Opinião

Os incêndios do interior e o interior dos incêndios

Os incêndios desta dimensão têm o grave incómodo de trazer à tona da água os “vivos-mortos” do interior esquecido.

Os “territórios que ardem não existem”, ou melhor, “só existem por que ardem”. A invisibilidade dos territórios do interior permite quase tudo, mesmo o abandono quase total como agora se comprova. “Como não existem” não há sobre eles qualquer exercício de inteligibilidade territorial que aumente a sua consistência interna; chega-se lá quase sempre em estado de emergência e à beira do abismo como agora aconteceu.

Por outro lado, perante o grande espetáculo das televisões, a visibilidade da tragédia só tem paralelo com a invisibilidade do abandono. A intrusão é de tal ordem que ficamos com a sensação de que o incêndio deflagrou várias vezes.

O que é certo é que num país em que quase tudo depende do Estado central ou do Estado local “há muita coisa que tem de permanecer na invisibilidade” porque simplesmente não há recursos para tudo. E os que permanecem na invisibilidade são aqueles que não perturbam a pacatez do sistema clientelar e corporativo já estabelecido. O interior do país não faz parte desse sistema clientelar ou faz parte apenas marginalmente para “calar” algum barão local com a voz mais grossa e, portanto, também, com mais acesso e visibilidade política.

Os incêndios desta dimensão têm o grave incómodo de trazer à tona da água os “vivos-mortos” do interior esquecido. A sua longa invisibilidade, que só os incêndios perturbam, oculta uma morte há muito anunciada. É um silêncio cínico e cobarde por parte do poder central que, desta forma, espera poder “gerir com mais racionalidade” os seus recursos escassos; segundo a sua lógica, sem visibilidade é mais fácil gerir recursos escassos e repartir, de seguida, esses recursos com quem tem maior visibilidade.

Os territórios também se abatem, porque estes territórios foram “silenciosamente mas meticulosamente desterritorializados”. É um país bipolar de longa data, são as falhas e ausências do Estado-administração, é um país sem coluna vertebral, são capitais de distrito completamente vergadas ao centralismo de Lisboa. Hoje, a convergência das alterações climáticas, das alterações demográficas e das monoculturas agroindustriais preparam “o caminho do abandono” para que estes territórios sejam capturados sem que para tal seja necessário “privatizá-los”.

E, no entanto. Num país tão pequeno, onde todos os territórios, mesmo os mais remotos, têm sinais distintivos e recursos expectantes, é um crime de lesa-pátria não fazer um exercício de inteligibilidade sobre esses sinais e recursos, trazendo-os para a luz do dia, lançando-os no espaço público regional e nacional, conferindo-lhes a visibilidade que é necessária e tudo isto em “clima de perfeita normalidade”. Infelizmente, o universo liliputiano dos nossos pequenos municípios do interior é um terreno difícil para a formação de comunidades de auto-governo mais fortes e musculadas. Neste contexto, a criação das “comunidades intermunicipais”, colocadas entre os níveis local e regional, é um excelente pretexto para reconsiderar toda a política territorial de valorização do interior.

O autor escreve segundo as normas do novo Acordo Ortográfico