Os dois comandantes de Pedrógão entraram este ano na Protecção Civil

Houve uma "desgraduação" na estrutura de comando no incêndio de Pedrógão Grande. Os dois primeiros comandantes responsáveis entraram na Protecção Civil já este ano.

Daniel Rocha
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Daniel Rocha

Ainda há muitas perguntas sobre o que aconteceu naquelas horas na zona de Pedrógão Grande para as quais não há respostas. Uma delas é sobre a fita do tempo dos responsáveis no teatro de operações. Ao que o PÚBLICO apurou, o primeiro responsável pela operação foi o 2.º CODIS (Comandante Operacional Distrital) de Leiria, Mário Cerol, que passou depois o comando para o 2º CONAC (Comandante Nacional), Albino Tavares. Para render o 2º CONAC, foram para Pedrógão mais dois comandantes distritais, descendo na hierarquia, o que entre a Protecção Civil se chama de “desgraduar”. O comandante nacional, Rui Esteves, esteve na sede da ANPC em Carnaxide. 

De acordo com informações recolhidas pelo PÚBLICO em conversas com operacionais do terreno e com responsáveis na Autoridade Nacional de Protecção Civil (ANPC), o primeiro homem a assumir o controlo das operações em Pedrógão Grande foi Mário Cerol, uma vez que o CODIS de Leiria, Sérgio Gomes, se encontrava com problemas de saúde. Cerol, advogado, comandante dos bombeiros de Alcobaça, é um homem novo na estrutura da ANPC nomeado este ano para o cargo, mas como comandante dos bombeiros tem vasta experiência em combate a incêndios.

Cerol foi nomeado em Fevereiro deste ano para substituir Luís Lopes, afastado pelo CONAC, Rui Esteves, e por isso a nomeação destes 2ºCODIS não foi isenta de críticas. Acresce ainda que este advogado tem ligações ao PS, tendo sido mandatário da candidatura autárquica do partido em 2009.

Mário Cerol fez assim os primeiros pedidos de meios para atacar o incêndio - o primeiro despacho de meios é até considerado “musculado” por quem esteve no terreno.

Mais tarde - as fontes contactadas pelo PÚBLICO dão nota que terá sido pelas 22 horas, mas não foi possível confirmar a hora exacta -, as operações passaram para as mãos do 2.º CONAC, Albino Tavares, militar da GNR, que só desde Janeiro faz parte da estrutura da ANPC. Albino Tavares tem vários cursos em segurança, mas no currículo que consta na sua nomeação apenas é descrito um “Curso de Primeira Intervenção em Incêndios Florestais” e “vários cursos do Mecanismo Comunitário de Protecção Civil”. Entrou na ANPC com a reformulação feita pelo presidente Joaquim Leitão e como militar da GNR tem como um dos seus papéis facilitar a ligação a esta entidade.

Os comandantes dos bombeiros da zona queixam-se que não conheciam o homem no comando das operações e que este não conhecia a zona, além de que em situações complexas em anos anteriores chegou a ser o comandante nacional a assumir o comando, o que desta vez não aconteceu. O CONAC, Rui Esteves, seguiu para a sede da ANPC, em Carnaxide, nesse dia, só voltando dias depois ao teatro de operações.

No domingo, para render o 2º CONAC, é Elísio Oliveira, CODIS de Setúbal, a assumir o comando. Quando isto acontece, há uma “desgraduação” no comando. Ou seja, quem fica a tomar conta da operação é uma comandante, mas abaixo na hierarquia. O mesmo com Vaz Pinto, CODIS de Faro, que também assegurou o comando operacional naqueles dias

Elísio Oliveira e Vaz Pinto são, aliás, dos comandantes ainda em actividade que são mais experientes. O CODIS de Setúbal foi comandante distrital de Lisboa até 2013, ano em que foi nomeado para comandante de Agrupamento do Sul (CADIS) e o CODIS de Faro está no cargo desde 2012, tendo acumulado funções desde 2013 como CADIS do Algarve.

Este cargo, o de CADIS, é na prática uma linha intermédia na estrutura da ANPC que fazia a ligação entre o comando nacional e os 18 comandos distritais. Em 2013 foram nomeados cinco CADIS, que correspondiam a alguns dos comandantes distritais com mais conhecimento no terreno como Elísio Oliveira, Vaz Pinto, António Ribeiro ou Joaquim Chambel.

Quatro destes operacionais cessaram estas funções também em Abril, sendo que Elísio Oliveira, António Ribeiro e Vaz Pinto acabariam por ser despromovidos a CODIS.

De acordo com o despacho de cessação de funções, esta decisão é tomada “designadamente” por causa das “alterações estratégicas, organizacionais bem como e a nova dinâmica que a ANPC pretende implementar na sua estrutura operacional”. Em causa está o facto de o novo CONAC querer acabar com esta estrutura intermédia, nomeando em seu lugar seis adjuntos. Contudo, como ainda não foi mudada a Lei de Bases da Protecção Civil, foram nomeados três CADIS, mas que se encontram a fazer trabalho de adjuntos na ANPC.

O PÚBLICO questionou o Ministério da Administração Interna sobre quem esteve à frente do comando de operações a cada hora e o percurso de cada comandante nacional e distrital durante este incêndio, mas até à hora de edição desta notícia não obteve resposta.

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