Opinião

Os guarda-Costa e a fraude democrática

Tristemente, a vivacidade do debate parlamentar perde muito com a ausência dos partidos de protesto.

António Costa teve mais férias durante as quatro horas do debate do Estado da Nação do que na semana que passou em Palma de Maiorca. Foi morninho, morninho, morninho. Sangue? Nem vê-lo. Não por falta de esforço da oposição, diga-se (Passos Coelho fez o melhor discurso em muito tempo e Luís Montenegro dramatizou na despedida ao anunciar que o governo “está a colapsar”), mas porque o Bloco de Esquerda, o PCP, Os Verdes e até o PAN se esforçaram muito para apagar as chamas. Aliás, chega a ser ofensivo continuar a chamar a isto “geringonça” – aquilo a que assistimos foi à actuação de uma verdadeira coligação, com guião seguido à risca. Mesmo depois de Pedrógão, mesmo depois de Tancos, mesmo depois do Galpgate – ou precisamente por causa de tudo isso –, os partidos que sustentam o governo tomaram a decisão de unir fileiras e proteger a todo o custo o primeiro-ministro. Jerónimo e Catarina faziam assistências; António Costa encostava. Quem os viu e quem os vê.

É certo que o formato de debate é claramente favorável a quem está no governo, mas ainda assim foram os guarda-costas de António Costa – os guarda-Costa –, que permitiram ao primeiro-ministro escapar relativamente incólume ao seu mensis horribilis. A esquerda poderia ter decidido que era altura de descolar um pouco do governo, mas decidiu o contrário disso: reaproximou-se de Costa, apenas com um remoque ou outro para plateia ver, e poderem dizer daqui a dois anos “nós avisámos”. Tristemente, a vivacidade do debate parlamentar perde muito com a ausência dos partidos de protesto. Quer dizer, eles continuam a protestar: Jerónimo até disse que Pedrógão e Tancos eram culpa “das políticas de direita”, mas no mesmo sentido em que se o molho de um bife lhe respingar para a camisa a culpa também é das políticas de direita. Protestar contra a oposição não é a mesma coisa que protestar contra o governo. E sem os resmungos do PCP e a estridente indignação do Bloco falta energia na Assembleia da República. Nem CDS, nem PSD, conseguem desempenhar esse papel, desde logo porque já foram governo e passam o tempo todo a serem confrontados com o passado.

Claro que começa a ser bastante patético, com a legislatura quase a meio, continuar a ouvir tanta gente a criticar Passos Coelho como se ainda fosse primeiro-ministro. Mas há pouco a fazer contra isso. Em primeiro lugar, porque ele foi primeiro-ministro. Em segundo lugar, porque é no pescoço de Passos que esta coligação se alimenta. Isso enviesa bastante aquilo que deveria ser um debate parlamentar minimamente produtivo e esclarecedor. Fez bem o líder do PSD em reconhecer, de forma ponderada e pouco dada a improvisos (aleluia!), os pontos em que este governo foi bem sucedido, ao mesmo tempo que afirmava – com absoluta razão – que o debate político em Portugal está inquinado por aquilo a que chamou “fraude democrática”: o facto de o PS não admitir que os objectivos económicos foram alcançados fazendo o contrário daquilo que prometeu, e de a esquerda continuar a querer enfiar-nos pela garganta a vergonhosa narrativa do “fim da austeridade”.

Infelizmente, continua a haver muita, muita gente que quer acreditar nisso com muita, muita força. E sendo a fé coisa tão poderosa, o apocalipse anunciado por Luís Montenegro é mera figura de retórica. A única conclusão do debate do Estado da Nação é esta: enquanto continuarem a existir tantos guarda-Costa, as notícias acerca do colapso deste governo são manifestamente exageradas.