Editorial

A queda de Mossul é irrelevante

É importante? É, para as populações e para o curto prazo da geoestratégia no Iraque. Muda alguma coisa? Não, não muda absolutamente nada.

Caiu Mosul, o último grande bastião do Daesh. É importante? É, para as populações e para o curto prazo da geoestratégia no Iraque. Muda alguma coisa? Não, não muda absolutamente nada.

O mundo árabe vai continuar a estar cheio de extremistas que proliferam graças à conivência das democracias desenvolvidas com os criminosos, à tolerância religiosa proporcionada pelos muçulmanos radicais, à economia da guerra que continua a precisar de mais conflitos para produzir mais armas e à absoluta incapacidade de fornecer condições de vida a quem por acaso nasceu numa região rica em petróleo mas pobre em humanidade.

Pouco importa que o Daesh tenha sido derrotado, tal como pouco importou que a Al-Qaeda tenha perdido relevância. Com este ou outro nome, com estes ou outros líderes, o extremismo islâmico vai marcar a nossa (in)segurança durante muitos anos mais. E a culpa é nossa. Estamos a entrar na terceira década do século XX e continuamos a fundar a nossa civilização no petróleo, quando todos sabemos as consequências disso para o ambiente e para a democracia a nível global – para avaliar as consequências da economia do petróleo será necessário ir para lá do aquecimento global, valorizando também todos as vidas destruídas graças aos conflitos originados no Médio Oriente nos últimos setenta e cinco anos.

Impedir o extremismo implica bloquear a principal nação que os apoia. Isso significa cortar os laços com a Arábia Saudita que, do Canadá à Austrália, tem merecido o apoio de muita “democracia exemplar”. Só que o dinheiro, e a gestão das reservas de petróleo, dão demasiado jeito. As atrocidades aplicadas pelo regime de Riade aos seus cidadãos são iguais às que o Daesh praticou nas cidades ocupadas, mas isso nunca impediu que os seus líderes tenham o tapete vermelho estendido nos palácios da democracia e que até nas Nações Unidas sejam vistos como uma voz recomendável. O custo por essa credibilidade tem sido pago bem caro: quase todos os atentados extremistas dos últimos vinte anos nas democracias ocidentais foram pagos pelos wahabitas que parasitam à volta do regime saudita e que dependem da economia do petróleo.

Os refugiados que nos batem à porta são consequência directa das nossas acções, porque os países ricos têm sido instrumentais na manutenção de estados falhados como a Síria, o Iraque ou a Líbia. E são as decisões tomadas sobre esses regimes que abrem caminho aos atentados terroristas, quer eles se expressem em Raqqa, em Mosul, em Nice ou em Manchester.