Diletante: “É isso que sinto que é o meu trabalho”

Sobretudo não lhe chamem cineasta punk... é o que ele pede. Mas então o que é um “cripto-budista-ateu”, como se define? Talvez a serenidade de Paterson ajude a responder. É um filme sobre as “pequenas coisas”. Conversa com Jim Jarmusch, livro de poemas de Apollinaire nas mãos.

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Cresceu na cidade industrial de Akron (Ohio), no Midwest, leu Rimbaud e Baudelaire na adolescência, apaixonou-se pelo cinema — nos anos que passou em Paris enquanto estudante de intercâmbio universitário devorou, na Cinemateca Francesa, os filmes da Nouvelle Vague Sara Driver

Numa época de euforia com as séries de televisão e em que os filmes de acção dominam o entretenimento no grande ecrã, Jim Jarmusch acaba de realizar o seu filme mais sereno. Paterson é definitivamente de uma calma zen, tal como Adam Driver, que representa a personagem com o mesmo nome. Não deixa de ser surpreendente, após a nervosa aparição do actor na série Girls, e o seu mais sombrio papel em Guerra das Estrelas: O Despertar da Força. Mas, tal como Tom Hiddleston antes dele em Só os Amantes Sobrevivem, Driver estava disposto a fazer o que fosse necessário para entrar no universo de Jarmusch, onde o argumentista e realizador claramente evita qualquer das regras que dominam Hollywood. “Nunca li o livro das regras de Hollywood; se alguma vez conseguir pôr as minhas mãos em cima dele, queimo-o”, diz de forma irónica Jarmusch, 63 anos, com a sua característica voz profunda.

“Quando fizemos Para além do Paraíso (1985), Homem Morto (1995) e todos esses outros filmes, fizemos uma escolha consciente de que iríamos fazer filmes que gostaríamos de ver e que o resto das pessoas nunca o iriam ver, de forma alguma. Se tentássemos fazê-lo para agradar ao resto das pessoas, então, bem podíamos tentar ir para Hollywood e arranjar um emprego no marketing e nos estudos de mercado. Também existe lugar para esses filmes, não estou a dizer que os odeio, simplesmente não é o que faço. Não consigo fazer isso. O meu trabalho é fazer filmes que eu gostaria de ver e que as pessoas que colaboram comigo gostariam de ver.”    

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Adam Driver estava disposto a fazer o que fosse necessário para entrar no universo de Jarmusch Mary Cybulski

Paterson regressa e tem ligações aos dois títulos que menciona, aquele que em 1984 o atirou para a ribalta, o minimalismo a preto e branco de Para além do Paraíso, e Homem Morto, de 1995, em que Johnny Depp interpreta contabilista do Ohio chamado William Blake.

Acerca de pequenas coisas

Paterson, motorista de autocarro que vive em Paterson, estado de New Jersey, é o tipo de poeta da classe operária que Jarmusch admira. Tendo crescido na cidade industrial de Akron (Ohio), no Midwest, e tendo lido a poesia de Rimbaud e Baudelaire na adolescência, apaixonou-se pelo cinema novo. Nos anos que passou em Paris enquanto estudante de intercâmbio universitário devorou, na Cinemateca Francesa, os filmes da Nouvelle Vague – o seu filme de 1999, Ghost Dog: O Método do Samurai, é uma homenagem a O Ofício de Matar, filme de 1967 de Jean-Pierre Melville – e dos mestres japoneses Ozu e Mizoguchi.

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“Gosto de filmes que às vezes são calmos e acerca de pequenas coisas”, admite. Hoje traz consigo um livro de poemas de Guillaume Apollinaire traduzidos para inglês por Ron Padgett. “Ron pertence a uma escola de poetas de Nova Iorque que celebram os pequenos pormenores. Ele escreveu os poemas para o nosso filme e estava a trabalhar nestas traduções há uns 50 anos. Sei ler em francês, mas estes ficaram tão belos.”  
Jarmusch diz que Paterson apresenta uma estrutura poética de que nos apercebemos à medida que observamos a rotina diária do motorista de autocarro de New Jersey e a sua bem mais dinâmica mulher e dona de casa Laura (interpretada pela iraniana Golshifteh Farahani). A personagem é uma homenagem à longa relação de Jarmusch com Sara Driver, que surge creditada como consultora de argumento e montagem.
“Os sete dias [em que decorre o filme] são quase como que estrofes de um poema e dentro delas existem repetições de coisas que podemos quase considerar como rimas internas ou pequenos detalhes: o relógio de pulso dele, os locais onde ele vai, a caixa do correio, beber uma cerveja. E tenho que dizer que só estou a notar estas coisas após ter terminado o filme.”

