Opinião

Caça, floresta, incúria e incêndios florestais

É imperioso inverter o despovoamento do interior. E ninguém de boa-fé poderá negar que o exercício da caça é um auxiliar de excelência.

Podemos ainda não saber a causa dos pavorosos incêndios do Pinhal Interior. Ou ainda a razão (depois de tantas falhas graves em tantos incêndios graves em tantos anos consecutivos) de ninguém ter verificado antes do Verão se o SIRESP estaria finalmente operacional. Ou ainda o alcance da “sentença” precoce “proferida” pela PJ sobre o raio e a árvore declarados culpados. Ou, sobretudo, como é possível o horror de morrerem 64 portugueses queimados em 2017 num incêndio florestal, 47 dos quais nos seus automóveis ao longo de 300 metros de uma estrada.

Mas há algo que todos sabemos — é que a tragédia se deu porque cada vez mais falta gente naquela e nas outras regiões do interior do país. Há anos que se acentua a desertificação do interior, a agricultura tradicional foi abandonada, a economia rural foi-se desmoronando, os jovens foram emigrando para o litoral deixando as terras, as casas e as propriedades entregues aos velhos, e os territórios entregues a si próprios. A floresta foi das últimas tábuas de salvação dos proprietários privados, que na sua imensa maioria não têm posses para a manterem cuidada e limpa.

Muitos combatem militantemente o pinheiro-bravo e o eucalipto dominantes na nossa floresta considerando-os culpados de todos os seus males, assim como as “celuloses” responsáveis pelo seu processamento. Por sua vontade, encerravam as “celuloses” e erradicavam-se os pinheiros-bravos e, sobretudo, os eucaliptos. Mas a realidade é que estas são as espécies que nos dias de hoje vão sustentando no terreno débeis economias rurais, e garantem ao nosso PIB 2800 milhões de euros anuais através da pasta e do papel.

Nem a floresta pode ser um negócio puro e duro nem se desconhecem as desvantagens daquelas espécies ou os danos ambientais causados pelas “celuloses”. Mas não é aceitável a ilusão de uma floresta utópica que não canalize para a indústria árvores que assegurem o retorno dos investimentos e algum lucro aos proprietários rurais. São necessárias políticas públicas consistentes e realistas para compatibilizar a floresta-recurso público com a floresta recurso-económico, baseadas no único interesse que conta, o dos objectivos estratégicos do país, seja na vertente económica e financeira, seja na do ordenamento florestal e territorial.

Os nossos legisladores e governantes têm corrido sempre atrás do prejuízo — só depois dos incêndios de 1995 tivemos uma Lei de Bases de Política Florestal, só depois dos de 2003 ela foi regulamentada e se elaborou um Plano Nacional contra os Incêndios. Até aos 45.000 ha ardidos de Pedrógão e aos 64 portugueses que ali morreram nunca se concretizaram verdadeiramente as medidas no terreno ou se monitorizaram as suas consequências. Isto tem que mudar.

A natureza da floresta que arde não explica tudo, porque a verdade é que cada vez há menos gente nela e a cuidar dela — e a que há está velha e depauperada física, económica e socialmente. Para isso contribuiu o desaparecimento dos antigos guarda-rios, primeiro, depois a extinção dos Serviços Florestais e por arrastamento a dos guardas florestais, integrados na GNR.

É imperioso inverter o despovoamento do interior. E ninguém de boa-fé poderá negar que o exercício ordenado e sustentável da caça é um auxiliar da natureza de excelência: a presença constante dos guardas de caça das zonas de caça de regime especial associativas, turísticas e municipais nos nossos campos e florestas é o principal garante de uma prevenção eficaz e de uma detecção precoce dos fogos florestais.

E depois, onde há actividade económica, há pessoas. O exercício da caça sustentável garante oferta e procura, gestores e clientes, trabalho e trabalhadores, planeamento e gestão, vigilância e conservação. Sendo a caça praticada essencialmente nas zonas rurais do interior desertificado e empobrecido, ela gera riqueza e emprego onde mais falta fazem, e contribui para evitar os incêndios onde eles são mais prováveis.

A caça é uma actividade lúdica profundamente enraizada na nossa cultura. O turismo cinegético que movimenta milhares de caçadores internacionais em Espanha — e não movimenta em Portugal porque a política, o turismo e a economia não lhe dão importância — é um relevante sector contribuinte líquido do PIB. Não compreendemos que o Estado português não assuma de vez a importância estratégica da caça — social, económica, financeira e, sobretudo, humana.

Por mais bombeiros que combatam esporadicamente os incêndios, eles nunca substituirão as pessoas que mantêm com a floresta e com a natureza uma relação próxima e permanente — e, no caso das pessoas que caçam, baseada no respeito cúmplice e num legitimo interesse recíproco. Por isso, rejeitamos a hostilidade e a agressividade daqueles para quem a conservação, a natureza e os animais são apenas instrumentos mediáticos de ideologias e estratégias que vêem na caça uma actividade anti-social e anti-humana, precisamente o contrário do que ela verdadeiramente é.

Como dizia Ortega y Gasset, “necessitamos de conservar esse acre impulso que do ante-homem herdámos... Mas... O homem não pode reingressar na natureza senão reabilitando o que ainda tem de animal. Pois bem: animal, puro animal, não há mais nenhum senão o silvestre, e a relação com ele é a caça.”