Luís Guerreiro, o "engenheiro das letras"

Quando se fala nas gentes e cultura algarvias é dele que todos se lembram. A sua biblioteca reúne para cima de 2000 livros, uma abrangente colecção de história local e regional cujo bichinho começou à lareia, a ouvir o pai.

O gosto pela História começou nas conversas à lareira, em Querença, no concelho de Loulé. No silêncio das noites de Inverno, Luís Guerreiro recorda agora as intermináveis estórias que ouvia do pai, Manuel Custódio Guerreiro, sobre um mundo que mais tarde também viria a ser o seu – a paixão pela história e a tradição oral. Este “engenheiro das letras” nascido em Querença é um dos bibliófilos mais respeitados, reunindo cerca de dois mil livros sobre o Algarve. “Uma referência na cultura”, diz o historiador José Carlos Vilhena Mesquita, professor da Universidade do Algarve, invocando as partilhas de informação sobre obras que, cada um a seu modo, vão procurando “escavar” no pó dos arquivos e nos armazéns dos alfarrabistas.

Quando se fala da história e das gentes do Algarve, em especial do concelho de Loulé, Luís Guerreiro é o nome que surge imediatamente. “Um estudioso, um homem de uma insaciável curiosidade”, diz Vilhena Mesquita, acrescentando que ele “desenvolve um trabalho de referência” na área da história.

Além da investigação que faz há dezenas de anos, é também um dinamizador e criador de eventos culturais como o Festival Literário Internacional de Querença (FLIQ), que iniciou há dois anos. Preside ainda à Fundação Manuel Viegas Guerreiro, que desenvolve a sua actividade no âmbito do Centro de Estudos Algarvios, em colaboração com a Universidade do Algarve (Ualg).

No Festival, que projecta a cultura para fora dos muros da academia e das bibliotecas, este ano a personalidade em palco foi Teresa Rita Lopes – uma autoridade a nível mundial na obra de Fernando Pessoa. Em 2016, foi distinguido Casimiro de Brito – escritor algarvio, com mais de 40 livros publicados, traduzidos em 30 línguas.

Luís Guerreiro acha que o epíteto  “engenheiro das letras” – uma frase cunhada pelo antigo reitor do liceu de Faro, Joaquim Magalhães – não faz bem o seu estilo. “Costumo dizer que sou um engenheiro não praticante”. Quando terminou a licenciatura, no Instituto Superior Técnico, foi trabalhar para a câmara de Loulé, na divisão de saneamento básico. Pouco depois trocava a inspecção às canalizações da cidade pelos corredores das bibliotecas e arquivos, descendo ao subterrâneo da cultura local.

“É daquelas pessoas a quem corre nas veias a paixão e a curiosidade do historiador e a capacidade de trabalho historiográfico, sem ter precisado de se sentar nas carteiras de Letras”, conta Luísa Martins, historiadora, doutorada em Estudos Africanos e Presença Portuguesa em África, que o apoiou e acompanhou na chefia da Divisão de Cultura do município louletano. “O sorriso e boa disposição”, recorda, foram sempre o cimento na relação do trabalho em grupo com todos os colaboradores. No executivo autárquico, o vereador João Martins diz que se trata de uma “enciclopédia viva, permanentemente aberta a quem se interessa pela história local e regional”.

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Igraja matriz de Querença, terra natal de Luís Guereiro e desde há dois anos palco de um Festival Literário que o próprio criou

Da aldeia para o mundo

Quando este “Guerreiro das Letras” nasceu, há 56 anos, o Algarve não contrastava com o resto do país – raros eram os que, nascidos numa aldeia, tinham oportunidade de chegar à universidade. O isolamento não era só uma condição da geografia, o ambiente político e social condicionava o futuro.

Na família deste investigador, Manuel Mendes foi o primeiro membro do agregado a alcançar formação superior – licenciatura em Medicina, e um currículo de intervenção política e social nas lutas académicas contra o regime. Mais tarde, seguiu-se-lhe João da Silva Miguel, magistrado, actual director do Centro de Estudos Judiciários (CEJ). Os dois primos de Luís Guerreiro, em contextos diferentes, marcaram o seu percurso. Do primeiro, refere, lembra-se das “estórias ligadas às lutas contra a PIDE”. O outro primo, diz, são os laços de afectividade a marcar a relação: “É como se fosse meu irmão”, lembrando “saborosas histórias” que ambos, em criança, ouviram contadas por Manuel Custódio Guerreiro. 

