António Costa de regresso. Palavra de ordem: coordenação

No Governo teme-se pela confiança, depois da tragédia e do assalto. Costa já voltou de férias. A dúvida que fica: que danos causou tudo isto ao executivo?

António Costa enfrenta o mais difícil momento do seu mandato
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António Costa enfrenta o mais difícil momento do seu mandato LUSA/MÁRIO CRUZ
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LUSA/ANTÓNIO COTRIM

De Palma de Maiorca para Portugal. As férias de António Costa terminam, o primeiro-ministro já voltou, e à espera tem um país e um Governo a mãos com o mais delicado e tumultuoso momento até agora. 

Não é uma hipérbole que o executivo está com os nervos em franja. E o caso, ou os casos, não é para menos. Primeiro foi a tragédia de Pedrógão Grande, nunca o país tinha vivido um incêndio tão dramático. Um inferno que chegou quando Portugal saía de uma conjuntura solar, cheia de boas notícias. Ninguém estava preparado. Depois acontece o assalto aos paióis de Tancos, caso que, ao contrário do que possa parecer, "é o caso politicamente mais difícil de gerir", assume um dos mais próximos de Costa. Em Tancos, não há condições naturais para contar parte da história.

São vozes de dentro do Governo que o admitem. Tancos é um bico-de-obra, mas foi Pedrógão Grande que parou o executivo. As duas semanas foram um corre-corre em São Bento, governantes que foram ao terreno várias vezes, informação que chegava de vários sítios. Perguntas e pedidos feitos pelo próprio Costa. Nunca o executivo se tinha deparado com nada parecido. Pelo meio, a confusão e a mudança de estratégia política não passaram despercebidas. Primeiro, seria criada uma comissão técnica independente, depois o próprio secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares, Pedro Nuno Santos, apressava-se em mostrar um executivo activo, garantindo que não iam esperar por aquelas conclusões para tirar consequências.

Em Pedrógão Grande, Costa foi imediatamente para o terreno. No outro, estava de férias em Palma de Maiorca. No seio do executivo, este retrato de um governante a banhos quando o país discute um roubo de material de guerra causa um ligeiro desconforto ou, pelo menos, a percepção de que pode prejudicar a imagem do primeiro-ministro. "É sempre uma decisão difícil", insiste o mesmo governante.

O executivo sabe que os problemas aconteceram em áreas sensíveis. E sabe, agora, que "tem de haver uma grande coordenação na resposta, que os portugueses estão mais exigentes". E desconfiados. O executivo quer agir, mas agir significa acima de tudo dar respostas técnicas o mais depressa possível, não significa remodelar a equipa.

O socialista João Galamba defende que nenhuma das situações decorreu de qualquer política do Governo, ainda que este tenha de estar preparado para responder. E lamenta que a direita tenha tentado aproveitar o momento para dizer que foram resultado opções orçamentais do executivo, com a tese de que recuperou rendimentos mas substraiu em sectores do Estado. E também lamenta a "demagogia" criada à volta das férias de Costa, considerando que o primeiro-ministro tem esse direito e que "de maneira nenhuma" o Governo ficou com a sua actuação diminuída.

Agora, no terreno novamente, Costa vai voltar a mostrar-se um político hábil e ágil? Ou a bonança acabou? O conselheiro de Estado, Marques Mendes, diz que já tinha avisado que Costa devia ter cuidado, que “andava a abusar da sorte”. Os azares chegaram e em força. O ex-líder do PSD não tem dúvidas de que estas semanas foram o momento realmente difícil do mandato de António Costa. “Não geriu bem, até o tenho elogiado muito. Foi uma certa surpresa a forma como geriu estas semanas. Não evidenciou a capacidade de enfrentar dificuldades que eu imagino que ele tenha”, diz.

