Trump Jr. sabia que “informação comprometedora” sobre Clinton vinha do Kremlin

Filho do então candidato foi informado que advogada russa com quem se reuniu tinha informações que "eram parte do esforço do Governo russo para ajudar a candidatura do pai" à Casa Branca.

Filho de Trump depois de discursar na Convenção Republicana de Julho de 2016
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Filho de Trump depois de discursar na Convenção Republicana de Julho de 2016 Brian Snyder/Reuters

Um dia depois de divulgar que uma advogada próxima do Kremlin se reuniu com três dos principais responsáveis da campanha de Donald Trump, prometendo informações comprometedoras sobre a rival democrata, o jornal The New York Times volta à carga e escreve que Donald Trump Jr. soube por email que essas informações “eram parte do esforço do Governo russo para ajudar a candidatura do seu pai”.

O diário explica ter falado com três pessoas que viram o email enviado por Rob Goldstone a Trump Jr., uma mensagem onde o ex-jornalista de tablóides britânico “indicava que o Governo russo era a fonte da informação potencialmente prejudicial” para Hillary Clinton. Goldstone, hoje agente de músicos, representa Emin Agalarov, estrela pop russa. Segundo explicou o próprio Goldstone (antes do conteúdo deste email ser público), foi Agalarov a pedir-lhe que marcasse um encontro entre o filho de Trump e a advogada russa Natalia Veselnitskaia.

“Ele [Agalarov] disse, ‘Sei que ela tem informações sobre contribuições de campanha ilegais feitas ao Comité Nacional Democrata’”, descreveu Goldstone ao Times, na segunda-feira. Explicando ter escrito um email a Trump Jr. para facilitar o encontro, Goldstone negou saber de qualquer envolvimento do Kremlin, insistindo que tal possibilidade nunca lhe ocorreu. “Nunca, nunca”, afirmou. Quando souberam do conteúdo do email, os jornalistas do Times voltaram a tentar contactar o agente, sem sucesso.

Agalarov é filho do empresário que trabalhou com Trump na organização do concurso Miss Mundo em Moscovo, em 2013. Aras Agalarov, magnata do imobiliário, é próximo do Presidente russo, Vladimir Putin.

Trump Jr. começou por dizer ao Times que Veselnitskaia queria falar sobre o recomeço do programa de adopção de crianças russas por famílias americanas (Putin pôs fim a esta prática em retaliação pela Lei Magnitski, que em 2012 aplicou sanções a dirigentes russos ligados à morte do advogado e activista Serguei Magnitski). Mas num comunicado de domingo já admitia que na reunião teriam sido discutidos vários temas, incluindo a existência de informações sobre Clinton, garantindo, apesar disso, que a advogada não ofereceu nada de útil. “Apenas declarações vagas, genéricas sobre o financiamento da campanha e como pessoas, incluindo russos, que viviam por todo o mundo, doavam quando não deveriam poder” fazê-lo, na descrição de Goldstone.

Veselnitskaia, casada com um responsável do Governo russo, defende causas consideradas relevantes para Moscovo. Entre os seus clientes contam-se vários empresários e personalidades próximos do Kremlin.

Para além do filho de Trump (que hoje está à frente dos negócios da família, a Trump Organization), na reunião de 9 de Junho de 2016, na Trump Tower de Nova Iorque, estiveram ainda Jared Kushner, genro do Presidente Trump e actualmente o seu principal conselheiro na Casa Branca, e Paul J. Manafort, que era então director de campanha (acabaria por ser demitido quando se soube que recebera milhões ao serviço do amtigo Presidente da Ucrânia, Viktor Ianukovich).

O encontro aconteceu pouco antes de Trump assegurar a nomeação republicana para se candidatar à presidência (20 de Junho) e uma semana antes das primeiras notícias sobre os ataques informáticos aos servidores do Partido Democrata.

Em Outubro, pouco antes das eleições presidenciais, o Departamento de Segurança Interna americano acusou o Governo russo de estar por trás do ataque que expôs centenas de emails que indicavam um favorecimento a Hillary Clinton em prejuízo do seu opositor nas eleições primárias dos democratas, Bernie Sanders. Mas só em Janeiro um relatório conjunto dos serviços secretos e de segurança concluía que Putin ordenara uma “campanha de influência” com o objectivo de descredibilizar a candidata democrata.

“Desenvolvimento sério”

Ainda na segunda-feira, Trump Jr. dizia-se disponível para responder ao Comité dos Serviços Secretos do Senado, um dos quatro painéis do Congresso a investigar a interferência russa nas eleições de Novembro do ano passado. Jared Kushner remete todos os pedidos de comentário do Times para um comunicado anterior, onde afirma ter divulgado “toda a informação de forma voluntária ao Governo federal”. Sobre a reunião de 9 de Junho, remete quaisquer questões para o filho de Trump. Manafort limita-se a não comentar.

Adam Schiff, o principal democrata no Comité dos Serviços Secretos da Câmara dos Representantes, disse à televisão MSNBC que as revelações do Times são “um desenvolvimento muito sério” que justifica “uma investigação rigorosa”. “Todas as pessoas que estiveram nessa reunião deviam ser ouvidas pelo nosso comité”.

Quando o conteúdo do email – e o pré-aviso de que na reunião se discutiriam informações “parte do esforço do Governo russo para ajudar” Trump – ainda não era conhecido, o filho do Presidente brincou com o facto de todas as campanhas quererem saber informações comprometedoras sobre os rivais. “Obviamente, sou a primeira pessoa numa campanha a ter tido uma reunião para ouvir informações sobre um oponente…”, escreveu no Twitter.

“Todos os alarmes”

O problema é que esta reunião em particular parece ter tido muito pouco de comum. “Numa campanha tradicional, a tentativa de oferecer informação comprometedora sobre um opositor por parte de um governo estrangeiro faria soar todos os alarmes”, defende Anthony Zurcher, o principal correspondente da BBC nos EUA. Habitualmente, continua, “o FBI teria sido notificado e os principais responsáveis da campanha ter-se-iam protegido de qualquer incriminação”.

Claro que “a equipa de Trump não era uma campanha convencional”, escreve Zurcher numa análise publicada no site da emissora britânica. “E cometeu sucessivos erros de principiante ou, de forma mais inquietante, assumiu riscos sem precedentes”.

Segundo a Casa Branca, Trump soube desta reunião no fim da sua viagem à Europa para a cimeira do G20 (alguns assessores souberam dias antes, quando Kushner decidiu rever a declaração oficial dos seus contactos externos para a incluir). O Presidente não escreveu nada no Twitter sobre o tema e, de acordo com uma pessoa próxima citado pelo Times, ficou frustrado pelas notícias – não por saber que o encontro de Junho aconteceu mas por se tratar de mais uma história sobre a Rússia.