Mais de 13 milhões de euros para ajudar as vítimas de Pedrógão Grande

Como vão ser aplicados os mais de 13 milhões de euros reunidos para ajudar as vítimas dos incêndios? Depende: o Governo criou um “fundo de solidariedade”, que congregará vários dos donativos, mas a União das Misericórdias Portuguesas e a Cáritas de Coimbra avançam sozinhas na aplicação do dinheiro.

Só no concerto solidário “Juntos por Todos” foram angariados mais de um milhão de euros
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Só no concerto solidário “Juntos por Todos” foram angariados mais de um milhão de euros Nuno Ferreira Santos

A onda de solidariedade que se formou para ajudar as vítimas dos incêndios que começaram em Pedrógão Grande, e que provocaram 64 mortos, já reuniu para cima de 13 milhões de euros, dos quais quase cinco milhões são provenientes da banca. Angariados os donativos, através de contas e linhas solidárias mas também de concertos e de doações directas, o problema que se coloca é conseguir operacionalizar a ajuda sem atropelos no terreno. É que instituições como a União das Misericórdias Portuguesas e a Cáritas de Coimbra, por exemplo, já se puseram de fora do “fundo de solidariedade” criado pelo Governo para congregar os apoios disponíveis e canalizar a ajuda. O BPI, por seu turno, vai doar o dinheiro directamente à autarquia de Pedrógão Grande e a RTP à Santa Casa da Misericórdia local.

Do lado do Governo, foi anunciada a criação de um “fundo solidário” que deverá congregar muitos destes apoios, e cuja gestão, liderada pelo Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social (MTSSS), será repartida com as autarquias e instituições particulares de solidariedade social locais. Para “começar a operacionalizar este fundo”, cujo valor final ainda não está apurado até porque “há contas solidárias que ainda estão abertas e empresas que se dispuseram a ajudar mas que ainda não quantificaram o valor”, o Governo vai reunir na próxima semana com todas as empresas e entidades, numa tentativa de “congregar esforços para que o dinheiro seja canalizado de forma eficiente, rápida e transparente”, como adiantou ao PÚBLICO fonte do gabinete de imprensa do ministro Vieira da Silva. Mas, como explicou a mesma fonte, tratando-se de donativos privados “ninguém pode ser obrigado a pôr o dinheiro nesse fundo”, sendo que o ideal seria “que houvesse o menor número possível de fundos para que não haja duplicação” de respostas.

Quem gere o quê

A União das Misericórdias Portuguesas (UMP) decidiu avançar à margem do Governo e criou, com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian, da Fundação Montepio e da Sonae Sierra, um “grupo de trabalho de emergência” que “já está a fazer o levantamento das necessidades mais prementes da população, em “estreita articulação com os serviços da Segurança Social, Autoridade Nacional de Protecção Civil e câmaras de Pedrógão Grande, Castanheira de Pera, Figueiró dos Vinhos, Pampilhosa da Serra, Sertã e Penela”, lê-se num comunicado da instituição.

Caberá à UMP definir onde serão aplicados os 1,153 milhões de euros angariados no âmbito do concerto solidário “Juntos por Todos”, bem como os 436 mil euros que, até ao final da manhã de ontem, tinham sido angariados pela conta solidária do grupo Montepio. A Fundação Calouste Gulbenkian, que constituiu um fundo com 500 mil euros, entretanto reforçados com mais 500 mil resultantes de dois donativos de grupos económicos, fará directamente a gestão do dinheiro com base no levantamento das necessidades feito pela UMP, devendo o mesmo ser aplicado na reabilitação e reconstrução daquilo que foi destruído pelas chamas. Fonte da fundação apontou como exemplo o que foi feito em 2010 na Madeira, onde, na sequência das cheias que provocaram 43 mortos e 1200 desalojados, o trabalho da Calouste Gulbenkian passou pela reconstrução de um lar de idosos.

Noutra frente, a Cáritas de Coimbra, que a meio da semana anunciou ter reunido 900 mil euros em numerário para apoio às vítimas (verba que inclui os 160 mil euros angariados pela conta solidária do Novo Banco), explicou ao PÚBLICO que tratará de decidir no terreno onde e como serão aplicadas estas verbas. “Já estamos, através das paróquias e dos padres, que são quem melhor conhece estas pessoas, a fazer um levantamento das necessidades”, adiantou Ana Margarida Carvalho, desta instituição. Questionada sobre o risco de duplicação de respostas, a responsável adiantou que todo o trabalho será feito “em articulação com as outras entidades no terreno, nomeadamente juntas de freguesia e câmaras municipais”.

Dúvidas na banca

Do lado da banca, subsistem algumas dúvidas. No Santander Totta, cuja conta solidária ultrapassou os 573 mil euros, o director de comunicação, João Paulo Velez, disse estarem “à espera de saber como as coisas se vão processar”. “Aguardamos que as autoridades façam o levantamento das necessidades. Se estas verbas vão integrar o fundo de apoio do Governo não sabemos ainda.” Já o Millenium BCP adianta que, “em princípio”, vai integrar o fundo criado pelo Governo. “A ideia é ajudar quem precisa e esse é um dos caminhos possíveis”, adiantou Eric Burns, daquela instituição, cuja conta, que permanece aberta até este sábado à meia-noite, chegou aos 350 mil euros.  

O BPI, que juntamente com a fundação CaixaBank doou um milhão às vítimas, a que se somam os 141 mil euros depositados na respectiva conta solidária, adiantou ao PÚBLICO que, antes mesmo de o Governo ter anunciado a criação do fundo, tinha assumido com o presidente da Câmara de Pedrógão Grande o compromisso de que esse dinheiro lhe seria entregue para os programas de recuperação que vierem a ser definidos. “Iremos agora estabelecer um protocolo com a autarquia e o dinheiro será essencialmente destinado à construção e reconstrução de casas”, adiantou fonte da instituição.

A Caixa Geral de Depósitos, por seu turno, tinha anteontem à tarde somado 2195 milhões, numa conta que se mantém aberta até à meia-noite deste sábado. Em declarações à RTP, o presidente da instituição, Paulo Macedo, disse que fará questão de ver “como é que esse dinheiro vai chegar às pessoas, de uma forma que possa ser controlada”. Ao PÚBLICO, fonte da instituição precisou que a CGD quererá integrar o grupo de trabalho que monitorizará a aplicação do dinheiro.

Entre os apoios já anunciados, somam-se ainda os 50 mil euros da Caixa de Crédito Agrícola e os 200 mil euros da Cáritas Portuguesa. A Fundação Aga Khan, da Rede Aga Khan para o Desenvolvimento, uma das maiores agências privadas de desenvolvimento, também doou 500 mil euros. O governo de Timor-Leste prometeu fazer chegar a Portugal dois milhões de euros, o treinador português André Villas-Boas vai doar 100 mil euros às famílias e a Associação Portuguesa de Seguros criou um fundo especial de 2,5 milhões para apoiar familiares das pessoas mortas, sendo que os termos e critérios de atribuição serão definidos por uma equipa liderada pelo catedrático Pedro Romano Martinez.

Acrescem a estas verbas os montantes angariados pelas linhas solidárias lançadas pelas televisões. No caso da RTP, o valor total angariado foi de 134.283 euros, os quais vão reverter para a Santa Casa da Misericórdia de Pedrógão Grande.

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