007, agente ao serviço de fanfarra romena

Houve o delírio habitual da Fanfare Ciocarlia e as liberdades crescentes de Mayra Andrade na última noite do Festival Med em Loulé.

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Entre muitas outras coisas, o palco pode ser um lugar de partilha e de procura. Uma partilha particular quando a música se adapta e é pensada e executada para encontrar um público; uma procura quando o lugar de um músico no mundo é transposto para aquele pequeno espaço, numa demanda pessoal e artística. Estes dois modos de encarar o palco puderam testemunhar-se na perfeição na noite derradeira do Festival Med, em Loulé. Naquelas que terão sido as duas mais inspiradas actuações de sábado, Mayra Andrade e Fanfare Ciocarlia assumiram estes papéis. Enquanto a fanfarra romena revelada ao mundo no turbilhão de entusiasmo pela música balcânica (desencadeado pelo cinema de Emir Kusturica) tem vindo a afastar-se um pouco do reportório tradicional para integrar a universalidade popular de Born to be wild ou do tema de James Bond, Mayra Andrade começou a sua carreira a filiar-se numa tradição cabo-verdiana de que se tem libertado à medida que vem palmilhando um caminho só seu.

Autoproclamada “a banda de metais mais rápida do mundo”, a Fanfare Ciocarlia não deixa a sua fama passar vergonhas e arranca logo em acelerada correria rumo a algum lugar que parece nunca chegar. A multidão de Loulé não oferece qualquer resistência – seria impossível diante de uma tão fulgurante e contagiante demonstração técnica. Sobretudo quando alguns dos temas que aqui ouvimos foram levados por Goran Bregovic para a banda sonora de Underground, filme de Emir Kusturica, cravando estas melodias num arquivo popular de acesso instantâneo. Se o andamento frenético dos romenos não dá descanso e sacode os corpos em delírio do público, a sábia inserção de Summertime, Born to be wild ou a música de 007 encurta distâncias e faz com que a pequena aldeia de Zece Prejani pareça ficar ao virar da esquina, subitamente vizinha do sempre lotado restaurante O Pescador.

Trepando pelas melodias

Mayra Andrade anda por estes dias a preparar a entrada em estúdio para gravar o sucessor de Lovely Difficult. E aquilo que fica muito claro no seu concerto do Festival Med é que a cantora cabo-verdiana já não está no mesmo lugar de há quatro anos. Lovely Difficult embrulhava numa película pop uma personalidade musical que, depois de espetar uma bandeira em Cabo Verde, afirmando-se uma cantora daquelas ilhas, foi em busca de outros mundos, numa espécie de extensão da história de vida nómada da sua infância e da sua adolescência. Não dá para disfarçar: assim que começa com A-mi n kre-u txeu e Ilha de Santiago é já evidente que a leveza solar do último álbum deu lugar a uma elegância que abocanha soul e jazz, colhendo o suficiente de liberdade e de envolvimento, mas sem lhe ficar limitada.

Essa marca soul surge graças ao óptimo e equilibrado contrapeso melódico que a teclista Sophie Fustec empresta a temas como Les mots d’amour ou Tunuka, enquanto as liberdades interpretativas de Mayra a fazem agora sair dos refrães e seguir trepando pelas melodias. Com esta banda e este reportório – e um refrão de Lua em que o canto chega com uma cadência de rap –, percebe-se que a cantora sabe ter Cabo Verde tão inscrito na sua voz que não precisa de o reforçar com a instrumentação.

Logo depois de Mayra Andrade, subiria ao palco Pascal Danae, músico de Guadalupe que compôs dois temas para Lovely Difficult, mas que em Loulé se apresentou com o seu trio Delgres, baptizado em honra de Louis Delgrès, líder crioulo que deu a sua vida a lutar contra o regresso da escravatura e a reocupação napoleónica do território caribenho. A música de Danae (nascido em Paris, filho de emigrantes de Guadalupe) é feita de um ponto de equilíbrio curioso entre os originais blues electrificados de Chicago, o sopro maliano de Ali Farka Touré e uma ginga própria do Caribe.

A sempre difícil circulação até ao Palco Matriz, local de maior aglomeração de público mas que se faz por ruas estreitas em que é obrigatório serpentear entre a multidão, as bancas de artesanato e as vendas de comida e bebida, não levou no sábado a grandes recompensas. Claro que houve o punk-ska de festa rija dos Che Sudaka, filhos ilegítimos de Manu Chao nascidos nas ruas de Barcelona, com canções de punho erguido contra a produtora de transgénicos Monsanto e “as multinacionais que nos querem envenenar” e todo um programa de celebração tão cativante quanto esquecível; e é indesmentível que tudo é bem feito na música dos iranianos Niyaz, em que ao tradicional radif se acrescentam elementos rock e electrónicos, mas em que os temas se avolumam em algo demasiado inconsequente, alimento só para encher o estômago e enganar a fome.

Bem melhor seria o início de noite com Medeiros / Lucas – no mesmo Palco Castelo por onde passou uma Fábia Rebordão ainda à procura do tom justo para o seu fado, a resvalar demasiado para a canção ligeira –, música intrigante e sedutora em doses iguais, em que o aventureirismo criativo de Pedro Lucas se junta à voz grave (tanto na tonalidade quanto na postura) de Carlos Medeiros. Há algo de uma beleza agreste nestas canções, que lembram os momentos mais ousados do francês Alain Bashung.

Neste domingo, o Festival Med despede-se com um dia de portas abertas.