Editorial

Ainda alguém tem dúvidas?

Em mais do que um sentido, crescer num ambiente racista é como crescer num ambiente radioactivo. Não o sentimos, não o percebemos, mas estamos num ambiente contaminado que nos estraga por dentro.

Vamos lá tentar explicar isto devagarinho: há racismo em Portugal. Claro que há. Não é uma questão semântica, é objectiva. Infelizmente, há actos de racismo diários em Portugal, quer sejam denunciados ou não, quer sejam identificados ou não.

E claro que não era preciso o Ministério Público vir acusar de racismo o que se passou na esquadra de Alfragide para que se soubesse que há racismo na polícia. Nem é preciso que ocorra uma condenação para que se confirme que sim, em Portugal há racismo — e, sim, há racismo nas polícias. A confirmar-se, este acto de racismo será gravíssimo, até porque foi patrocinado pelo Estado e exercido com especial violência por um corpo profissional legalmente habilitado para o fazer.

O racismo é filho directo da ignorância. Também da maldade, especialmente quando se junta ao nepotismo. Mas este nem é o racismo mais dramático nem o que mais importa erradicar. Nos tempos de hoje, o racismo mais grave para a nossa sociedade é o do preconceito inconsciente, em que reproduzimos o estigma na condescendência com que tratamos os que “não são como nós”.

Esse racismo, que se enraíza desde tenra idade, tem consequências gravíssimas. É aquele racismo que nos permite negar em boa consciência que sejamos racistas, mesmo quando o somos de forma inconsciente. Mesmo quando notamos a ausência de diversidade nas esferas intermédias e superiores da nossa sociedade, mesmo quando toleramos a gritante existência do padrão dominante nas universidades, mesmo quando ignoramos voluntariamente a falta de diversidade à nossa volta. É este racismo que se estende também às vítimas e que lhes limita, de forma inconsciente, a dimensão do sonho sobre o que podem alcançar.

Em mais do que um sentido, crescer num ambiente racista é como crescer num ambiente radioactivo. Não o sentimos, não o percebemos, mas estamos num ambiente contaminado que nos estraga por dentro. Felizmente, e ao contrário da radioactividade intensa, podemos curar-nos do racismo. Mas implica consciência, vigilância sobre as nossas acções e as dos que nos rodeiam. O combate ao racismo tem de ser um imperativo moral, porque é uma questão de direitos humanos. Mas a isso acrescenta-se uma razão simples, tão simples, para que nos livremos dessa radioactividade: a sociedade diversa é melhor para todos. E só a nossa ignorância, a nossa radioactividade, nos tem impedido de perceber isto.