Pode-se contar a China a partir de Bach

A contradição do indivíduo reflecte a contradição histórica e contém o indecifrável a que Madeleine Thien tenta chegar convocando a música, o silêncio, a matemática. Não Digam que Não Temos Nada chega ao século XX chinês através de uma criança que vive fora desse tempo e dessa geografia.

Madeleine Thien cresceu entre várias línguas: o hakka do pai, o cantonês da mãe, e o inglês que os dois lhe ensinaram para que se integrasse facilmente no Canadá, onde se refugiaram em ruptura com a Revolução Cultural
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Madeleine Thien cresceu entre várias línguas: o hakka do pai, o cantonês da mãe, e o inglês que os dois lhe ensinaram para que se integrasse facilmente no Canadá, onde se refugiaram em ruptura com a Revolução Cultural Babak Salari

Como se escreve sobre a China em inglês? Ou, dito de outro modo, como é que se fala de uma cultura – oriental – a outra cultura – ocidental? Sabendo que nesse processo se perdem coisas, mas se ganham outras. No caso, códigos que aspiram à universalidade e que tanto podem estar contidos na música como na matemática. “Independentemente de se ser da China ou do Canadá, há sentimentos difíceis de passar para a linguagem verbal. Como escritora, procuro as ferramentas para o fazer, e nisso sinto-me num permanente processo de tradução. De uma cultura para outra, de uma linguagem para outra. Ando atrás de códigos”, diz ao Ípsilon Madeleine Thien, 42 anos, natural de Vancouver, Canadá, filha de imigrantes chineses que saíram em ruptura com a Revolução Cultural. Em busca dos códigos que podem decifrar o medo ou a arte como fuga, Madeleine Thien escreveu um romance que evoca a história trágica do século XX na China. Chama-se Não Digam que Não Temos Nada e foi finalista da última edição do Man Booker Prize.

A voz de Madeleine Thien soa à de uma criança. Do outro lado do telefone, chega com inflexões, exprime surpresa, alegria, revela alguém que procura a precisão, não temendo mostrar hesitações até chegar à frase que acha certa: “Quis que neste livro fosse muito visível que tudo o que consideramos separado da arte não o está, de facto, e que a História importa.”

A frase do título está no primeiro verso da versão chinesa de A Internacional, e, com essa escolha, Thien quer mergulhar na História e no modo como ela vai sendo contada, as suas versões dependendo de quem a narra. Tem a ambivalência, a contradição, muito do jogo simbólico e poético sobre o qual este seu terceiro romance é construído. Arranca em Vancouver, em 1989, o ano dos protestos na Praça de Tiananmen, em Pequim, e o ano em que o pai de Li-ling, nome chinês de Marie, se suicida em Hong Kong. Li-ling tem dez anos, vive com a mãe, e as notícias chegam-lhe desconectadas, faltam-lhes muitos elementos. Em parte porque ela não domina a língua em que tudo se passa, em que a mãe comunica com os familiares à distância, e que é também a língua materna de Ai Ming, a jovem de 19 anos que chega de Pequim, obrigada a fugir das perseguições pós-Tiananmen, e que irá partilhar o quotidiano de Li-ling e da sua mãe. A criança, narradora do romance, teme-a. Ela representa o desconhecido e traz uma sabedoria que Li-Ling sabe não possuir, a da História e da língua em que se escreve o livro que o pai deixou: o Livro de Registos, narrativa colectiva paralela que traz uma nova perspectiva – para Li-ling e para a versão oficial chinesa – da China do século XX.

Este é o cenário de Não Digam que Não Temos Nada, o livro que nasceu da tal procura de códigos. “Eu andava muito envolvida com o livro anterior sobre o genocídio no Camboja, muito diferente deste. Nessa altura questionei-me muito sobre o modo como usamos a linguagem. Foi assim que o livro começou, comigo à procura de como falar de coisas para as quais parece não haver linguagem.”

Como dizer, por exemplo, do espanto de Li-ling ao perceber que a música era vista como uma ameaça pelo regime chinês, quando soube que o pai fora um compositor famoso impedido de exercer a sua arte? “O Ba abandonara a China em 1978 e estava proibido de regressar ao país. Mas a minha incompreensão ligava-se às coisas que via: aquelas imagens caóticas, assustadoras, de pessoas e tanques, e a minha mãe à frente do ecrã”, lê-se no início do romance, quando Tiananmen se revela também em toda a sua incompreensão. É aí que Li-ling entra na História da China, no momento em que Madeleine também entrou nela. Pelo fim, ou quase, porque o que se sente é que entramos a meio de um fluxo e somos transportados pela corrente de acontecimentos, sem fim nem princípio definidos. “Sim, não há início nem fim no Livro de Registos”, concorda Madeleine Thien. “É a parte histórica que recordo, que me lembro de ver na televisão; tem a ver com a minha memória pessoal e leva-me depois a toda a História. Foi chocante olhar aqueles acontecimentos quando tinha 14 ou 15 anos, mas fiquei consciente de que via apenas a superfície. Fazia sentido naquele momento particular, mas aquela manifestação tem ligações fortes com outros movimentos de massas na China e demonstrações prévias de desejo do que gostariam que a China fosse, do que gostariam que a China moderna fosse.”

