A Torre tem uma galeria de arte nas paredes, guiada pelos jovens que andam a mudar o bairro

Há uma coisa a acontecer no Bairro da Torre, em Cascais: os jovens estão a mudá-lo. E fazem uma visita guiada pela galeria de arte urbana que nasceu nas paredes das suas casas. Já ninguém tem medo de entrar.

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Nuno Ferreira Santos
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Nuno Ferreira Santos

Nos primeiros anos do projecto, Claudino Brito, conhecido por "Robz", aparecia naquela sala quando lhe apetecia. “Andava mais na rua”. Agora aquela sala de trabalho mais lhe parece a sua própria casa.

É uma casa complexa, com uma engrenagem oleada: é a sede do Take.It, um projecto da Câmara Municipal de Cascais, gerido pela Associação Ideias Oblíquas e co-financiado pelo programa Escolhas, que procura criar respostas para dar a volta aos comportamentos desviantes de jovens dos bairros da Torre e Galiza, em Cascais. O Somos Torre é uma dessas respostas que, através dos edifícios, procura reabilitar o bairro social e as suas gentes. Porque, “melhorando os edifícios, limpando o bairro, também se melhoram as pessoas”, diz "Robz". Afinal, em 28 anos, nunca tinha visto uma passadeira no bairro até ao momento em que começaram a trazer artistas para pintar as paredes e a “reivindicar direitos”. A passadeira é uma boa metáfora.

“Quando começámos a tratar do bairro, as pessoas e a câmara viram que não éramos os miúdos que partem coisas e consomem. Agora, para elas, somos os jovens que andam a mudar o bairro.” Também para si as coisas mudaram. A dada altura também se sentia fechado: “Sentia que não era de Cascais, era dos do bairro.” As coisas mudaram de forma clara quando parte do Somos Torre criou o Cascais à nossa maneira, para fazer visitas guiadas à galeria de arte urbana do bairro.

“Há um ano nunca me veria a apresentar um projecto para um presidente da junta. Agora é uma coisa normal”. "Robz" foi um bocado arrastado, admite. Não ligava nada ao projecto até lhe terem posto a responsabilidade em cima. Os coordenadores sabiam que se dava bem com a comunidade. “Então pegaram em mim e puseram-me a fazer a ligação para agarrar outros jovens.” Foi ele que chamou Paco (Francisco Candeias), Zeca (José Carlos Avelino) e José Henriques. A oportunidade fê-lo pensar e querer: “Vou fazer algo pela minha comunidade.”

Hoje, "Robz", "Paco", "Zeca" e José são os guias. Tiveram quatro meses de formação com a ImpacTrip, uma empresa de turismo sustentável, que apoiou o projecto. Deu-lhes ferramentas e ajudou-os a criar o seu posto de trabalho. Os horários mudam consoante as marcações dos turistas que procuram, numa hora e meia, conhecer o bairro e as 11 empenas que compõem a sua galeria de arte urbana. O salário varia: recebem 70% do valor da visita, cujos preços oscilam entre os 15 (só visita) e os 30 euros (visita com almoço no bairro e uma t-shirt). Os restantes 30% revertem para a comunicação do projecto.

Uma parte destas pinturas tem o cunho do Somos Torre, mas a maioria é resultado do festival de arte urbana Muraliza, realizado pela associação de intervenção criativa Mistaker Maker.

Os vizinhos interrompem a visita para cumprimentar os guias. As crianças correm no meio do grupo. Afinal estes jovens trabalham em casa. Os quatro tinham tudo para cair no ciclo em que caem alguns dos jovens que o projecto “ainda não conseguiu agarrar”. Abandonaram os estudos cedo, os consumos estão na rua à saída de casa, as perspectivas de emprego estão do lado de fora de bairro. E o bairro já lhes pareceu “tão isolado”.

“As pessoas perceberam que não precisam de ter medo de vir cá”

A Torre é um antigo bairro de pescadores e a maioria dos murais presta-lhes homenagem. Há a varina de Add Fuel. Mais à frente, o pescador de Daniel Eme. A olhar pelo parque infantil está a vida subaquática desenhada por Kruella – o mural que “ganha vida à noite”, ilustra José Henriques, quando as cores brilham no escuro. É como se iluminassem o recreio logo ao lado, um espaço nascido daquela que já é a herança do Somos Torre: a mobilização dos poderes locais para o bairro. “As pessoas perceberam que não precisam de ter medo de vir cá”, diz Zeca.

Os homens e o ofício do mar é também a inspiração dos nomes de quase todas as ruas do bairro: a rua Estrela do Mar, as das Caravelas, a Praça da Gaivota e a rua dos Salmonetes.

A rua do Congo poderia parecer desenquadrada se este fosse o seu nome verdadeiro. Chamam-lhe assim “por graça”, por ser a rua mais frequentada todas as tardes, todas as noites, pelos jovens do bairro. Ainda espreitam, no fim da rua, as sapatilhas presas pelos cordões nos fios eléctricos, mas esta rua “passou por uma revolução”. Antes tinha carros roubados, “jovens a entrar por outras vias”. Agora é uma zona de convívio, não de confronto. E tornou-se o “símbolo de orgulho no bairro”, introduz José Henriques ao apontar para o mural quase no final da rua. Tem pintadas as várias palavras escolhidas pelos moradores mais jovens da Torre: imaginação, feliz, fixe, amizade e felicidade foram as palavras das crianças; energia, amor, família, respeito, liberdade, sonho e paz foram os desejos dos mais velhos. “Estes são os sentimentos do bairro numa parede.”

Para além do legado das lides do mar, os desenhos da Torre são um retrato, por vezes literal, dos seus moradores. Smile desenhou – “sem querer”, dizem os guias – uma mulher semelhante a uma das moradoras do prédio. Os traços africanos em figuras femininas são o motivo de várias obras, em homenagem à diversidade cultural e étnica deste bairro em que a cor de pele motivou grandes ódios. Afinal, os murais nas empenas vieram tapar os graffitis racistas e xenófobos que viravam a comunidade contra si mesma. Agora os moradores vêem-se representados nas cores garridas das paredes. Em especial no mural do cabo-verdiano Adalberto, em que a cor de pele do homem e da mulher pintados se mistura no rosto de ambos.

“Como gostam, cuidam mais do bairro”, repara Paco. Os moradores recuperam uma união perdida algures no tempo, nas discussões étnicas, garantem estes jovens. Não é tudo perfeito, mas para melhor se caminha. Antes do Take.it, “o bairro estava farto de projectos do ‘toca e foge’. Ninguém acreditava que íamos conseguir fazer alguma coisa”. Hoje acham que estão a conseguir. O grupo já tem em marcha a organização de um festival de arte urbana, durante oito dias no verão do próximo ano: com oito empenas, oito gruas, oito concertos. Depois disso, "Robz" espera uma bola de neve. Afinal, se há um ano não imaginava que estaria aqui, nada lhe parece muito impossível. 

Artigo alterado às 11h20 de dia 27 de Junho com informação sobre a origem dos murais.