Reconhece que a sua grande força reside na intuição. “Se analisar as coisas perco a minha força.”

Apenas vê uma vez os seus filmes e detém a propriedade de todos os negativos, à excepção do documentário sobre Neil Young, Year of the Horse. Contribuiu, com a sua banda Squrl, para a banda sonora dos seus últimos dois filmes, e muitas vezes – mas não em Paterson  – convida os amigos músicos para aparecerem como actores. O falecido Joe Strummer [The Clash] surgiu em O Comboio Mistério, John Lurie [The Lounge Lizards] entrou em dois filmes, Tom Waits participou em três. “Tenho um novo papel para o Tom, mas ainda não falei com ele sobre isso.” Mais recentemente, Iggy Pop, que apareceu em Cafés e Cigarros e Homem Morto, transformou-se no principal tema do filme de Jarmusch sobre os Stooges, Gimme Danger, e o cantor desvairado até consegue ser mencionado em Paterson.

“Normalmente escrevo com determinados actores em mente, mas não escrevi especificamente para o Adam ou a Golshifteh. Escrevi especificamente pensando no Masatoshi Nagase, porque gosto imenso dele e não trabalhava com ele há muito tempo”, diz referindo-se ao actor que entrou em O Comboio Mistério, o seu filme de 1989, e que surge no final de Paterson.

Jarmusch queria trabalhar com a estrela iraniana exilada Golshifteh Farahani, de 33 anos, uma das actrizes mais decididas e interessantes no activo, e que está em ascensão a nível internacional devido ao seu papel em Piratas das Caraíbas: Os Mortos Não Contam Histórias.  
“Vi-a pela primeira vez em Meia Lua, um belíssimo filme curdo-iraniano [realizado por Bahman Ghobadi] que adoro, quando ela era muito nova. Depois vi-a numa série de outros filmes. Não queria que Laura fosse interpretada por uma americana, parecia-me demasiado óbvio. Por isso pensei: ‘Bem, escolhe a actriz que adoras e incorpora a etnicidade dela.’ Golshifteh disse que aceitava. Fiquei muito contente e depois acrescentei algumas coisinhas, alguma música pop persa que Laura escuta, e algumas das suas roupas apresentam alguns motivos de caligrafia farsi.”  
Da mesma forma, queria aproveitar as experiências de Adam Driver nos Fuzileiros, uma instituição rigorosa que muito raramente origina actores talentosos, como Harvey Keitel e Steve McQueen. “Coloquei apenas umas poucas referências, a fotografia e, claro, a forma como ele domina Everett no bar mostra que obviamente é alguém com treino militar. Não quis tornar essas coisas mais relevantes dado que eles não estão a fazer deles próprios. Mas queria ter algumas pequenas partes deles próprios.”

Acabou por encontrar no seu protagonista alguém com interesses e feitio semelhantes, e ajudou o actor de grande poder físico, 33 anos, a conseguir a sua actuação mais intimista, e uma das mais faladas para os prémios dos próximos meses.
“O Adam protege-se da mesma forma que eu, pois nunca vê os filmes em que participa, acredita que a sua força reside na capacidade de reagir, e nisso tem razão.”

Punk? Se faz favor, não

Tilda Swinton (Só os Amantes Sobrevivem, Os Limites do Controlo) apelida Jarmusch de “estrela de rock” do cinema, e o seu tufo de cabelo branco espetado e os seus óculos escuros ajudam a compor essa imagem. Parecendo espantosamente bem preservado para a idade, sem qualquer ruga à vista, dificilmente levará um estilo de vida rock’n’roll, e nos últimos vinte anos tem passado pelo menos uma semana por mês no seu retiro rural nas Montanhas Catskills. Mostra-se relutante em divulgar o segredo da sua juventude, brincando: “Talvez seja de ocasionalmente beber sangue humano.”  