Na casa do agricultor da Várzea Redonda (Querença) não havia biblioteca e apenas a Bíblia estava ao alcance do olhar e da mão para ser lida na roda de vizinhos e familiares, ao serão, como se fosse um romance. Para imprimir um sentido novelista às parábolas, conta Luís Guerreiro, a história terminava em suspense: “Amanhã há mais”. Apagava-se o candeeiro a petróleo, ponto final na narrativa. As notícias que chegavam do país e do mundo entravam em casa pela telefonia a pilhas, e o jornal A Voz de Loulé contava o que se passava no concelho, de quinze em quinze dias.

A escola ficava a uns três quilómetros de distância, no planalto do barrocal, no sítio dos Corcitos. Pelo caminho, nem sempre o ribeiro que corre entre os montes do Pirinéu, permitia a passagem para a outra margem. Nos dias de chuva intensa, o agricultor fazia uma pausa nos trabalhos de amanho das terras, e o filho ficava a ouvir as suas estórias à lareira. O tio, evoca agora João Miguel, imprimia uma tal vivacidade à narrativa que punha adultos e criançada a beber as suas palavras e gestos. As peripécias relatadas nos contos tradicionais Arrasa montanhas ou Arranca pinheiros, exemplifica, ainda hoje são lembradas por este juiz conselheiro do Supremo Tribunal de Justiça como um tónico para a gargalhada. Aliás, quando João Miguel deixa a escola da aldeia e presta exame de admissão ao liceu de Faro, é com uma destas histórias ouvidas ao tio que compõe a sua redacção, a de Ali Babá e os 40 ladrões. Também Luís Guerreiro herdou do pai esse gosto pelos contos. Porém, no campo da investigação, sublinha José Carlos Vilhena Mesquita, “revela rigor e conhecimento profundo, nos temas que aborda, sem deixar de fazer um retrato psicológico dos protagonistas da História”.     

Escapadelas em Lisboa

A licenciatura em Engenharia surge por acaso. Entre os três cursos clássicos - Medicina, Engenharia e Direito - “calhou ir para Engenharia”, diz Luís Guerreiro. Jorge Renda, um colega de curso (1981/86), recorda o amigo nos tempos passados em Lisboa. “O que lhe dava gozo era falar de História, o betão armado não lhe dizia grande coisa”. Porém, destaca, tinha uma grande facilidade de aprendizagem, “bastava-lhe uma leitura, uma passagem pelos exercícios, para fazer a cadeira, chegando a tirar melhores notas do que eu”. Este engenheiro, professor na Universidade do Algarve, sublinha o que entende ser a sua principal qualidade: “liderava, com natural simpatia”. E recorda ainda como Luís, fiel às raízes serranas, guardava “no cacifo uma garrafinha de medronho, sempre disponível para os amigos”. Por estranho que possa parecer, nas horas de maior aperto dos estudos “tinha as suas escapadelas: visitas solitárias aos alfarrabistas – os livros antigos da história do Algarve sempre foram a sua paixão, e nós, naquela altura, não entendíamos o alcance do seu interesse”. 

Luísa Martins acha que o estudo da matemática o ajudou a resolver as equações da história. “Penso que soube tirar partido da aprendizagem e de um curso de rigor matemático e geométrico aplicando algumas regras metodológicas e de raciocínio ao estudo das fontes documentais. E isso deu-lhe vantagem e clarividência de raciocínio”. A escritora Lídia Jorge, que vive actualmente em Boliqueime e escreve, a pedido do P2, um texto evocativo da sua relação com Luís Guerreiro (ver nas páginas seguintes) diz: “Devo-lhe horas de incitação intelectual, de amizade, de exemplo pela causa da memória como fundamento da construção do futuro”.

