Jeremy Corbyn

Corbyn usou a Internet para driblar os tablóides e chegar aos jovens

Enquanto os hiperconservadores jornais populares britânicos gozavam e atacavam o líder trabalhista britânico, as redes sociais abriram-lhe um canal alternativo para fazer campanha - com excelentes resultados.
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Corbyn não ganhou as eleições de 8 de Junho, mas aumentou em 30 deputados a representação do Labour no Parlamento Peter Nicholls/Reuters

No Reino Unido, as críticas ao Governo conservador de Theresa May passam das redes sociais para a rua. Milhares marcharam em protestos convocados via Facebook contra a primeira-ministra britânica, ajudando a mudar a dinâmica das eleições. Já há mais agendados até Julho.

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“Temos que recorrer às redes sociais para transmitir uma mensagem de esquerda neste país. Parece que os media tradicionais ingleses nos ignoram”, queixa-se ao PÚBLICO Sara Hanna-Black, de 33 anos, que está por trás de um protesto sábado em Londres. “Só queremos que May se vá embora. As pessoas estão zangadas com o futuro que estão a dar ao país.”

Para os muitos que se opõem ao Governo conservador, o líder do Partido Trabalhista, Jeremy Corbyn, surge como um herói: nos cartazes e T-shirts usados nos protestos (inspirados em imagens partilhadas em grupos online), é comum vê-lo como um cavaleiro da saga Guerra das Estrelas que faz frente ao lado negro da força, representado pela primeira-ministra (descrita na Internet pelos detractores como um robô sem sentimentos com o nome MayBot).

Depois das eleições de 8 de Junho, o partido de Theresa May já não tem maioria parlamentar. Apesar da vitória, May perdeu 12 lugares em Westminster enquanto Corbyn, o principal opositor, conquistou mais 30. A campanha trabalhista ofereceu em políticas apelativas para os mais jovens, como a eliminação das propinas universitárias e a manutenção do sistema universal de saúde.

“O movimento é mais que o homem,” diz Hanna-Black. “As redes sociais aceleraram o processo. É claro que sabia que as 18 mil pessoas que mostraram interesse no evento de sábado não iam todas aparecer, mas a mensagem chegou até elas.”

Mesmo quem falta aos protestos divulga-os online e faz textos de humor, vídeos e montagens, alguns dos quais desfilam depois nas ruas. É uma forma de combater os tablóides conservadores – como os jornais Sun e o Daily Mail, criticados pelos apoiantes do Partido Trabalhista por publicarem montagens em que Corbyn surge com um chapéu de palhaço, ou com o nome mal escrito – Cor-bin – num trocadilho com a palavra “caixote do lixo” em inglês (bin).

Mensagem de esquerda

Porém, a aura utópica que Corbyn tem online pode ser a sua ruína, argumenta o académico Charlie Beckett, que dirige um think tank dedicado aos media na London School of Economics. “A retórica nas redes sociais é muito idealista. Mas, se Corbyn chegar ao poder, não poderá evitar aceitar alguns compromissos sobre as suas ideias. Isto pode dar azo a desilusão e revolta profunda”, diz o investigador ao PÚBLICO.

“Muitos blogues de esquerda também são extremamente partidários e não mostram muito outros pontos de vista. Um dos problemas das redes sociais é que são boas a juntar pessoas que concordam com uma ideia, mas é difícil usá-las para convencer outros a mudar de opinião”, frisa Beckett.

Ainda assim, Beckett vê a utilização das redes sociais como uma estratégia inteligente para levar uma mensagem de esquerda aos jovens: “Muitos jornais tradicionais são de direita. Embora as pessoas estejam mais cépticas sobre o que lêem dentro e fora da Internet, tendem a confiar nos media que têm uma mensagem com a qual concordam.”

Com o clima político que se vive no Reino Unido, depois da campanha extremamente polarizada do "Brexit", houve uma queda do número de pessoas que acreditam na informação que lêem nos órgãos noticiosos. Um estudo recente do Instituto Reuters para o Estudo do Jornalismo indica que só 43% dos consumidores britânicos confiam nas notícias, uma descida de sete pontos percentuais nos últimos 12 meses.

