Opinião

Kohl-Veil: a força dos símbolos

Helmut Kohl e Simone Veil foram dois grandes humanistas que inspiram e reforçam o sonho de uma Europa unida.

Cruzaram-se a caminho da eternidade, no rasto do sonho europeu que ambos encarnaram como exemplos singulares — e complementares. Ela morreu anteontem, aos 89 anos, ele morrera há duas semanas, aos 87, mas recebeu ontem a homenagem fúnebre no Parlamento Europeu do qual ela fora a primeira presidente eleita.

Ele era um alemão de origens rurais e maneiras toscas (logo por acaso o seu apelido era Couve, em tradução portuguesa), a quem ninguém predestinara o destino extraordinário de reunificador do seu país e construtor da reconciliação europeia, na senda da relação privilegiada com a França e da sua amizade com o Presidente Mitterrand. 

Ela, uma judia francesa sobrevivente de Auschwitz, onde parte da sua família fora dizimada, mulher cujo marido gostaria de vê-la em casa a cuidar dos filhos mas que não desistiu de uma carreira profissional e política autónoma e abraçou a causa da libertação das mulheres, ainda tão mal encarada pelo atávico machismo francês. E foi em 1975, ministra da Saúde de Giscard d’Estaing, que ousou um gesto que até então parecia revolucionário: a despenalização do aborto. Ela era uma mulher de um Governo de direita, embora com vocação reformista, e a sua família política — como se viu ainda no recente período eleitoral francês — estava maioritariamente refém de uma herança moral e cultural retrógrada. Daí também a força do seu exemplo e a marca que deixou no tempo, inspirados pela ousadia desse gesto.

Quando hoje se comemoram os 150 anos do fim da pena de morte em Portugal — outra ousadia de que nos podemos orgulhar de ser pioneiros na Europa, justificando a saudação de um Victor Hugo —, talvez seja oportuno recordar que só em 1981, seis anos depois da despenalização do aborto, a França adoptou a abolição da pena capital no início da presidência de Mitterrand, por iniciativa do então ministro da Justiça Robert Badinter (uma personalidade que poderíamos considerar gémea da ministra da Saúde de Giscard). Ora, será também justo lembrar que ainda nessa altura a maioria dos franceses era favorável à pena de morte.

Helmut Kohl e Simone Veil foram dois grandes humanistas e dois grandes europeus que inspiram e reforçam o sonho de uma Europa unida, aberta, tolerante e solidária, cada vez mais necessária nestes tempos erráticos em que vivemos. E o facto de Kohl e Veil serem oriundos de partidos de direita, embora de uma direita moderada e com sensibilidade social, reforça a transversalidade necessária entre as forças de progresso face às derivas populistas, soberanistas e extremistas (sejam elas de direita ou de esquerda, cada vez mais simétricas, aliás). Daí a esperança, apesar de todas as reservas políticas e disfuncionalidades democráticas (como a elevadíssima taxa de abstenção nas legislativas francesas), suscitada pela eleição de Emmanuel Macron, o herdeiro mais reconhecível da força dos símbolos que foram Helmut Kohl e Simone Veil.

Transportado pelo espírito do tempo, a proximidade de eleições e a vontade largamente maioritária da população do país, o Parlamento alemão acaba de aprovar — apesar do voto contrário e táctico de Merkel — o casamento homossexual com direito de adopção (enquanto a França, onde esse casamento está legalizado desde 2013, prepara a procriação assistida para casais do mesmo sexo). São outros sinais de abertura numa Europa longamente paralisada pela hipocrisia moral e a intolerância dos costumes.

P.S.: Uma catástrofe dita natural (mas potenciada por factores nada naturais) acabou por provocar uma catástrofe política com efeitos calamitosos dentro de várias estruturas e instituições públicas em Portugal, enquanto vão tardando as respostas para o que ainda se apresenta como inexplicável. Voltarei ao tema.