Editorial

O plano para Tancos

Depois do roubo de Tancos, não sai o ministro nem se demite o CEME. Eu percebo: é que eles tinham um plano. Pelos vistos, funcionou.

"Estes roubos podem acontecer em qualquer Exército, em qualquer país, desde que haja intenções, vontades e capacidades.". "Não me compete avaliar por que é que a videovigilância estava avariada há cerca de dois anos e não foi corrigida". "Tínhamos um plano elaborado, passava pelo melhoramento das vedações e pela implementação de um sistema de vigilância". "Estes paióis tinham material mais sensível. Foram escolhidos a dedo".

Ouvi isto tudo ontem, sábado à tarde, da boca do Chefe de Estado-Maior do Exército. Antes, já o ministro da Defesa tinha dito umas palavras sobre o roubo mais perigoso e atentatório da nossa soberania de que me lembro: “Há quebras e falhas de segurança muito superiores a esta"; “Por muito estranho que possa parecer o ministro da Defesa Nacional não sabe se há falta de vigilância em Tancos”; "Está prevista uma verba de 95 mil euros na Lei de Programação Militar (LPM), um plano que tem um sistema integrado de videovigilância do Exército, que vai estar concluído em 2018 e que visa reparar as deficiências que foram detectadas neste domínio”.

Nas declarações, talvez tenham reparado, há uma coisa que os dois dizem em comum: é que eles tinham um plano. Ora, ontem, ao fim do dia, o mesmo chefe de Estado Maior do Exército demitiu os cinco comandantes das unidades que dão forças à segurança dos paióis. Foram precisas mais de 48 horas para chegarmos às primeiras responsabilidades técnicas pelo inacreditável roubo de material de guerra - mais do que suficiente para espalhar o terror pelo país. Essa responsabilidade tardou e não chega. Porque competia aos cinco comandantes manter a vigilância do complexo militar, mas não lhes cabia a assinatura para reforçar a vedação que foi cortada. E porque não é deles o plano para repor a vigilância por vídeo, quebrada há dois anos. Mas o CEME sabia e o ministro sabia - senão não havia despacho para reforçar a rede na 6ª-feira. Senão não havia verbas na LPM para ligar as câmaras em 2018. Isso, leu bem, em 2018.

O que se passou em Tancos é, desculpem a franqueza, inexplicável. É um caso onde a responsabilidade do Estado é incontornável, onde a responsabilidade técnica é evidente e onde a responsabilidade política é inescapável.

Houve um ministro deste Governo que se demitiu por ofender um cronista deste jornal no Facebook. Houve um outro que se demitiu por ter inventado um curso. Outro que saiu por fazer um gesto feio na AR. Outro ainda por contar uma anedota de mau gosto. Aqui, onde é evidente o laxismo e a desresponsabilização, não sai o ministro nem se demite o CEME. Eu percebo: é que eles tinham um plano. Pelos vistos, funcionou.