O humor em tempos de confusão

O encontro de Ricardo Neves-Neves com Karl Valentin parecia um casamento perfeito mas demorou a concretizar-se. Karl Valentin Kabarett, em estreia no Festival de Almada, parte em busca de um humor atravessado pela melancolia.

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ALíPIO PADILHA

Ricardo Neves-Neves está a atravessar uma fase confusa. Já antes o encenador (agora é dele que falamos, esqueçamos por hoje o dramaturgo Ricardo Neves-Neves) começara a sentir esta confusão a instalar-se, ao peneirar as palavras de Martin Crimp em Menos Emergências e de Edward Albee em Encontrar o Sol. A confusão tem uma única culpada: a interpretação dos textos. “Se por um lado devo ser livre de olhar para um texto e ver aquelas palavras – e só aquelas palavras –, por outro lado há um certo objectivo para o qual as palavras foram escritas pelo autor”, reflecte com o Ípsilon. E é por isso, por deixar a bailar na sua cabeça as muitas possibilidades que se levantam a partir desta dúvida, que Neves-Neves não tem tido sossego, saltitando de indecisão em hesitação.

Karl Valentin, nascido em 1882 e que, para ajudar à festa, escreveu a maior parte da sua obra durante um período especialmente “animado”, entre a I Guerra Mundial e a República de Weimar (que havia de cair em 1933 com a ascensão ao poder de Adolf Hitler), não facilita propriamente a vida a Neves-Neves. Não querendo manietar-se e entregar-se como refém das eventuais e presumíveis intenções do autor alemão, e sabendo muito bem que “fazer um espectáculo não é dar uma aula de História nem fazer uma biografia”, não consegue silenciar a voz de um Valentin que insiste em tentar dizer-lhe coisas.

“Como é que isto existe?”, pergunta-se Neves-Neves. Não basta munir-se de uma tradução para português de textos escritos originalmente em alemão. “Não é só traduzir para a língua, é também traduzir para uma realidade e fazer isso enquanto encenador português, num teatro português, com actores portugueses e para um público português.” Além disso, há que evitar eventuais armadilhas de um autor que escreveu em Munique e para a cidade em que vivia. Na verdade, apesar da combinação de teatro, cabaret, música e humor que parece feita à medida de Neves-Neves, a sua relação com Valentin não foi exactamente um amor à primeira leitura. “Li estes textos há alguns anos”, explica, “e fiquei sempre com alguma vontade de os fazer, ainda que de uma maneira incerta, porque não senti logo uma grande afinidade com o Karl Valentin. Parece-me difícil sentir uma grande afinidade por estes textos nas primeiras leituras.”

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Aquele que parecia um casamento perfeito em termos teóricos, revelar-se-ia então mais esquivo. Ricardo Neves-Neves fala de “quadros que não concluem, uma coisa muito directa, muito seca e um bocadinho árida”, para justificar uma resistência inicial, até ao momento em que naquela “sucessão de pensamentos filosóficos ou de falácias” começou a reconhecer as características da sua escrita, “os jogos de palavras, a utilização da semântica, a utilização das palavras pelo som e não tanto pelo significado”. “E foi aí que comecei a gostar muito de Karl Valentin”, confessa.

Só depois se decidiu a fazer uma selecção dos textos usados em Karl Valentin Kabarett, que se estreia a 10 de Julho na Escola D. António da Costa, no programa do Festival de Almada, seguindo depois para o Teatro da Trindade, onde estará em cena de 13 a 23, e para a Praça do Mar, em Quarteira, a 29. “Como nunca tenho certeza das coisas a 100%, a selecção teve que ver em primeiro lugar com a minha afinidade, mas fiz questão de dedicar a primeira semana de trabalho aos 60 ou 70 textos traduzidos, a lê-los e fazê-los em situação com os actores.”

Ver de outra maneira

Há muito que o humor por vezes desconcertante que Neves-Neves atira para o seu teatro lhe vem valendo um empurrão no sentido do teatro do absurdo. A sua visão do absurdo, acredita, pode ser resumida numa frase de Karl Valentin de uma das peças que acabou por não chegar à selecção final. Num momento em que uma personagem apresenta todo um raciocínio que à outra pouco sentido faz, a conclusão é simples: “Você vê o mundo de outra maneira." “Acho que o absurdo é isso”, sustenta Neves-Neves. “É ver o mundo de outra maneira, numa espécie de rua paralela. Quando falo disto penso sempre na Avenida da Liberdade e na Rua de São José – são duas maneiras de descermos do Marquês de Pombal até ao Rossio, mas são ruas e caminhos profundamente diferentes para atingir a mesma finalidade.”

Nestes textos de um humor peculiar de Karl Valentin tanto encontramos um casal desconfiado de uma oferta de bilhetes para o teatro e com dificuldade em lembrar-se do nome do filho – sempre lhe chamaram “miúdo” –, um pai que apresenta ao filho a factura detalhada relativa ao custo da existência deste em sua casa desde criança ou uma mulher que escreve uma carta “com a mão em lágrimas” ao seu amado com o único propósito de perceber por que razão este não lhe escreve também. Textos que são ensanduichados com canções que tratam assuntos tão aparentemente vitais quanto a felicidade de um cacto que está numa varanda e vê as pessoas a passarem lá em baixo ou o prazer de assistir à “pequena Lulu a dançar e ficar o dia inteiro a olhar para ela”.

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Surpreendendo-se quase com horror ao usar a palavra “autoconsciência”, Neves-Neves não retrocede e fala de Karl Valentin Kabarett como um espectáculo que, por entre o humor e a música, lida com “a autoconsciência do quanto ficamos felizes com coisas pequenas e como às vezes não estamos despertos para a grandiosidade que alguns homens conseguem atingir”. E falando nisso, é impossível não encontrar um encanto de uma grandiosidade falhada no “fracasso gigante” que foi a criação por Valentin de uma máquina que tocava 20 instrumentos em simultâneo. “Falhou nisto e depois viu o sucesso chegar com um monólogo, O Aquário, que dura dois minutos e meio”, observa o encenador. A obra de Karl Valentin, acredita, vive também muito de “personagens que defendem coisas passageiras mas com todo o coração”.

É talvez nessa felicidade nos pequenos nadas que Ricardo Neves-Neves encontra a sombra do “palhaço melancólico” de um Valentin que era considerado “o Charlie Chaplin de Munique”. “Há qualquer coisa de ingénuo nestas felicidades e as personagens parece-me que reagem entre si sempre com um certo receio, um certo medo, uma certa vergonha, como se houvesse um complexo de inferioridade entre elas.” Mais do que vestígios de guerra, da situação dos judeus, da violência, da ditadura ou da censura, é a melancolia que o encenador aqui descobre. De resto, algo que está sempre à espreita em cada um dos seus espectáculos.

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