Crónica

A dor do silêncio e a força das vozes

Esta crónica estava destinada a falar de vozes. Mas as que se levantaram, no horror das chamas, impuseram-se em primeiro lugar.

A cada imagem revista, repetida, recordada, da tragédia de Pedrógão Grande, há um primeiro momento em que se impõe o silêncio. A dor dos que a viveram e ainda a vivem, vidas destruídas pelo fogo e pelas vergonhosas falhas dos homens, a dor indizível dos que ali morreram, tudo isto procura palavras e se perde nelas, silenciando-se na incredulidade e na revolta. Mas como muitos disseram nestes dias e nos anos anteriores sem resultados visíveis, sobram estudos e relatórios onde se impunha acção com bases científicas, prevenção eficaz, cumprimento das leis, profissionalismo em vez de voluntarismo, previsibilidade em vez de ignorância, uma gestão do território adequada e com um investimento à altura e não com intervenções casuísticas, etc. No PÚBLICO escreveu-se: “O que falhou? Tudo, como há décadas.” E apontaram-se falhas, más opções, caminhos errados que se mantêm por desmazelada e criminosa inércia. O foco no imediato, no sufoco dos bombeiros, no acudir só às vítimas de hoje esquecendo as de amanhã, marca o nosso triste fado e deixa o terreno aberto a mais tragédias. E uma delas é sermos tão rápidos a acudir como a esquecer. É isso que leva a que tudo se repita: a tragédia, os lamentos, as soluções que existem mas tardam. Mais do que dizer “vamos agir” é preciso agir. Sem demoras. Porque os incêndios continuam e continuarão a devorar a floresta, calamitosamente, e o nosso mal é só repararmos neles com indignação quando alguém morre. Porque teria sido trágico o incêndio de Pedrógão Grande, mesmo sem mortos. Só que duraria pouco, no topo das notícias.

Esta crónica estava destinada a falar de vozes. Mas as que se levantaram, no horror das chamas, em súplicas ou em avisos severos ao nosso anestesiado autoconvencimento, impuseram-se em primeiro lugar. Destas, algumas hão-de verter-se para a cultura, que é a memória sublimada das nossas vidas. E é dessa cultura, nacional, universal, que outras vozes sobressaem por estes dias à margem da tragédia (algumas até reagindo solidariamente a ela, em espectáculos beneficentes).

Na Casa Fernando Pessoa, por exemplo, há encontro marcado com poetas nos dias 30 de Junho e 1 de Julho, em associação com Lisboa Capital Ibero-Americana da Cultura. No dia 30 ali estarão, em mesa-redonda, Paula Abramo (México), Andrés Neuman (Argentina), Conceição Evaristo (Brasil) e Raúl Zurita (Chile), e no dia 1 Sandra Santana (Espanha), Luis Felipe Fabre (México), Ricardo Domeneck (Brasil) e Vasco Gato (Portugal). Ambos às 18h30. No dia 1, às 22h, haverá no bar do teatro A Barraca, no âmbito do Festival Silêncio!, Leituras por vários destes poetas.

Por falar em poetas, a Sociedade Portuguesa de Autores registou em disco (e editou, sob o título A Voz dos Poetas) vários deles a dizerem a sua própria poesia. Todos eles ligados à SPA, alguns já desaparecidos, como Vasco Graça Moura ou António Rebordão Navarro, mas a maioria ainda no activo, como Maria Teresa Horta, Mário Cláudio, Joaquim Pessoa ou Yvette K. Centeno (entre 14 nomes), retomando uma prática, o registo da voz dos poetas, que infelizmente se foi perdendo.

Outras vozes, estas ligadas à cultura urbana contemporânea, são as do rap, que o livro RAPublicar traz para a ribalta. Tendo como subtítulo “A micro-história que fez história numa Lisboa adiada (1986-1996)”, é fruto de um trabalho persistente da investigadora Soraia Simões (também autora do projecto Mural Sonoro) e chega esta sexta-feira às lojas em formato de audiolivro (parte das entrevistas são acedidas online). Este é um trabalho pioneiro que procura fazer história de forma aberta, já que as entrevistas e recolhas continuam, para lá do formato físico do livro em papel.

Por fim, o mais importante escritor, filósofo e poeta (e também missionário e teólogo) da língua catalã, Raimundo Lúlio (1232-1315), vai ser homenageado, com a sua Catalunha, esta quinta-feira às 10h na Academia das Ciências de Lisboa, com a apresentação do livro Ramon Lull: vida e obra, da autoria de Pere Villalba. Será ali assinado um Convénio Científico e Cultural entre o Institut d’Estudis Catalans e a Academia das Ciências. Vozes, todas elas, a romperem silêncios.