Entrevista

“Passos Coelho ganhará a Rui Rio ou a Nuno Morais Sarmento”

Pedro Santana Lopes, 61 anos feitos hoje, é provedor da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa e comentador político. Está longe de ser o enfant térrible do PSD, mas continua a pensar no partido e a interessar-se pelo que se passa no seu interior.

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Pedro Santana Lopes em entrevista ao PÚBLICO e à RR Daniel Rocha
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Chegada do ex-líder do PSD Daniel Rocha
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Entrada no estúdio Daniel Rocha
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Entrevista durou meia hora Daniel Rocha
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Santana falou de incêndios, do PSD, do Montepio e da EDP Daniel Rocha

Há doze anos, Pedro Santana Lopes era líder do PSD. E primeiro-ministro. Hoje, reconhece o seu partido "passou por um ano e tal muito difícil" e ainda está a "acordar de um sonho mau". Apesar de ter ganho as eleições, o PSD "viu nascer em Portugal uma solução que não considerava possível" e "demorou a adaptar-se". Talvez por isso, Passos ainda seja mais primeiro-ministro do que líder da oposição.

No capítulo eleições autárquicas, Santana fala sobre a candidata do PSD a Lisboa (câmara que liderou) e diz que não conhece as suas ideias para a cidade. Além disso, reconhece, "em circunstâncias normais não é compreensível" ainda não haver um programa. "Ainda para mais quando a mim me foi dito que se eu tivesse sido candidato a Lisboa teria que deixar a Misericórdia até Fevereiro, Março, comigo há sempre estas urgências todas. Estamos quase em Julho. E o que é que lhes aconteceu? Estão em Marte? Estão em Júpiter?"

Há um mês, escreveu que em Lisboa, Porto, Sintra e Coimbra se vai jogar em boa medida a leitura política da noite das autárquicas. Se o PSD perder estas quatro câmaras, isso é suficiente para abrir uma crise no partido? Torna impossível uma vitória nas legislativas?
Depende também da dimensão dos resultados em cada uma das autarquias, se foi por pouco... Mas, por princípio, a liderança deve continuar. Autárquicas não devem ter influência em questões nacionais e, portanto, Passos Coelho deve disputar as próximas legislativas. Mas temos congresso para o ano e, portanto, não sei. Pelo que vou lendo, não sei se alguém se quererá abalançar a disputar a liderança independentemente de os resultados serem melhores ou piores.

Porque há muita gente que já dá como certas as derrotas em Lisboa e Porto...
Mas Lisboa e Porto, Lisboa já foi perdida há anos e Porto já não era do PSD.

Sintra e Coimbra também não. Por essa ordem de razões...
Por isso é que falar em derrotas... temos de pensar também no que seria uma derrota do PS nas autárquicas. Se não as ganhar, em vez de ser um dia mau para o PSD, pode ser um dia mais complicado para a liderança do PS. Portanto, temos de pensar que está tudo em aberto. Pelo que conheço, em Coimbra está tudo em aberto, em Sintra também. Em Lisboa e Porto, as sondagens apontam para confirmação dos actuais presidentes. E acho que sim, que são as câmaras com maior impacto na leitura que se fará. E depois há o conjunto.

O que eu queria era saber a sua expectativa. Já o li dizendo que o PSD pode ter melhor resultado do que se pensa. E que não, que com o défice a diminuir e a economia a crescer, as autárquicas serão difíceis. Qual é a sua expectativa.
Eu disse as duas coisas, mas não contraditoriamente. No primeiro caso falava de Lisboa. Dizia-se, corria, que a líder do CDS ficaria provavelmente à frente do PSD. Achei sempre muito pouco possível e hoje não ouço a mesma conversa. Estou convencido de que apesar da ausência de campanha generalizada, que é um fenómeno muito interessante, a expectativa não será essa. Depois, para o Governo, acho que é assim: tem havido um clima de esperança, de confiança. Agora, na última semana o clima mudou, esse factor esperança atenuou. Porque isto em política é como na vida, as coisas podem mudar de repente.

