Reportagem

"É importante que se saiba que os jovens agredidos estavam a falar verdade”

No bairro da Cova da Moura recordam-se os tempos em que havia uma polícia de proximidade. E lamenta-se que esse projecto tenha desaparecido.

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Jakilson Pereira e Isabel Monteiro, da direcção da Associação Moinho da Juventude Nuno Ferreira Santos
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"As pessoas esquecem-se que há aqui gente com o seu trabalho", diz Isabel Monteiro, coordenadora da Associação Moinho da Juventude Nuno Ferreira Santos
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Aos cabo-verdianos que fundaram o bairro, juntaram-se guineenses, angolanos, são-tomenses, portugueses, brasileiros Nuno Ferreira Santos
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Este caso não foi o primeiro na Cova da Moura. "Muitos houve e todos foram arquivados", diz Isabel Marques Monteiro. Por isso, a primeira reacção da coordenadora da Associação Moinho da Juventude à acusação de 18 agentes da PSP, proferida pelo Ministério Público (MP), é de regozijo: “Para nós foi uma alegria. É sinal de que já se fez justiça”, diz.

A versão do que se passou em 2015, que os jovens deram na altura, foi confirmada pelo MP. “Só o facto de este caso ser resolvido já é uma grande conquista para nós. Quer dizer que os jovens estavam a falar mesmo verdade. Normalmente os polícias não acreditam neles. Tentam desacreditar os jovens.”

Jakilson Pereira, colega de Isabel Monteiro na associação, partilha essa alegria. Logo pela manhã, nesta terça-feira, num café do bairro, conviveu com outros residentes em roda do mesmo acontecimento: a notícia de que 18 agentes da esquadra de Alfragide tinha sido acusados da prática de crimes como denúncia caluniosa, ofensa à integridade física qualificada, tortura e outros tratamentos cruéis, degradantes ou desumanos, isto em 2015, contra seis jovens da Cova da Moura. Jakilson diz que sentiu necessidade de moderar o entusiasmo geral. “Uma acusação não é uma condenação. Ainda há muita pedra para partir”, foi dizendo a quem perguntava: “Eles nunca mais vão poder ser polícias?”

Para algumas perguntas Jakilson não tinha resposta. Perguntas que se explicam pelo "pânico que os polícias aqui inspiram".

Os 18 agentes acusados ficaram com Termo de Identidade e Residência, de acordo com o despacho de acusação, onde não é referido se ficam suspensos de funções. Para já continuam ao serviço, disse fonte policial à Lusa. O PÚBLICO tentou confirmar se assim vão permanecer. A Direcção-Nacional da PSP não respondeu e o gabinete da ministra Constança Urbano de Sousa apenas disse: “O Ministério da Administração Interna não se pronuncia sobre processos em investigação."

"Propaganda" nas notícias

Jakilson Pereira lembra-se muito bem daquele dia de Fevereiro de 2015. E uma das coisas que mais o indignaram, além da brutalidade contra os seis agredidos, entre os 16 e os 33 anos, foi uma notícia com forte impacto que qualifica de "propaganda que condicionou tudo”.

Uma televisão abria nessa tarde de 5 de Fevereiro um directo urgente, a partir da esquadra de Alfragide, dizendo: "Jovens invadem esquadra." Ao mesmo tempo, dizia-se que os polícias tinham sido apanhados de surpresa. A opinião pública “nessa tarde nem sabia que os seis jovens estavam hospitalizados por terem sido brutalmente agredidos”. E insiste indignado: a verdade esbarrou no "estereótipo". Por isso, acrescenta Isabel Monteiro, "uma das coisas mais importantes é que a polícia, e toda a gente, saiba que os jovens estavam a falar verdade".

E nota: “Os jovens deste bairro são, na maioria, de nacionalidade portuguesa. O problema é que a imagem que passa é de um bairro de drogados, bandidos, traficantes. As pessoas esquecem-se que há aqui gente com o seu trabalho, embora também haja muito desemprego jovem."

Polícias de proximidade

No bairro da Cova da Moura – entre Alfragide, a Damaia e a Buraca  no concelho da Amadora, recordam-se os tempos em que havia uma polícia de proximidade, e lamenta-se que esse projecto tenha desaparecido, seja porque mudou o comando da PSP de Alfragide, seja porque mudaram as políticas genéricas da polícia, e houve desinvestimento nesta área, dizem.

“Na altura aquilo [o projecto] estava a correr lindamente”, recorda Isabel Monteiro. “Os polícias vieram almoçar e organizou-se um jogo de futebol entre polícias e residentes do bairro", recorda. "O projecto serviu para conhecerem a realidade, a nossa cultura. As pessoas aqui vivem como se estivessem em Cabo Verde.” Aos cabo-verdianos, que fundaram o bairro, juntaram-se entretanto guineenses, angolanos, são-tomenses, portugueses, brasileiros, "uma mistura de gente residente".

Residentes que, já na tarde desta terça-feira, depois do PÚBLICO ter estado na Cova da Moura, foram confrontados com a chegada de três carrinhas de polícias às ruas do bairro. "Ficam parados à frente das pessoas com as suas caçadeiras", contou um habitante da Cova da Moura por telefone. Nada, diz, que as pessoas do bairro não conheçam, mas desta vez, afirmou, "estão mesmo a intimidar".