Todos os fogos o fogo

Espera-se agora, em Londres tal como em Pedrógão ou outros lugares de devastação – e são tantos, por esse mundo fora, da Califórnia à Austrália – que a lição dos fogos seja finalmente aprendida.

Num conto que dá o título a um dos seus livros dos fins dos anos 1960, Todos os Fogos o Fogo, o argentino Julio Cortázar contrapõe estreitamente duas narrativas ligadas de forma enigmática pelo tema do fogo, como se não houvesse fronteiras entre uma e outra. A primeira passa-se no tempo do Império Romano, numa arena onde lutam dois gladiadores, a outra é uma intriga amorosa contemporânea. Ambas terminam com incêndios. Se essa conjugação permanece misteriosa, o fogo, elemento de destruição entre todos, acaba por emprestar-lhe um sentido inusitado.

Embora não seja propriamente supersticioso, quando ocorreu o terrível incêndio na torre de apartamentos Grenfell, num dos bairros mais ricos de Londres, Kensington, tive o assustador pressentimento de que voltaríamos em breve a assistir a mais um dos tremendos fogos de Verão que todos os anos assolam Portugal. Infelizmente, a tragédia aconteceu ainda mais cedo do que seria previsível nesta era do imprevisível, de novo numa área do interior do país desordenado, descoordenado e desestruturado que continuamos a ser – tal como continuamos a não aprender nada ou quase nada com as lições do passado (por mais repetidas e recentes que sejam). Acordamos do pesadelo prometendo que ele não voltará a repetir-se, depois de o termos feito vezes sem conta na sequência de pesadelos anteriores.

Ficou-me – como no conto de Cortázar – o contraponto entre duas imagens, mas estas fantasmagóricas, inspiradas por um filme-catástrofe: a da torre de apartamentos de Londres e a da estrada 236-1 após os fogos que condenaram à morte um número macabramente semelhante de pessoas apanhadas pelas chamas e sufocadas pelo fumo. E ficou-me também a força de denúncia e acusação dessas imagens sobre a incúria dos homens.

A torre Grenfell é um símbolo quase grotesco, se não fosse trágico, das desigualdades gritantes que se manifestam no coração das metrópoles contemporâneas: camadas de imigrantes de todas as proveniências, empilhados uns sobre os outros, num arranha-céus desprovido das mais básicas condições de segurança e onde materiais altamente inflamáveis tinham sido utilizados, por motivos de ganância criminosa, em obras recentes de renovação do prédio, ilha de exclusão social num dos bairros mais opulentos da capital britânica.

Em Pedrógão e áreas circundantes, a situação é outra, mas o sentido convergente: a de um país que foi ficando esquecido e envelhecido nas malhas fatais da sua interioridade (outra ilha entre tantas outras, também), da sua floresta de propriedade mais ou menos anónima e entregue às espécies combustíveis que se foram instalando no espaço do abandono e à mercê do fogo. Fala-se agora, pela enésima vez, da urgência absoluta da reforma florestal, sempre adiada e sempre metida entre parêntesis nas agendas frívolas da política. Como se fala dos sistemas de protecção civil que não funcionam, depois de se saber que não funcionavam e estavam reféns de negociatas miseráveis e nunca concludentemente denunciadas (como é o caso do SIRESP).

Espera-se agora, em Londres tal como em Pedrógão ou outros lugares de devastação – e são tantos, por esse mundo fora, da Califórnia à Austrália – que a lição dos fogos seja finalmente aprendida. Mas se, em Londres, a insensibilidade chocante da primeira-ministra Theresa May – alvo de uma quase revolta popular – teve, em Portugal, o contraponto de empatia e humanidade do Presidente Marcelo – que funcionou como um bálsamo para a dor de tantos –, o sobressalto provocado pelos fogos está longe de assegurar a capacidade de redenção de sociedades onde se foi interiorizando a impotência política para lidar com a fatalidade. Pelo menos, e de uma vez por todas, não podemos voltar a adormecer.