Pedro Jóia Trio: “Eu queria uma música que mexesse connosco”

O trio de Pedro Jóia apresenta o seu disco de estreia esta segunda-feira nos Claustros dos Jerónimos, em Lisboa, com um convidado muito especial: Ney Matogrosso. Às 21h30.

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Pedro Jóia: "Tudo isto é muito rítmico, mas não usamos percussão" Daniel Rocha
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O trio: Norton Daiello, Pedro Jóia e João Frade DR
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Ney Matogrosso no seu mais recente espectáculo, Atento aos Sinais Marcos Hermes

Pedro Jóia já tocou com Ney Matogrosso em Portugal e no Brasil, em projectos como Canto Em Qualquer Canto. Agora, é Ney Matogrosso que se junta a Pedro Jóia no lançamento em palco do seu aguardado registo em trio: Vendaval. Será esta segunda-feira, em Lisboa, nos Claustros do Mosteiro dos Jerónimos, às 21h30. Na primeira parte, o trio de Jóia mostrará o seu brilho; na segunda, Ney fará brilhar a jóia da sua arte.

Pedro Jóia já contara ao PÚBLICO que tudo nasceu de um corridinho. “Comecei a tocá-lo na guitarra, funcionou bem, lembrei-me logo do João Frade, porque é um acordeonista algarvio fantástico. E o Norton Daiello, há muito tempo que eu queria trabalhar com ele. Então pensei numa formação inusitada: guitarra, acordeão, baixo.” Isso foi em finais de 2014. Agora, com o disco gravado (deverá estar disponível no concerto), Pedro Jóia está visivelmente satisfeito com o resultado e com a perspectiva do lançamento em palco.

“O disco FOI gravado ao vivo em estúdio. Lutámos muito para que isso acontecesse. Tirando uma peça ou duas, tudo isto foi muito rodado em palco.” O que permitiu que os temas fossem tomando a forma desejada, aperfeiçoando-se antes do registo final. “Eu queria uma música que mexesse connosco, desprendido da ideia de ser um disco de autor.” E o tema de abertura é o tal que deu origem ao trio, o corridinho Alma algarvia, de José Ferreiro (pai), um acordeonista já falecido. E a vivacidade do tema contamina o disco. “O nosso trio foi construído um pouco nessa base. Podem criticar-nos dizendo que é muito ‘fogo-de-artifício’, mas o nosso principal desafio foi tocar sem percussionista. Tudo isto é muito rítmico, mas não usamos percussão. Essa é a nossa principal matriz.”

Um desafio, com Ney

No espectáculo, o disco não será tocado na íntegra. Mas quem o ouvir depois terá pela frente sete composições originais (quatro de Pedro Jóia, duas de João Frade e uma de Norton Daiello) e quatro versões. Além do já citado corridinho, Alma algarvia, há Zyryab, de Paco de Lucía; Feira de Mangaio, de Sivuca; e Meditando, de Armandinho.

Os claustros dos Jerónimos já têm sido usados para concertos, embora com parcimónia. Pedro Jóia ainda se lembra se ali ver Tom Jobim com a sua Banda Nova [foi em 10 de Setembro de 1992] e a sugestão de lá tocar foi dele, ainda sem saber se seria possível. Para seu espanto, a ideia foi bem aceite, e Ney Matogrosso também aceitou o convite para participar: o que parecia um sonho concretiza-se esta segunda-feira. “O Ney vai cantar repertório dele, apenas, e nós vamos adaptar o trio a esse repertório. É um desafio nosso. Porque nem nós somos um trio de acompanhamento, nem o Ney é um artista que se incorpore em projectos alheios. Talvez esteja o Ney mais habituado a trabalhar com músicos solistas do que nós a trabalhar com cantores, embora já o tenhamos feito uma vez com a Mariza, numa homenagem ao Paco de Lucía em Castro Marim.”

Pedro Jóia já convidara Ney Matogrosso para cantar num disco seu, Jacarandá (2003), e Ney convidou Pedro a tocar em Vagabundo (2004) e Canto Em Qualquer Canto (2005).

Trabalho estimulante

Desde que o projecto do trio foi estreado, em 2014, primeiro na Festa do Avante e depois no Jardim de Inverno do São Luiz, em Lisboa já correu vários palcos até chegar aos Jerónimos. “Fizemos uma tournée na China, com a Fundação Oriente. E tocámos muito em Portugal, em festivais de jazz, em homenagens ao Paco de Lucía. Temos tocado mais a Sul, de Coimbra para baixo.”

Se se perguntar a Pedro Jóia o que o entusiasma mais, em tudo isto, ele responde: “Entusiasma-me muito, desde o início, a combinação destes instrumentos. É bastante inusitada, timbricamente. Nunca tinha trabalhado com acordeão, ou raramente, e aquilo é uma máquina de som infernal; o baixo do Norton também é muito forte, de maneira que a guitarra ali no baixo, um instrumentozinho acústico, quase que fura a pulso. Mas encontrámos um equilíbrio, é um desafio nosso. E sem percussionista!” Nos Jerónimos, porém, abrem uma excepção. “O Vicky é nosso convidado. Mas vai tocar os temas do Ney connosco, não os do trio.”

Há ainda outra coisa que entusiasma Pedro Jóia, e essa é fundamental para a boa saúde do trio. “O João e o Norton são duas figuras musicais muito interessantes. E têm-se revelado também enquanto compositores. Realmente entusiasma-me trabalhar com músicos muito curiosos em novas músicas, em desenvolver o instrumento a cada dia. E é muito desafiador trabalhar com eles, estimulamo-nos muito nesse aspecto criativo.”