no enunciado da prova. Como, por exemplo, o facto de existirem perguntas de escolha múltipla que exigiam cálculos ou ainda porque as questões relativas a Física e a Química apareciam mais misturadas do que é hábito.

Em declarações por escrito ao PÚBLICO, o secretário-geral da Sociedade Portuguesa de Química, Adelino Galvão, desvalorizou a descida da média de exame por comparação a 2016, frisando que aquele “foi um ano com uma variação excepcional em relação à tendência da disciplina”. Analisando em simultâneo as médias de exames e as taxas de retenção, vê-se que o resultado de 2017 “é o segundo melhor desde 2011”, referiu ainda.

Os alunos internos são aqueles que frequentam as aulas durante todo o ano e as médias de exame aqui apontadas são as que foram obtidas por estes. Em comunicado divulgado nesta quinta-feira, o Júri Nacional de Exames destaca que as médias destes estudantes nas 22 provas realizadas em Junho foram “todas superiores” a 9,5 valores, patamar a partir do qual se considera que o resultado é positivo.

A média dos alunos internos subiu também a Biologia e Geologia, passando de 10,1 para 10,3 valores. Em conjunto com Física e Química A, este exame é utilizado como prova de ingresso nos cursos de saúde que estão entre os mais disputados e durante anos os resultados permaneceram em terreno negativo. 

“É uma média considerada manifestamente insuficiente face ao trabalho promovido por professores de alunos no ensino e aprendizagem da disciplina”, comentou João Oliveira da Associação Portuguesa de Professores de Biologia e Geologia, que chama também a atenção para o facto de se continuar “a observar percentagens inquietantes de alunos reprovados na disciplina”. Este ano foram 8%.

Prova "globalmente adequada"

Apesar de a associação ter considerado a prova “globalmente adequada”, João Oliveira indica que “o recurso a termos e conceitos que extrapolam o definido nos programas gerou constrangimentos na sua resolução tendo tido impacto nos resultados”.

Em comunicado divulgado nesta quinta-feira, o Iave faz saber que “mesmo as maiores diferenças, face a 2016, não fogem ao quadro de variabilidade normal, num contexto de provas públicas. “As variações observadas não traduzem, por isso, uma alteração do quadro de exigência em matéria de dificuldade dos itens ou da sua complexidade face a anos anteriores”, frisa.

De regresso ao exame de Português, que é realizado por todos os alunos do 12.º ano, refira-se que no caso do primeiro a subida da média registou-se com uma prova onde o principal texto para análise era um poema (de Alberto Caeiro), o que contaria a tendência dos últimos anos identificada pelo Iave num relatório recente. Ali dava-se conta de que sempre que saía uma obra poética ou um excerto de Os Lusíadas os resultados desciam.

Quanto à prova de Matemática A, a associação de professores da disciplina, que chegou a prever uma descida da média, frisa que “a subida, embora positiva, coloca-a dentro do mesmo valor estatístico do ano anterior". A Sociedade Portuguesa de Matemática lembra que no seu parecer, divulgado no dia do exame, já tinha considerado que este era mais fácil do que o realizado em 2016.

Português sem arguidos ainda

A Procuradoria-Geral da República indicou ao PÚBLICO que ainda não foram constituídos arguido no âmbito da investigação que está a ser feita a uma alegada fuga de informação sobre os conteúdos do exame de Português do 12.º ano, que foi realizado por 76.643 alunos.

Para além do Ministério Público, o caso está também a ser investigado pela Inspecção-Geral de Educação e Ciência, mas os resultados do exame acabaram por ser divulgados sem que haja conclusões públicas deste trabalho.

Segundo o jornal Expresso, a professora na origem da alegada fuga de informação já terá sido identificada, bem como a aluna que divulgou a gravação onde se aconselhava os alunos a estudarem Alberto Caeiro e a treinarem uma composição sobre o peso da memória. Ambos os itens saíram no exame realizado a 19 de Junho.