Novas regras no ténis dão maior protagonismo aos treinadores

O desporto, criado no final do século XIX, quer deixar cair a norma que impede os técnicos de dar instruções aos seus atletas durante os encontros.

Andre Agassi, treinador de Novak Djokovic
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Andre Agassi, treinador de Novak Djokovic Reuters/ANDREW COULDRIDGE

O comentário televisivo da ex-número um mundial, Kim Clijsters, durante o terceiro encontro de Victoria Azarenka em Wimbledon, acusando a bielorrussa de estar a receber instruções do treinador, causou alguma discussão nos bastidores do torneio britânico. Mas o debate sobre o assunto há muito que começou, ao ponto de a regra, que proíbe os treinadores de darem instruções aos seus atletas durante os encontros, poder vir a ser alterada definitivamente. Para já, no próximo qualifying do Open dos EUA, os treinadores vão poder comunicar com os jogadores.

Esta regra é das mais distintivas do ténis, mas igualmente, das mais polémicas. A discussão resume-se a uma questão básica: é o ténis um desporto individual? Para os puristas, esta definição devia impedir que os treinadores intervenham, pois é suposto os tenistas decidirem sozinhos. E defendem que devia haver maior controlo por parte dos juízes-de-linha, colocados mais próximos das bancadas.

Por outro lado, não há outro desporto individual (por exemplo, atletismo, ciclismo ou golfe) em que os treinadores estejam proibidos de dar instruções durante a competição. E a preparação dos tenistas é, salvo raras excepções, feita em equipa, que pode incluir treinador, gestor de carreira, psicólogo, preparador físico, recuperador físico e até encordoador.

“Como jogador, nunca gostei da ideia; como treinador, sou mais receptivo a isso. Honestamente, se olharmos para todos os treinadores, podemos ver que já dão instruções, mesmo não sendo permitido”, afirmou Thomas Johansson, campeão do Open da Austrália de 2002 e agora treinador.

A WTA (gestora do circuito feminino) permite que os treinadores entrem no court para falarem com as suas jogadoras durante uma troca de campo e uma vez por set (ou quando a adversária recebe assistência médica), mas somente nos seus torneios regulares.

O Open dos EUA vai mais além: no qualifying do torneio do Grand Slam, que se realizará no final de Agosto, os treinadores vão poder falar com os seus atletas, mas só quando estes estiverem mais perto de si. Quando estiverem do lado contrário do court, podem usar sinais.

“Sabemos que os treinadores comunicam regularmente com os jogadores, por isso há hipocrisia da nossa parte ao impor essa regra. Ou aplicamo-la ou integramo-la no jogo e penso que isso irá trazer mais um factor de entusiasmo nos fãs”, defende Stacey Allaster, presidente-executiva da federação de ténis dos EUA (USTA) e introdutora do “on court coaching” quando chefiava o WTA Tour.

O qualifying norte-americano vai ainda adoptar medidas que visam tornar o jogo mais fluído, através da colocação de um relógio no court, que irá cronometrar os cinco minutos do período de aquecimento, os 20 segundos entre cada ponto e até o tempo que os jogadores demoram quando vão à casa-de-banho.

Já o circuito masculino vai aproveitar o novo Next Gen ATP Finals – um Masters para os melhores tenistas com menos de 22 anos, em Novembro – para permitir a comunicação entre treinadores e jogadores e a introdução do relógio no court, além de experimentar outras medidas que visam acelerar os encontros, como sets mais curtos (até quatro jogos, com tie-break a 3-3), ponto decisivo a 40-40 e a abolição do let no serviço.

Após o Middle Sunday, dia de descanso em Wimbledon, realiza-se nesta segunda-feira a Manic Monday, com a disputa dos 16 encontros dos oitavos-de-final masculinos e femininos.