Torne-se perito

Remodelação em stand-by, poucas saídas na mira

Costa travou respostas sobre quem sai, mas já há certezas sobre quem fica. Só deve haver posse quando Marcelo voltar do México, daqui a nove dias — apesar da pressa do BE. Rocha Andrade ainda vai à AR falar sobre offshores.

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Nesta fase, Costa tem a agenda preenchida com outras prioridade LUSA/MIGUEL A. LOPES

Os três secretários de Estado que pediram no domingo a sua exoneração ainda estão em funções — e por lá ficarão, provavelmente, por mais uns dez dias, admitiu uma fonte próxima de António Costa ao PÚBLICO. O primeiro-ministro deixou sair a informação de que vão sair mais secretários de Estado (não ministros), aproveitando a porta aberta com o "Galpgate", mas resolveu não apressar as decisões. "Não é um caso urgente, nem os secretários de Estado saem por alguma decisão que tenham tomado", justifica a mesma fonte. Agora é tempo de os ministros pensarem quem deve, ou não, sair, e sobretudo quem devem convidar para as pastas que ficarem em aberto.

Avaliando pela agenda do primeiro-ministro, mas também pela do Presidente da República, a cerimónia de posse pode até ficar adiada para depois de dia 19, na quarta-feira da próxima semana. Isto porque Marcelo parte domingo para uma visita oficial ao México. E não é provável que as decisões no Governo estejam fechadas até lá, embora ninguém o exclua por completo.

Muitas reuniões

Nesta fase, Costa tem a agenda preenchida com outras prioridades, concretiza ao PÚBLICO uma fonte de São Bento. Sobretudo o debate do Estado da Nação, marcado para todo o dia de quarta-feira e onde o Governo aparecerá mais exposto do que nunca. Preparando isso, o chefe de Governo marcou para a tarde anterior uma reunião com todos os chefes militares, onde estará também o ministro Azeredo Lopes (deixando assim um novo sinal de apoio ao homem que tem estado na mira da oposição). O objectivo: discutir e avaliar as condições de segurança em instalações militares.

Antes disso, nesta manhã, Costa estará com o presidente da Assembleia da República da China, apresentará a ligação aérea a Macau e tem já marcado um almoço de trabalho. "Ele tem muitas reuniões marcadas — e na maioria não é para discutir a remodelação", garante-se.

Com a remodelação em stand-by, até os secretários de Estado demissionários terão que cumprir mais algumas etapas. Rocha Andrade, o responsável pelo Fisco e o peso-pesado que Costa perde com o "Galpgate", vai esta terça-feira ao Parlamento para discutir uma decisão sua que deu polémica: a retirada de três países da lista de offshores, que foi muito criticada pelo PSD e CDS. Já João Vasconcelos, secretário de Estado da Indústria, acabou por colocar ontem na sua página de Facebook um balanço deste ano e meio no Governo sem qualquer referência ao facto de ter sido confirmado como arguido — mas aproveitando para agradecer as "milhares de manifestações de apoio” que recebeu “nas últimas horas”. No Ministério da Economia não se fala de data de saída, mas assume-se que o próprio ministro Manuel Caldeira Cabral ficará com os dossiers do secretário de Estado enquanto não houver substituição.

Saídas mínimas

De resto, no Governo, houve ordem para se falar pouco — e para os jornalistas remeterem perguntas sobre quem sai para o gabinete do primeiro-ministro. Com o núcleo duro político a dar sinais de que as saídas adicionais, noutros ministérios, serão mínimas ("umas duas, três pessoas"), o objectivo primeiro foi travar uma onda de especulações, que atrapalhasse mais ainda o debate parlamentar desta semana onde se fará o balanço do ano (e, em particular, dos casos de Pedrógão, Tancos e Galp).

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Às perguntas feitas ontem pelo PÚBLICO a todos os ministérios, seguiu-se quase sempre uma resposta-tipo: "Não temos comentário ou informação a prestar uma vez que o assunto é da competência do primeiro-ministro." Mesmo sabendo-se que o chefe de Governo passou a mensagem de que as saídas seriam "a pedido dos próprios", essa foi a resposta quase invariável que chegou dos ministérios da Presidência, Ambiente, Justiça, MNE, Educação, Defesa e MAI, por exemplo.

Mesmo assim, com as perguntas a sair cedo durante a manhã, ainda deu para ficar com algumas certezas: no Ministério do Trabalho, Economia e Mar não haverá alterações na orgânica. E mesmo nas Finanças, onde se especulava que a secretária de Estado da Administração Pública poderia estar de saída, veio uma resposta negativa. Ontem, de resto, o secretário de Estado Mourinho Félix passou aos jornalistas uma mensagem de tranquilidade, mesmo sobre a saída de Rocha Andrade: “Tenho a certeza que será possível encontrar alguém que continue com o mesmo brio, com a mesma dedicação, com a mesma dignidade com que o secretário de Estado Fernando Rocha Andrade sempre esteve”, disse aos jornalistas em Bruxelas, à saída do Eurogrupo.

Em stand-by, mesmo assim, terá que ficar a negociação do Orçamento de 2018 — nomeadamente sobre os novos escalões do IRS. “Obviamente que ao nível da discussão política teremos que esperar por uma nova pessoa que possa depois liderar essa discussão ao nível do Parlamento”, acrescentou Mourinho Félix, o braço-direito de Mário Centeno.

Quem pode ficar inquieto com tanto stand-by é o Bloco de Esquerda, o partido que apoia o Governo que mais pressa pediu a Costa no processo de substituições. Esta segunda-feira, Catarina Martins pediu ao primeiro-ministro que seja "rápido" e acrescentou: "O que o país aguarda é que o primeiro-ministro anuncie qual é a solução do Governo, como vai ficar, se vamos ter uma remodelação, como vai ficar este equilíbrio. Julgo que o país precisa de uma solução mais cedo do que mais tarde." Pelo PCP, o deputado António Filipe desvalorizou mais o caso: “Mais do que as pessoas que em determinado momento exercem os cargos, o que é importante são as políticas.” com S.R., M.L., R.M., A.S. e I.A.

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