A entrada na História faz-se em 1989, mas a data maior, e que vem nesse Livro de Registos, é 1966, a Revolução Cultural. “Quis olhar para esse período através de uma vida, porque tudo se passa no período de uma vida. Alguém que tivesse apanhado a conquista de Pequim pelos comunistas em 1949, e depois os anos de 1966 e 1989. Quando se olha para essa vida, o momento decisivo, o momento da verdade, tem o seu centro nos anos 60. Nos 27 anos em que Mao esteve no poder morreram 60 milhões de pessoas em consequência directa das suas políticas. São 60 milhões de pessoas por reconhecer, a sua falta persiste e faz parte do legado de Mao. É preciso permitir a quem sobreviveu fazer luto desse passado”, afirma.

A síntese impossível

Li-ling vai atrás disso como quem constrói uma identidade. E todas as ferramentas linguísticas, todos os códigos, lhe servem. A música que mal sabe ler e de que o pai era sábio, mas também a lógica da matemática que lhe é mais natural. Lê palavras, lê notas, decifra expressões, silêncios. Uma sonata de Bach, ou As Variações Goldberg, a que todo o livro parece ir buscar a estrutura. Conta Thien: “Estava a tentar perceber como a música opera no modo como usamos a linguagem.” E acrescenta: “Para mim a música sempre esteve ligada ao ballet, à dança, sempre foi uma manifestação corporal; é uma estrutura sempre a separar-se e a reconstruir-se. Quis jogar com essa estrutura das variações no romance. Começa com temas muito simples, como a chegada de uma estranha, e depois ganha corpo, como nas variações, e o tema simples começa a repetir-se como um padrão, ganhando uma complexidade que exige espaço e uma maneira diferente de escuta para que se consiga entrar.”

Entra-se na vida de Li-Ling, sabendo mais sobre a do pai, e, através das suas ligações, sabe-se da História da China, que Thien conheceu melhor ao longo da pesquisa para este romance. “Viajar pela China foi como viver muitos momentos da História ao mesmo tempo, e outras vidas. É um lugar tão complexo que qualquer síntese que se faça permite a síntese oposta. Há muita discussão sobre o que as pessoas pretendem que a China seja. Para mim é o lugar mais excitante e mais extraordinário, mas também o mais frustrante.” E o que há de mais frustrante? “A impunidade. Do governo ou do Estado. Das estruturas relacionadas com o dinheiro. Desse poder que controla a vida das pessoas nas grandes e nas pequenas coisas. Há uma grande margem de liberdade, mas há coisas completamente proibidas e entre elas a critica ao governo, ao poder, ao sistema. O poder pode fazer connosco o que quiser, como quiser, não há controlo sobre ele, embora haja uma Constituição que devia proteger as pessoas. Mas mesmo que se apele à Constituição se se for um advogado, esse simples apelo pode levar a que o Governo nos faça desaparecer. É um poder aterrador. O poder do Estado é devastador.”

Mudar de língua

A frustração sente-se no romance, como a mágoa, a zanga, e a linguagem política cruza-se com a da arte e também nisso se tenta encontrar um corpo. De texto ou de outra qualquer materialização que ajude a entender que qualquer coisa é feita de muitas camadas. Seja a História de um povo ou a história de uma pessoa, o que a liberta ou a constrange. Como o simples modo de comunicar, que Madeleine Thien resume com um exemplo pessoal onde pode estar o princípio do que a levou à escrita. “Os meus pais falam dialectos diferentes. O meu pai hakka, e a minha mãe cantonês, mas criaram-me em inglês porque queriam que me integrasse facilmente na sociedade canadiana. Significa que quando os meus pais falavam comigo comunicavam na sua segunda ou terceira línguas, e o que conseguiam expressar em inglês era muito limitado. Eles mudavam quando mudavam de língua: quando a minha mãe falava inglês era muito reservada e um pouco tímida, porque se envergonhava do erro. Mas quando falava cantonês era divertida, gregária, dizia piadas, mesmo a linguagem corporal era diferente.” Thien dá uma gargalhada. Confessa que pensar em tudo isso a libertou. “Quando comecei a escrever, o meu inglês também era muito reservado, controlado, como se tivesse herdado esse cuidado. Estou familiarizada com o modo chinês de ver o mundo e uma espécie de pensamento conceptual, mas não falo bem a língua, por isso tenho de recorrer ao inglês para expressar esse outro modo de pensar. Com este livro senti que alguma coisa se tornou muito livre. Permitiu que o meu inglês se tornasse mais elástico para conter outras formas de pensar, todo um outro mundo conceptual. Foi muito libertador”.

E continuamos no universo das contradições. Como se define Madeleine Thien? “Prefiro não me definir”, diz com outra gargalhada. Mas depois: “Sou uma escritora canadiana porque essa condição me permite maior liberdade. Mas há em mim muitas camadas.”