Xi diz que é “inadmissível” questionar soberania chinesa sobre Hong Kong

Vários líderes da oposição foram detidos após confrontos com apoiantes do regime chinês.

Polícia detém um activista da oposição, pouco antes do discurso de Xi Jinping
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Polícia detém um activista da oposição, pouco antes do discurso de Xi Jinping Reuters/TYRONE SIU
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Xi Jinping discursa à frente das bandeiras da China e de Hong Kong EPA/JEROME FAVRE

Pôr em causa a “soberania chinesa” sobre Hong Kong será visto como “absolutamente inadmissível”, afirmou o Presidente chinês, Xi Jinping, num discurso realizado neste sábado durante a sua primeira visita à antiga colónia britânica. À margem da cerimónia, activistas da oposição envolveram-se em confrontos com participantes numa marcha pró-Pequim.

Numa altura em que Hong Kong atravessa uma das fases politicamente mais sensíveis das últimas duas décadas, as palavras de Xi não podiam ser mais directas. “Qualquer tentativa de pôr em risco a soberania ou a segurança da China, desafiar o poder do Governo central e a Lei Básica de Hong Kong, ou usar Hong Kong para levar a cabo actividades de sabotagem e infiltração contra o continente, são actos que ultrapassam uma linha vermelha. É algo absolutamente inadmissível”, afirmou o líder chinês.

O momento também não poderia ser mais simbólico. Xi Jinping falava durante a cerimónia de tomada de posse da nova chefe-executiva do território, Carrie Lam, no dia em que se assinala também o 20.º aniversário da transferência da soberania britânica sobre Hong Kong para a China.

Nos últimos anos, a divisão política que tomou conta de Hong Kong tornou-se num dos principais desafios à liderança chinesa. Um sector considerável da sociedade, especialmente entre as gerações mais novas, tem questionado a soberania chinesa sobre a antiga colónia britânica. No centro dos protestos está a convicção de que Pequim tem apertado o cerco a Hong Kong, reduzindo a autonomia garantida pela fórmula “um país, dois sistemas” – que garante um desenvolvimento político e económico distinto da China continental.

A data foi aproveitada pelos grupos da oposição a Pequim para se fazerem ouvir. Cerca de uma hora antes do discurso de Xi, um grupo de manifestantes que se concentrava junto de uma praça onde estava a ser hasteada uma bandeira chinesa envolveu-se em confrontos com a polícia e com apoiantes do regime chinês. Vários líderes de organizações pró-democráticas foram detidos, incluindo Joshua Wong, um dos rostos da chamada “revolução dos guarda-chuvas”, que paralisou o centro da metrópole em 2014.

Nos últimos dias, as autoridades locais mobilizaram um dos maiores contingentes de segurança da sua história para assegurar que nada corre mal durante a primeira visita de Xi desde que subiu ao poder. O presidente da Liga dos Social-Democratas, da oposição, Avery Ng, criticou um ambiente de “intimidação e violência directa” sobre os activistas.

Durante o discurso, Xi mencionou a necessidade de o novo executivo de Hong Kong “melhorar os seus sistemas que garantam a soberania nacional e os interesses de segurança e desenvolvimento”. A alusão à segurança foi interpretada como uma tentativa de influenciar a aplicação de uma controversa lei contra actos de traição e de secessão, prevista por um artigo da Lei Básica. Uma tentativa de aprovar este diploma, em 2003, suscitou um dos maiores protestos populares nas ruas de Hong Kong e acabou por ser abandonada.

O debate sobre a lei de segurança nacional regressa numa altura em que crescem os apelos a favor da independência de Hong Kong. Um inquérito recente mostra que 40% dos jovens entre os 15 e os 24 anos defende a independência de Hong Kong a partir de 2047. Nas últimas eleições para o Conselho Legislativo, no ano passado, seis candidatos designados como “localistas” conseguiram lugares.

Nos últimos dias, Pequim e Londres também tiveram um desentendimento por causa de Hong Kong. No estatuto de antiga potência colonial e co-signatária do documento que regulou a transferência da soberania, o Reino Unido lembrou o seu “compromisso” com o desenvolvimento democrático de Hong Kong.

Em resposta, o ministério dos Negócios Estrangeiros chinês afirmou que Londres “não tem soberania, nem poder governamental, nem poder de supervisão” sobre a antiga colónia.