Torne-se perito

Comité de Solidariedade da Palestina contra participação israelita no Festival de Almada

"Uma atitude de censura abriria uma imprevisível caixa de Pandora", argumenta o festival: "Que países seriam boicotáveis em seguida? Os Estados Unidos da América, por aplicarem a pena de morte? A China, por não ser uma democracia? A Hungria e a Polónia, por não acolherem refugiados?"

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Neverland, da Kamea Dance Company DR

O Comité de Solidariedade com a Palestina vai manifestar-se esta quarta-feira contra um espectáculo da companhia israelita Kamea Dance Company – que diz ser "instrumentalizada" pelo Estado de Israel para branquear a ocupação da Palestina – na 34.ª edição do Festival de Almada. Neverland, com coreografia de Tamir Ginz, apresenta-se esta quarta-feira, às 22h, no Palco Grande da Escola D. António da Costa.

A Companhia de Teatro de Almada não cancelou o espectáculo e defende que a eventual exclusão da Kamea Dance Company iria abrir uma "imprevisível caixa de Pandora", que poderia levar à proibição de participação de companhias de teatro de muitos outros países.

"Não dances com o apartheid israelita, cancela o espectáculo do Kamea Dance Company" foi o slogan escolhido pelo Comité de Solidariedade com a Palestina para esta acção de protesto, face à posição da Companhia de Teatro de Almada, que organiza o festival. Em curso desde 4 de Julho em 15 palcos de Almada e Lisboa, a 34.ª edição do festival termina no próximo dia 18.

Segundo Ziyaad Yousef, do Comité de Solidariedade com a Palestina, o protesto terá lugar a partir das 21h junto à Escola D. António da Costa. "Não é um protesto contra a presença da companhia israelita enquanto tal, mas por se tratar de uma companhia apoiada pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros de Israel, no âmbito de uma campanha de marketing – Brand Israel", disse à agência Lusa Ziyaad Yousef.

"Esta campanha de marketing tem por objectivo enviar embaixadores culturais à volta do mundo para branquear as políticas de ocupação e colonização do estado hebraico", acrescentou, defendendo que a Kamea Dance Company não deveria poder actuar no Festival de Almada.

O Comité de Solidariedade ainda apelou à Câmara Municipal de Almada, enquanto principal patrocinadora do festival, para que tomasse uma posição pública sobre a presença da Kamea Dance Company e pediu à Companhia de Teatro de Almada, que organiza o festival, para que o espectáculo fosse cancelado. Nenhuma das pretensões foi atendida.

Segundo fonte do Gabinete da Presidência da Câmara de Almada, a autarquia está "solidária com a luta do povo da Palestina e condena a construção de muros em Israel, mas não interfere na programação do festival de teatro".

Contactada pela agência Lusa, a Companhia de Teatro de Almada considera inapropriado boicotar um artista pela sua nacionalidade e defende que eventos como o Festival de Almada constituem "espaços de criação, fruição e pensamento".

Em nota de imprensa enviada à agência Lusa, a Companhia de Teatro de Almada refere ainda que "uma atitude de censura, num evento como o Festival de Almada, abriria uma imprevisível caixa de Pandora": "Que países seriam boicotáveis em seguida? Os Estados Unidos da América, por aplicarem a pena de morte? A China, por não ser uma democracia? A Hungria e a Polónia, por não acolherem refugiados?", questionam os responsáveis do Teatro de Almada.

"Eventos como o Festival de Almada – que se inscreve na tradição dos festivais de arte europeus nascidos nos pós Segunda Guerra Mundial ­não podem estar sujeitos à manipulação política", conclui o documento, que nada diz sobre os argumentos invocados pelo Comité de Solidariedade para a Palestina.     

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