Marques Mendes já tinha notado “falhas” na conduta do primeiro-ministro. “Falhas” é o nome escolhido para falar dos “recuos” de Costa nos casos polémicos que envolveram a Agência Europeia do Medicamento e nomeação do chefe das secretas. “António Costa anda completamente esgotado, física e mentalmente, o que leva a mais falhas. Mas o ponto político é este: porque é que anda esgotado? Porque está muito sozinho no Governo. Falta-lhe um número dois. Está de férias, não há um número dois, "sente-se o vazio”. E, avalia Marques Mendes, “falhou nestas duas semanas, em termos de liderança, de comando, de capacidade de intervenção”.

O impacto pode não ser medido em termos eleitorais, Marques Mendes não acredita que alguém vá mudar o seu sentido de voto por causa de Tancos, nem mesmo por causa do incêndio. Mas haverá algum impacto. “O país estava habituado a uma sucessão de grandes notícias, as expectativas estavam muito, muito altas. Não acho que António Costa ou o Governo vão entrar em quedas de popularidade, mas as pessoas passam a estar mais de pé atrás”, defende Marques Mendes, admitindo que Costa, se queria de alguma forma conquistar o eleitorado de centro-direita, ficou muito mais longe agora. Porque estes são eleitores particularmente atentos às questões da segurança. Mas falta muito tempo para eleições legislativas, a economia é o que mais conta nas urnas, e “a oposição não é vista como alternativa”.

"Objectiva ausência"

Oposição que não tem sido branda com Costa. Do lado dos centristas também chovem críticas: “A objectiva ausência do primeiro-ministro num duro momento de quebra de confiança dos portugueses na autoridade do Estado, em matéria de protecção civil e defesa, reforça e acentua essa crise de confiança, visto que, perante a descoordenação, as falhas e as suas consequências, o primeiro-ministro objectivamente não está”, diz Adolfo Mesquita Nunes. “Por outro lado, esta objectiva ausência contrasta com a imagem que o primeiro-ministro tem querido transmitir de si próprio ao longo da sua carreira política sobre a sua forma de actuar perante os desafios: ausência precisamente num dos momentos mais dramáticos no âmbito de segurança e defesa que o país viveu nos últimos anos. Se havia momento para revelar um sentido de autoridade, pragmatismo, liderança, era este”, remata o vice de Assunção Cristas, que esta semana pediu a demissão dos dois ministros: Administração Interna e Defesa.

O que não vai acontecer, respondeu Pedro Nuno Santos: “Quando há uma crise, a resposta (por falta de criatividade ou até por alguma preguiça intelectual e política) é a exigência de uma demissão. Como se a demissão resolvesse um problema!”. "Por encomenda, ele não faz", responde um governante e amigo de Costa. 

Por mais trágicos que sejam, o que estes dois episódios podem abrir é um novo ciclo. Uma década depois, a política deixa de estar marcada pelas questões económicas e passa a estar pelas relacionadas com os serviços públicos. É Pedro Adão e Silva quem o diz.

Sobre os problemas que Costa enfrenta, o sociólogo tem outra visão: a maior dificuldade que o socialista enfrentou foi conciliar as esquerdas, foi conseguir bons resultados económicos e no emprego, cumprindo as metas europeias. Foi conseguir o que muito poucos acreditaram ser possível, continua.

Por outras palavras: surgem agora desafios que são o “reflexo” dessa “crise de sucesso”, ilustra Pedro Adão e Silva. Se não tivesse acontecido o incêndio ou o assalto, o Governo e o país entrariam nesta fase mais tarde. Assim, a chegada foi acelerada e apanhou o executivo menos preparado.  Pedro Adão e Silva reconhece, no entanto, que os dois ministros sob pressão “não são políticos tradicionais” e que “se calhar” deviam ser “pessoas com mais autoridade política” nas suas pastas.

A palavra caberá agora a Costa. O líder que a equipa fez questão de dizer que esteve cá, mesmo não estando. Ou não tivesse Pedro Nuno Santos pedido, no fim de uma entrevista ao PÚBLICO e à Renascença, uma última palavra: "Nós temos, felizmente, a pessoa certa à frente do país."

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