Onde está a revolução dos Depeche Mode? No palco onde actuaram os Fleet Foxes e os Cage the Elephant

Último dia da 11ª edição do Nos Alive termina com concerto morno dos cabeças de cartaz, que perderam o lugar de protagonista para os concertos do segundo palco maior. Nesse quem fez a festa foram os Imagine Dragons.

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Os Depeche foram cabeças de cartaz no último dia de Nos Alive, num concerto que só aqueceu na parte final Tiago Petinga / Lusa
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Os Depeche foram cabeças de cartaz no último dia de Nos Alive, num concerto que só aqueceu na parte final. Tiago Petinga / Lusa
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Os Depeche foram cabeças de cartaz no último dia de Nos Alive, num concerto que só aqueceu na parte final Tiago Petinga / Lusa
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Os Imagine Dragons concentraram a atenção do público com hinos pop e mensagens de paz Tiago Petinga / Lusa
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Os Imagine Dragons concentraram a atenção do público com hinos pop e mensagens de paz Tiago Petinga / Lusa
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Coube aos Black Mamba abrir o palco principal no último dia de festival Tiago Petinga / Lusa
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Já o concerto dos Depeche Mode está a terminar e a frente do palco principal do Nos Alive transforma-se numa pista de dança de proporções épicas. São dezenas de milhares de pessoas que parecem estar a assistir ao concerto das suas vidas. A actuação já vai no final do encore, cerca de duas horas depois do início do concerto, e o público está com a energia de quem aguentava pelo menos mais uma hora. É Personal Jesus que tocam, um dos temas trunfo, entoado até ao limite pela plateia que reúne diferentes gerações de fãs da banda britânica que há quatro décadas começou a dar os primeiros passos.

Todo este quadro pode sugerir que este foi um concerto memorável. A verdade é que minutos antes o entusiasmo não estava no pico da descrição feita. Os Depeche Mode entregaram em Lisboa uma actuação competente, mas faltou ligação entre palco e plateia para que aquele patamar extra do inesquecível fosse atingido.

Com a responsabilidade de cumprir as expectativas delegadas a quem ocupa a posição de cabeça cartaz, no último dia da 11.ª edição do festival, conseguiram atingir os objectivos mínimos. Integrado na Global Spirit Tour, digressão de apresentação de Spirit, lançado este ano, este concerto não era só para cumprir calendário. O novo trabalho, que volta e meia arrisca numa mensagem mais política, já tinha provado que os Depeche Mode não vacilaram ao fim destes anos todos e não entraram no ritmo de lançamentos apenas para marcar passo. Os novos temas acabaram por ser, na realidade, os que melhor funcionaram a nível de execução, mas os mais antigos colherem a preferência do público. Contudo, ainda que fossem os britânicos os cabeças de cartaz, se a primeira noite foi dos The xx e a segunda dos Foo Fighters, esta foi ganha pelos Fleet Foxes e Cage the Elephant.

Ao final da tarde, enquanto os portugueses Black Mamba abriam o Palco Nos, Benjamim Booker estreava-se em Portugal no Palco Heineken. O norte-americano tem andado bem acompanhado na estrada por Jack White e Courtney Barnett, com quem fez uma digressão. A Algés trouxe o segundo álbum, Witness, acabado de sair. Conseguiu nesta primeira experiência despertar a curiosidade de alguns que se arrastaram para o segundo maior palco do festival intrigados com o rock carregado de influência blues que se ouvia daquele lado do recinto, ainda com muitas clareiras. Serviram como isco e para aquecer o público para o indie rock dos norte-americanos Spoon, já repetentes em solo nacional.

Ao mesmo tempo tocava Filipe Sambado no Coreto, por onde já tinha passado Duquesa e se preparava para actuar Filho da Mãe. Acima de tudo, este palco, mais recatado, é uma proposta alternativa para os que procuram um ambiente mais parecido com o de um concerto de menor escala. Por lá, eram muitos os que falavam outra língua que não o português. Será portanto uma boa forma de músicos e bandas da dimensão dos que lá tocaram, e que em Portugal já encontraram o seu espaço, darem-se a conhecer além fronteiras.

Durante a tarde, até ao início da noite, andar no recinto é tarefa fácil. A maior concentração de gente regista-se frente às bancas dos patrocinadores. Há que ter alguma predisposição para a gincana enquanto se contornam as filas que aí se fazem e alguma tolerância ao ambiente sonoro típico de uma pista de carrinhos de choque. Adquirida esta capacidade, as deslocações deixam de ser um problema. 

Imagine Dragons e os hinos para a paz

Pelo menos foi assim até os Imagine Dragons entrarem no Palco Nos. A partir daí o recinto foi ganhando mais gente. Foram os primeiros a conseguir captar a atenção de uma grande fatia do público do início ao fim. Na bagagem traziam o novo Evolve e mensagens de paz. “Vivemos num mundo dividido que nos separa por raças, orientação sexual e religião. Há terroristas que nos querem impedir de vir a festivais. Acreditam nisso? Nunca vão conseguir. Não deixem isso acontecer”. O público concordava e fazia-se ouvir. Dali saíram hinos pop como Radioactive, On top of the world ou Hear me, quase sempre entoados pelos fãs, que eram muitos. Entre os hits do colectivo de Las Vegas ouviu-se um esboço de Seven nation army, dos White Stripes, que automaticamente foi acompanhado por palmas. Como se precisassem de ajuda para conseguir ter o público do lado deles.