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O realizador queria trabalhar com a estrela iraniana exilada Golshifteh Farahani, uma das actrizes mais decididas e interessantes no activo
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Sendo um produto do punk, afirma que muitas dessas bandas diziam-lhe muito e agora é amigo delas, mas desagrada-lhe se lhe chamamos um cineasta punk. “Preferia que não o fizesse. É certo que sinto que isso faz parte da minha vida, são esses os meus amigos, Joe Strummer, Mick Jones e Don Letts. Sou padrinho dos filhos do Don”, conta. Mas é também fã de hip-hop, admite que não é fechado na sua atitude face à música.
“Não gosto de todo o hip-hop, mas gosto de hip-hop desde os seus inícios nos anos 70, porque é uma extensão dos blues. Gosto de soul, e é claro que gosto de reggae. A música reggae dos‘sound-systems’, que foi trazida da Jamaica, foi o início da cultura hip-hop.”
Apenas ouve música, ou também dança?

“Não tem nada a ver com isso!”, replica. “Sou mais um ouvinte”, ri-se. “Não sou grande dançarino. Não sei movimentos de breakdance ou coisas do género.”

Mas acredita que nunca se é demasiado velho para apreciar o hip-hop…

“Não sei como é que a nossa idade nos pode afastar de algo. E não é só isso, é que também tenho algumas ligações a crianças. Elas ouvem as rádios pop ‘mainstream’ e não quero ser um velho que está sempre a dizer ‘Mas que porcaria é esta que está a tocar?’. Por isso tenho que ouvir Justin Bieber e Selena Gomez e Taylor Swift e tenho que perceber o que é aquilo, e alguma parte daquilo é boa.”

Jarmusch gostaria que os jovens aprendessem alguma coisa sobre poesia, arte e música – e não apenas cinema – com os seus filmes. “Ficaria muito contente, felicíssimo, se algum miúdo no Kansas retirasse alguma coisa dos meus filmes. Mas não sou nenhum curador cultural. Reconheço que sou um diletante e algumas pessoas pensam que isso é negativo. Na minha opinião, isso acontece porque na minha vida não tenho tempo para aprender apenas sobre um tema, por isso interesso-me por todos esses assuntos. Sou um micólogo amador… hã, é a identificação de cogumelos [o seu interesse provém de quase ter morrido após ter ingerido um cogumelo venenoso], e adoro música inglesa do século XVII. Quero apenas absorver as coisas que são importantes. O cinema incorpora e apresenta tantas formas, pelo que, na minha opinião, muitos dos grandes realizadores de cinema são diletantes. Eles sabem de uma data de coisas diferentes.”   

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Uma das suas maiores influências tem sido Nicholas Ray, realizador de “Rebel without a cause/Fúria de Viver”, que também teve impacto nos realizadores da Nouvelle Vague que Jarmusch tanto aprecia.

“Quando eu era novo fui assistente de Nicholas Ray, durante os últimos anos da vida dele”, relembra. “Ele teve um programa de rádio com música dos Appalaches nos anos 30, teve uma companhia de teatro, Bertolt Brecht dormiu no sofá dele, estudou arquitectura com Frank Lloyd Wright, e sabia tudo o que havia a saber sobre pintura e literatura. Conhecíamo-lo mais como um grande realizador, e era um diletante no melhor sentido da palavra. E é isso que sinto que é o meu trabalho.”

A nível pessoal, aproxima-se da abordagem budista no que respeita à forma como encara a vida. Já no tema da religião revela-se particularmente pitoresco.

“Sou tipo cripto-budista-ateu. Costumava ser ateu militante, agora já não acredito em dizer a outras pessoas o que elas devem pensar. Creio que as religiões se assemelham à superstição e não gosto de ser controlado por nada daquilo que elas fazem. Não gosto do monoteísmo ou da ideia de um velho com barba lá em cima no céu a julgar-nos após a nossa morte. No que me diz respeito, bem podem fazer o pino e adorar o rato Mickey.”    

Após aceitar um investimento financeiro da Amazon, sob a estrita condição de que Paterson seria primeiro exibido nos cinemas, Jarmusch poderá agora até aventurar-se na televisão, pois escreveu um episódio-piloto baseado em Ghost Dog: O Método do Samurai, juntamente com outro dos seus colaboradores habituais na área da música, RZA dos Wu-Tang Clan. “Passa-se no futuro próximo e tem muitas pessoas a viver naquilo que tinha sido o sistema de Metropolitano de Nova Iorque”, explica. “A ideia é eu ser o produtor-executivo, e até poderei dirigir o episódio-piloto. Acho que o argumento é tão bom que eles provavelmente não se interessarão por ele.”