Opinião

Melhoraram as melgas

A solução é andar todo vestido dos pés à cabeça, com um espantalho do século XIX.

A evolução das espécies tem sido bondosa para o mosquito. A nova geração é invisível e imortal. Em vão se procura pela envergadura das velhas melgas afinal tão fáceis de matar. Os novos mosquitos são pequeninos. É como se não tivessem pernas: são só barriga preta, cheia de sangue humano.

 

De manhã na praia só se vêem feridos. Este tem sarampo na testa, aquele tem o olho fechado. Todos concordam que a água do mar ajuda a suportar as picadas. Sim, durante um minuto e meio. Entre coçadelas discutem-se estratégias para combater os novos mosquitos. São fáceis de resumir: não há.

 

Quanto mais bonito o fim de tarde, mais nos vampirizam. Escondem-se debaixo da cama à espera que adormeçamos para poderem comer à vontade.

 

Só têm uma vulnerabilidade: são gulosos. Sei porque um deles caiu numa travessa de pêssegos enlatados. Estava ele a afogar-se na calda e eu, pensando que já tinha morrido, fiz o favor de apanhá-lo cuidadosamente com a colher, salvando-lhe a vida.

 

Levantou imediatamente vôo até atingir a invisibilidade. O cérebro evolutivo deve ter feito um apontamento: “carne humana, sim, força; pêssegos de conserva, meh, not so much”.

 

A solução é andar todo vestido dos pés à cabeça, com um espantalho do século XIX. Antes morrer de calor e das mazelas ácidas do suor do que servir de unidade móvel de transfusões. O que é preciso é coragem para reconhecer que nada podemos contra eles. Eles evoluem à medida que nós nos vamos atrasando. Quanto é que custa um fato de apicultor? Seja o que for, é barato.