Kraftwerk
Foto
Kraftwerk

Expresso trans-electrónico

Os Kraftwerk são o grande nome do Neopop deste ano, que se realiza entre 3 e 5 de Agosto, em Viana do Castelo. Uma banda histórica que ainda tem muito mais do que nostalgia para nos dar

“Os Beatles da electrónica”. Era assim que Alan McGee, fundador da editora indie Creation, descrevia os Kraftwerk há uns anos, nas páginas do jornal The Guardian. A analogia é preguiçosa e não faz justiça nem ao quarteto de Liverpool nem aos filhos mais famosos de Düsseldorf, mas tem um mérito inegável: deixa bem clara a importância do grupo alemão e, nesse sentido, é um bom início de conversa (ou de texto). Deixa bem claro também porque é que vê-los no Neopop é tão especial.

Quando subirem ao palco, a 5 de Agosto, os Kraftwerk não vão ser a primeira banda, nem o primeiro nome histórico, a actuar no festival. Mas vão ser o maior nome que alguma vez por lá vai passar, e aquele que mais sentido faz neste contexto. Sem a sua influência fundadora, é difícil imaginar sequer que música estariam a fazer, a passar, a escutar, os artistas que vão estar em Viana do Castelo em Agosto; que estiveram lá em anos anteriores. Mais: sem a sua influência fundadora, é difícil conceber um festival como o Neopop.

A história dos Kraftwerk começa em 1970, com o disco homónimo de estreia, porém foi sobretudo a partir do quarto álbum, Autobahn (1974), que cimentaram o seu legado, casando com clareza e cautela a pop e as electrónicas. Lançaram as bases para o synthpop, o house, o techno, o trip-hop ou o electroclash. Deram pistas cruciais para o hip-hop e a pop digital contemporânea. Inspiraram lendas glam (a sua influência permeia Station To Station e os discos berlinenses de David Bowie) e bandas fulcrais do indie rock americano – os Big Black têm uma versão de Das Model/ The Model no seminal Songs About Fucking.

Johnny Marr, o guitarrista de The Smiths, disse um dia que a música dos Kraftwerk estava para a Alemanha como a dos Beach Boys estava para a Califórnia, no sentido em que era uma destilação perfeita de um lugar e de um tempo. Mas essa comparação, mais uma vez, não faz justiça ao corpo de trabalho dos alemães. A sua música é universal, e estava tão à frente do seu tempo que se mantém tão pertinente em 2017 como era em 1974, em 1981 (Computer World), em 1991 (The Mix), em 2003 (Tour de France Soundtracks).

A mais recente prova dessa longevidade é 3-D The Catalogue, documento definitivo da presente digressão com projecções em 3D. Editada em Maio, a caixa reúne oito discos gravados ao vivo que reproduzem, um por um, os sete álbuns de originais lançados entre 1974 e 2003 e ainda The Mix, de 1991. Há também uma edição em vinil com apenas dois álbuns em registo best of. Qualquer uma destas versões mostra como o grupo continua a injectar nova vida nas velhas canções.

É verdade que da formação original resta apenas Ralf Hütter e que não há música nova desde 2003, contudo isso não quer dizer que um concerto dos Kraftwerk, em 2017, se confunda com uma emissão de uma qualquer Rádio Nostalgia. A sua música vem do passado mas aponta para o futuro, existe para lá do tempo e do espaço. E por uma noite vamos poder ouvi-la em Viana do Castelo.