Acha que foi por isso que Morais Sarmento surgiu como candidato numa secção de Lisboa apresentando-se como um "grito de urgência"?
Uma lista de delegados, não é? Acho que quando não há oportunidade de se fazer estas coisas a nível nacional, brinca-se um bocadinho a nível local - andam em movimentações. É interessante, são um conjunto de pessoas que já devem ter saudades dessas coisas, que têm andado afastadas...

Conhece muito bem Rui Rio e Morais Sarmento. Ambos estiveram consigo, na direcção do PSD e no Governo. Vê que algum deles consiga ganhar a liderança a Passos Coelho?
Não acredito. Porque Passos Coelho tem o apoio da grande maioria dos militantes. E os líderes do PSD são eleitos em directas, ainda, não sei quanto tempo durará esse método de eleição, mas é assim. E se for, Passos Coelho ganhará.

Gostava que mudasse esse método de eleição?
Fui um grande responsável pela sua introdução e hoje não faço um balanço positivo. Porque algum aparelhismo e alguma mobilização de hordas de votantes que não são sequer militantes, com moradas de conveniência em muitos casos...

O aparelho perverteu as regras?
Sim. O método é puro, mas acho que foi muito pervertido. Talvez seja aconselhável voltar àquela mediação da eleição em congresso.

Primárias ainda menos?
É outra coisa. Se fossemos para primárias, eu tenho simpatia por isso. Se fosse possível — mas já ouvi várias vozes a torcerem-se, por não quererem imitar o PS, não sei quais as razões...

Viu o que aconteceu em França?
Vi, vi. Ganharam os que não foram a primárias — é muito interessante. Mas eu gosto. Os partidos precisam de uma renovação profunda. Os partidos maiores estão dominados por lógicas aparelhísticas. É muito interessante que os candidatos a presidentes de junta, antes, eram os homens e senhoras respeitadas nas terras, agora são os jovens dos aparelhos que se candidatam. Os partidos precisam de uma renovação de equipas, actualização ideológica. E num plano quase de urgência.

Morais Sarmento disse que o PSD está "apático". Também acha isso?
O PSD passou por um ano e tal muito difícil. Ganhou as eleições e, de repente, viu nascer em Portugal uma solução que não considerava possível. Demorou a adaptar-se. Não vou dizer apático, mas que ainda está a acordar de um sonho mau, é manifesto.

E o líder? Já acordou?
O líder esforça-se. Julgo que é manifesto que o dr. Passos Coelho é mais primeiro-ministro do que líder da oposição. Cada um tem o seu perfil.

O resultado do esforço é mau.
Às vezes é melhor, outras é menos bom. Ele próprio reconhecerá que, pronto, não tem corrido bem. Os líderes da oposição normalmente têm sondagens muito más. Mas vou dizer-lhe assim: enquanto o dr. Passos Coelho for líder, salvo alguma circunstância excepcional, eu estarei ao seu lado, porque acho que ele merece que o partido lhe dê esse crédito, dadas as provas que deu enquanto primeiro-ministro e os serviços que prestou ao país.

Passos escolheu pessoalmente a candidata a Lisboa. Faz sentido que neste momento Teresa Leal Coelho não tenha sequer apresentado um programa para a capital?
Em circunstâncias normais não é compreensível, tem de haver uma razão que eu desconheço. Ainda para mais quando a mim me foi dito que se eu tivesse sido candidato a Lisboa teria que deixar a Misericórdia até Fevereiro, Março, comigo há sempre estas urgências todas. Estamos quase em Julho. E o que é que lhes aconteceu? Estão em Marte? Estão em Júpiter? Nunca mais disseram nada, nunca mais estão no terreno.

Já conhece as ideias de Teresa Leal Coelho?
Não.

E leu a entrevista que ela deu ao Expresso?
Quando?

Há três semanas. Deu uma agora à TSF.
Tenho ideia que sim, mas não retive. Em termos de opções para a cidade, não conheço, com franqueza.