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Devo-lhe horas de incitação intelectual, de amizade, de exemplo pela causa da memória como fundamento da construção do futuro” Lídia Jorge, escritora

Na última década, o trabalho deste investigador tem estado muito centrado na Fundação Manuel Viegas Guerreiro. Nesta instituição, sediada em Querença, encontra-se o projecto Romanceiro.pt, uma plataforma que integra o Arquivo do Romanceiro Português, com 3. 632 versões inéditas de romances publicados entre 1828 e 2011. As gravações, em 609 cassetes áudio depositadas na biblioteca da Fundação, representam 660 horas de gravação. Ainda neste campo, a coordenadora da Biblioteca da Universidade do Algarve, Salomé Horta, destaca a sua vasta área de conhecimento: “Surpreende-me sempre, pela quantidade de informação que reúne, em cada conversa. Não deve de haver outra pessoa que saiba tanto sobre o que foi editado e como encontrar aquilo que foi publicado sobre a região”. Por exemplo, à conta das suas pesquisas datou em 1833 o início da imprensa regional algarvia e quer cirar uma  hemeroteca em plataforma digital com tudo o que foi já publicado (o projecto foi seleccionado para ser incluído no Orçamento Participativo do Governo para este ano). 

Do conjunto das iniciativas da colaboração entre a Ualg e Fundação, a bibliotecária destaca as comemorações do centenário do etnógrafo e escritor Ataíde de Oliveira: “Foi impressionante a quantidade de estórias que contou, com uma tão grande paixão, que parecia até que ele tinha vivido naquela época” [1843-1915], recorda.O professor da Universidade de Coimbra, Romero de Magalhães, diz que se trata de “um engenheiro com uma apetência muito especial por tudo o que é história local, mesmo história do Algarve e da República”. Não se trata, sublinha, apenas de alguém que estuda e procura aprofundar conhecimentos: “Ele deve ter das melhores colecções sobre Loulé, o Algarve e a República”. Salomé Horta acrescenta: “A biblioteca da FMVG, embora esteja ao serviço do público é, no fundo, a sua biblioteca pessoal – mais de dois mil livros”. A instituição, que tem como patrono Manuel Viegas Guerreiro, segue os ensinamentos deste antropólogo, nascido em Querença: “A cultura é só uma, tudo o que aprendemos do nascer ao morrer, da nossa invenção ou alheia, sentados nos bancos da escola ou da vida”.

João Miguel recorda o tio Manuel Custódio sentado numa cadeira tradicional de palha de atabua como se fosse um actor em palco. O livro Carlos Magno e dos doze pares de França foi outro dos romances de cavalaria que passou às novas gerações. A universidade aberta da natureza conferiu a um agricultor, com a 4.ª classe, o dom de contar estórias da História.      

António Ventura é outro dos investigadores que se têm cruzado com este historiador amador. “Olhou sempre com especial interesse para a I República – época que também estudo – e, por isso tivemos diversos contactos mesmo antes das comemorações do centenário da proclamação da República”. Luís Guerreiro, prossegue, é um amador “no sentido etimológico da palavra”. Amador, explica, “é aquele que ama; e ele ama profundamente a sua região e tem manifestado esse amor por uma dedicação sem limites, pela recolha e inventariação de documentos e outras fontes em especial da época contemporânea”. Para o estudo da Maçonaria no Algarve, enfatiza, “forneceu-me informações preciosas tanto biográficas como iconográficas. Recordo a alegria e a surpresa que manifestou  ao ter encontrado e salvo um conjunto de documentos sobre o Partido Republicano Evolucionista em Loulé”.

Longe dos meios académicos, José Pontes, vendedor de materiais de construção, acha que o engenheiro Luís Guerreiro daria um bom arquitecto: “Fizemos juntos a 4.ª classe, e ele tinha muito jeito para o desenho”. Quando a professora nos mandava fazer uma casa, recorda, “quem me ajudava, e estava sempre disponível, era o Luís – um grande amigo”. Mais à frente, quando frequentou a escola secundária de Loulé, José Carlos Vilhena Mesquita, que foi seu professor de Filosofia em 1977/78, remata: “O rapaz mais popular da escola, e não jogava futebol”. Mais tarde reencontrou-o nos alfarrabistas. “Às vezes, ele procurava livros raros, que eu também queria, e nesse aspecto somos dois amigos bibliófilos”.

A série Historiadores Amadores, que se ecnontra publicada no P2, caderno de Domingo do PÚBLICO, prolongar-se-á até Agosto e vai dar a conhecer várias pessoas que, por todo o país, se empenharam em estudar a fundo um tema ou um lugar. Umas não têm formação académica na área, outras não chegaram a completar os estudos. Em comum têm um trabalho que vale a pena e uma espécie de devoção que a própria academia reconhece.