Centenas de autarcas comprometem-se a participar no referendo catalão

Dirigentes da Catalunha dão mais passos no processo que querem ver culminar na consulta sobre a independência a 1 de Outubro.

Bandeiras independentistas num protesto contra Madrid em Barcelona
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Bandeiras independentistas num protesto contra Madrid em Barcelona Albert Gea/Reuters

Novo desafio ao Governo de Mariano Rajoy, mais um passo para garantir as condições à realização de uma consulta sobre o futuro político da Catalunha a 1 de Outubro e ainda a encenação de unidade entre partidos e políticos independentistas ou defensores do direito dos catalães a decidir. O acto que este sábado reuniu mais de 500 autarcas catalães, governo e deputados na Universidade de Barcelona foi tudo isto.

“Têm medo do que poderemos dizer e decidir”, afirmou o presidente da Generalitat (governo autonómico), Carles Puigdemont. “Mais medo lhes daremos.” Para Puigdemont, os inquéritos que a Guarda Civil realizou nos últimos dias a funcionários e empresas que participaram em eventos ligados ao pretendido referendo são “a demonstração mais clara do estado de medo de quem acreditava ter tudo controlado”.

O Estado central, admitiu Puigdemont, tem muito poder: “Juízes e fiscais, procuradores, diplomatas, muitos lóbis económicos e grupos de comunicação”. Pouco importa, assegura, já que “não tem o mais importante, que são as pessoas”.

O que o líder catalão sabe é que pode contar com 80% dos municípios da região (787 de 948), o que na verdade representa só 43% da população (escapa-lhes uma parte importante da área metropolitana de Barcelona, onde o Partido Socialista ainda conserva muitos eleitores).

São estas cidades e localidades que pertencem à Associação de Municípios pela Independência (AMI) e se comprometem agora a apoiar “a convocatória, organização, celebração e aplicação do referendo”, pondo para isso à disposição “os locais habituais” para o voto. É isso que se lê no manifesto que os autarcas assinarão nos próximos dias, lido na Universidade de Barcelona num acto convocado pela AMI e pela Associação Catalã de Municípios – o seu presidente, Miquel Buch, defendeu que a consulta “está autorizada pelas eleições de 27 de Setembro” (de onde saiu de novo um parlamento onde a maioria defende o referendo).

Antecipando-se ao que estava programado para Barcelona, o primeiro-ministro, Mariano Rajoy, avisara na sexta-feira que “toda a gente está obrigada a cumprir a lei: os municípios, os funcionários e os dirigentes políticos”.

Maioria secessionista no parlamento catalão e associações defensoras de um referendo sobre a independência ou da própria secessão, todos iniciaram há alguns meses um processo que visa tornar inevitável a votação dos catalães – e desta vez, ao contrário do que aconteceu a 9 de Novembro de 2014, com resultados vinculativos, ainda que a Constituição espanhola não o permita.

Para isso foi negociada em segredo a chamada “lei da ruptura”, uma espécie de “roteiro para a soberania” que a coligação Juntos pelo Sim (Esquerda Republicana da Catalunha mais Partido Democrata Europeu Catalão – PDeCAT) e a CUP (Candidatura de Unidade Popular) vão apresentar aos restantes grupos parlamentares na terça-feira. Horas depois, no Teatro Nacional da Catalunha, será o presidente catalão a participar com o seu governo numa cerimónia aberta ao público para explicar as “garantias” do referendo.

No acto da Universidade de Barcelona, foi Miquel Buch a arrancar aplausos e gritos de “Votaremos” quando pediu aos membros do governo e do parlamento para se levantarem e se virarem para trás. “Estaremos atrás de vocês”, disse-lhes, sobre os autarcas presentes na sala, grupo onde se inclui. Este movimento, defendeu ainda Puigdemont, é diferente da Transição que há 40 anos permitiu o regresso de Espanha à democracia: “Não é um movimento de cima para baixo, este é um movimento de baixo para cima”.