A desconfiança é particularmente notória na faixa etária abaixo dos 35 anos, com a imprensa e os sites noticiosos de direita a serem vistos como as “claques do movimento para sair da União Europeia”. Apesar da grande utilização das redes sociais para partilhar ideias políticas, apenas 18% confia nas notícias que encontra nestas plataformas.

Conteúdo viral

Este ano a fama de Corbyn não se ficou pelas redes sociais: os mais jovens – por norma, a faixa etária que mais se abstém de votar nas eleições – foram mesmo às urnas. Segundo dados da empresa de sondagens Ipsos Mori, 54% dos jovens entre os 18 e os 24 anos terão ido votar (é uma subida de 16 pontos percentuais em relação às eleições de 2015). Destes, 62% terão votado a favor do Partido Trabalhista. 

A líder da União Nacional de Estudantes (NUS) estava à espera. “Somos uma demografia esquecida com políticos que raramente nos ouvem, mas estas eleições enviaram uma mensagem clara aos líderes dos partidos que achavam que íamos ficar passivos”, diz Malia Bouattia. “Sabemos sair para votar quando vemos alternativas políticas em que acreditamos.”

Nos últimos meses, Bouattia utilizou activamente o Facebook e o Twitter para motivar os jovens a votar: “É óbvio que as redes sociais vão funcionar com a demografia que mais as usa. Podem partilhar vídeos e aceder facilmente a debates, que é algo que por norma não vêem.”

Além disso, a maioria do conteúdo online pró-Corbyn é criada pelos próprios apoiantes. Foi a estratégia chave do People’s Momentum, uma organização independente do Partido Trabalhista que apoia Jeremy Corbyn. “Quando se escreve na Internet para pessoas jovens é fundamental tê-los a escrever. Todo o nosso conteúdo para jovens é feito por pessoas com menos de 30 anos”, diz ao PÚBLICO Joseph Todd, um porta-voz desta organização.

Walker Darke, 22 anos, é um dos casos. Tornou-se administrador da página de Facebook do Momentum para a cidade de Wolverhampton em 2015 (quando Corbyn chegou à liderança do Partido Trabalhista) porque era o membro mais jovem na sua zona. “As redes sociais são fundamentais na democracia moderna,” diz Darke. “Os partidos com mais dinheiro e apoiantes ricos podem gastar mais em publicidade direccionada do que os partidos mais pequenos. Mas uma mensagem apelativa, com humor, nas redes sociais, pode-se tornar viral e chegar a todos.”

O conteúdo é ousado. Num dos vídeos, vê-se um pai a dizer que vai votar em Theresa May porque odeia a filha e, por isso, ela não merece um futuro com um serviço nacional de saúde ou educação acessível. “As estatísticas não funcionam sempre. É preciso apelar às emoções para começar uma conversa dentro e fora da Internet”, diz Todd.

Enquanto o Facebook foi utilizado para reunir grandes grupos, a aplicação de mensagens WhatsApp foi usada junto dos mais jovens para lembrá-los de irem votar. Já o Twitter serviu para chegar a comentadores e jornalistas.

Em 2016, esta estratégia de criação de conteúdo viral online também foi observada do outro lado do Atlântico, com Bernie Sanders, o rival de Hillary Clinton à liderança do Partido Democrático. Sanders perdeu, mas o seu sucesso junto dos jovens ainda não foi esquecido. Este ano, Claire Sandberg – uma das organizadoras da campanha digital do candidato norte-americano – aconselhou vários grupos independentes no Reino Unido, como o Momentum, sobre como levar a mensagem política aos jovens.

“Em vez de contratar muitas pessoas para defender alguns ideais políticos, as campanhas devem depender essencialmente de voluntários que acreditam na mensagem”, diz Sandberg ao PÚBLICO. “O online é fundamental. Sem a percepção da existência de uma discussão em massa na Internet é difícil motivar os jovens a sair para a rua em campanha.”