Os Imagine Dragons têm a lição bem estudada. Conseguem agarrar o público com a comunicação constante e com os hinos orelhudos que alternam entre a pop mais melosa e o rock com incursões pela electrónica. Ainda cedo, já aqueciam o público para o concerto que fecharia a noite daquele sector: “É uma honra partilhar o mesmo palco com uma das maiores bandas do mundo.” Os Depeche Mode. 

A sensibilidade dos Fleet Foxes depois de um hiato que lhes fez bem

Por essa altura já estavam os Fleet Foxes a preparar-se para entrar no Palco Heineken. No regresso da banda de Seattle ao Alive, apanhamos os norte-americanos num momento de viragem. Crack-Up, lançado em Junho, é o regresso aos lançamentos, após um hiato de seis anos. Sempre se caracterizaram pela capacidade de criar harmonias cativantes e ao mesmo tempo intrigantes. Fizeram isso com o álbum homónimo e com Helplessness Blues, bases para o revivalismo folk rock que se seguiu. A capacidade de plantarem uma semente na cabeça do ouvinte sempre foi uma das suas maiores armas. A música de Fleet Foxes entranha-se. Em Crack-Up a semente é na mesma depositada, mas aqui desponta de forma mais lenta. É um álbum que vai crescendo com cada nova audição. Tem mais camadas, mais maduro, até mais negro e de alguma forma cinemático. Vai ganhando espaço progressivamente até chegar a um ponto em que já não há retorno e se começa a tornar viciante.

É o resultado de seis anos de maturação, período em que Robin Pecknold, vocalista, guitarrista e compositor, pôs em pausa os Fleet Foxes para se aventurar em áreas como a carpintaria e para enveredar pelo ensino superior. É na sequência deste percurso que Crack-Up é composto. À imagem dos trabalhos de carpintaria que encetou, o álbum, nasce das suas próprias mãos, sem pressas e só quando tinha de ser. É este o Pet Sounds de Pecknold? Diz-nos que não, horas antes do concerto, embora perceba o alcance da pergunta, tendo em conta ser este o álbum mais pessoal da carreira do músico.

E é ao vivo que este trabalho ganha outra dimensão. Aos primeiros acordes, I am all that I need / Arroyo Seco / Thumbprint scar, que também abre o álbum, desarma qualquer alma menos preparada para o embate. É música que vai buscar coisas escondidas ao íntimo de cada um e as traz à tona. Quem lá estava fundiu-se com a banda, que foi desfilando novos temas como Cassius ou Third of May / Odaigahara e os esperados White winter hymnal e Helplessness blues, dos dois primeiros álbuns.

Não tiveram sorte os que queriam ver o concerto de Fleet Foxes e Depeche Mode, que entretanto, meia hora depois dos regressados folk-rockers iniciarem a actuação, já tocavam o primeiro tema no palco principal.

Going backwards, música de abertura, não esconde a face política do novo álbum, Spirit. Aponta o dedo ao retrocesso civilizacional que eventualmente se vive. Há nesta música algumas alfinetadas que remetem para o actual cenário político, onde é revelada a frustração pelo estado do mundo, com Trump e o "Brexit" à cabeça. A reacção é convocar a resistência. Fazem-no com Where's the revolution, outro tema do último álbum.

A máquina está engrenada. O vocalista, Dave Gahan, continua a tomar conta da actuação com constantes movimentações de palco. O público também lá estava em número e em heterogeneidade – uma das particularidades dos Depeche Mode é serem uma banda de grandes palcos, mas que consegue chegar a vários nichos de diferentes subgéneros musicais. Talvez tenha faltado alguma convicção para elevar o set a outro nível. De resto, além das canções referidas, o alinhamento só contou com mais uma música de Spirit, a balada Cover me. Das que melhor resultaram foram Stripped, Never let me down again, Enjoy the silence ou Home – com Martin L. Gore a assumir as vocalizações –, Walking in my shoes e, como não poderia deixar de ser, Personal Jesus.

O último dia foi do Palco Heineken

Àquela hora já não estava fácil de circular entre palcos. Os Cage de Elephant começam a tocar ainda com os Depeche Mode no palco grande. O palco Heineken, que no último dia garantiu os concertos com melhor resposta do público, tornou-se pequeno para a quantidade de fãs à espera de ver a banda que nos últimos anos desenvolveu uma relação especial com Portugal. Quando lá chegamos era quase impossível furar para chegar à entrada da tenda. Matthew Schultz, vocalista frenético dos Cage the Elephant, corre no palco de forma descoordenada entre uma ponta e a outra. Não pára um segundo enquanto o irmão Brad Shultz, na guitarra, vai atirando em catadupa as malhas, cujo rótulo que melhor as define é o garage rock. O público está na mesma frequência frenética e não pára um minuto ao som do colectivo de Kentucky.

É um caso de amor sério que se criou entre Cage de Elephant e Portugal, só não nos lembramos quem deu o primeiro passo, embora seja garantido que é recíproco. Desde que em 2014 passaram pela primeira vez em Paredes de Coura, estabeleceu-se esta relação de amor à primeira vista. Depois disso, voltaram lá passados dois anos, ao Porto, foram em 2016, onde tiveram de mudar-se de um Hard Club que esgotou em pouco tempo para o Coliseu, e este ano fazem juras de mudança definitiva para Portugal. Tocam de rajada Cigarette daydreams, Shake me down, Come a little closer e Teeth, com o público em delírio e a acompanhar as letras. Despedem-se garantindo que vão voltar. “É sempre especial quando cá vimos. Torna-se complicado irmos embora. Se calhar ainda nos mudamos para cá”, diz Matthew, antes de se lançar à plateia onde não cabia uma agulha.

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